Desafios para todos

Temos desafios para todos os lados: para alguns sobrevivência, para outros evidência

Eric Balbinus

O primeiro turno das eleições municipais trouxe algumas conclusões evidentes, dentre elas a fragorosa derrota do bolsonarismo e a desidratação ainda maior do lulopetismo. O PSOL finalmente criou musculatura e disputa poder dentro do espectro das esquerdas enquanto o partido Novo se perdeu a ponto de não conseguir uma única prefeitura de interior que servisse de vitrine para seu modo de “política sem política”. E o que é claro: o discurso de renovação se desgastou por uma série de fatores, e agora não seduz tanto quanto nos idos de 2016.

Temos desafios para todos os lados: para alguns sobrevivência, para outros evidência. Detalhes colaterais: a derrota do bolsonarismo não representa avanço das esquerdas apesar do PSOL se desenvolver como uma corrente mais relevante. Aliás, para as esquerdas o resultado não poderia ser mais terrível. Quem está esfregando as mãos é a centro-direita, aqui representada pelo que chamamos de “centrão”. Aquele conglomerado disforme e heterogêneo de partidos fisiológicos que é sócio de todos os governos apesar da própria natureza. Estes são os grandes vencedores.

O que há de imediato é que o bolsonarismo terá que negociar ainda mais com este grupo. Aquela movimentação que se desenrola desde o começo de 2020 deve se intensificar: os elementos ideológicos provavelmente serão desalojados para que os indicados do grupo de sempre tome parte no butim. Se Jair conseguiu algum apoio de ocasião quando cedeu a contragosto o auxílio emergencial, agora ele enfrenta um retorno a normalidade espinhosa. As pesquisas já indicam a tendência de queda, evidenciada antes pelo efeito que causava nos seus apoiados: todos que eram ungidos por Jair caiam. Nomes como Delegada Patrícia e Celso Russomanno não interpretaram os sinais e naufragaram. O único que talvez não possa culpar a peçonha do presidente é Marcelo Crivella: o bispo fez por merecer a rejeição, a ida sofrida ao segundo turno parece descambar para uma derrota humilhante no domingo.

Imaginem só os próximos meses: crise econômica em estágio avançado, eleições para as presidências das casas do Congresso fervilhando, Bolsonaro sem ao menos um partido para reclinar a cabeça e seus sicários enlouquecidos arreganhando os dentes para a democracia. Sem auxílio emergencial e com recursos ilimitados para ceder ao centrão a vida do presidente ficará mais difícil. Talvez não chegue a 2022 com viabilidade política. Talvez nem chegue a 2022.

O futuro não é nebuloso apenas para Jair, pior será para os que vivem sob seu jugo. O rei louco permanecerá no comando do país, combatido apenas com as incansáveis notas de repúdio? Sobreviveremos a Bolsonaro ou seremos consumidos em meio a florestas em chamas, isolamento internacional, ingovernabilidade, talvez uma segunda onda da pandemia ou a inviabilização política de uma provável vacina? Ninguém sabe, já que nossa classe política não consegue atender os desafios de nossa conjuntura. Nem mesmo a oposição é altiva, todos os reveses sofridos por Bolsonaro foram conquistados pelo próprio. Somos um país à deriva. Talvez a única certeza destes dias seja a incerteza vindoura.

Analista político. Cristão batista, conservador na política e corintiano nos costumes

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Autor: Brasil Decide

Política e democracia

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