Não podemos permitir que os intocáveis se tornem intocáveis de fato. A premissa básica de um República é que todos são iguais. Quando alguns pelo cargo que ocupam ficam blindados e não respondem pelos seus atos, estes acabam virando monarcas sem monarquia.
Só temos nossa voz que ainda podemos nos expressar nas redes e, principalmente, nas ruas. Ainda mais que em alguns dias o país vai às urnas.
É a nossa chance de mostrar com força o descontentamento não só com os políticos, mas contra altas autoridades que enxovalharam suas togas e destruíram a credibilidade da justiça brasileira. O 7 de setembro é a data perfeita. Dia da pátria.
Vamos honrar a letra do hino nacional verás que um filho teu não foge à luta. Vamos lutar pela República. Pela democracia. Pela liberdade.
Uma fala do candidato a governador do Ceará Ciro Gomes (PSDB) me chamou atenção e fui ver para crer. Ciro disse em ato de capanha em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, que Emilia Pessoa (PSDB) só não foi ao segundo turno por apenas 8 votos (OITO).
Mas o grave da declaração do Ciro foi que uma família teria dito para a então candidata que estaria se mudando da cidade por ameaças de facção criminosa. Ou seja, o resultado de uma eleição foi decidido por facção criminosa.
Não que seja novidade. Há forte suspeita que o crime organizado tem várias prefeituras do estado sob seu controle. Facções estão infiltrando gente sua nas Câmaras de vereadores ao Congresso e até nos governos e judiciário.
O caso de Caucaia é simbólico e é uma ameaça real à democracia. Brasil caminha para ser uma Colômbia e um México.
O mais grave é saber que Moraes teve aval do Paulo Gonet, confirmando que a PGR virou órgão a serviço dos ministros do STF, de blindagem aos deuses do olimpo. O que fará a ABI e a ABRAJI? Protestarão? Ingressarão uma ação contra esse ataque que pode ser mortal ao jornalismo e ao jornalismo investigativo? Ficarão em silêncio cúmplice?
O Brasil está cada vez mais perto do pior tipo de ditadura que é a ditadura de juízes. É se levantar contra antes que seja tarde, se já não é tarde. Alimentaram o monstro que enfrentou o ex-presidente e o seu movimento. Agora o monstro começa a devora-los. Todo regime de exceção é sempre assim. Depois de instituído, o dito cujo vai atrás até de quem o apoiou.
Se não entenderem a partir de agora que não foi em defesa da democracia, mas em autoproteção, já era. O Estado de direto foi golpeado em nome dele e está praticamente morto. Quem aplaudiu que comece a escrever o seu editorial de arrependimento já, sem esperar 50 anos.
O fundo especial para campanhas eleitorais foi instituído em 2017 para as campanhas de 2018 após o STF julgar inconstitucional doações eleitorais de empresas.
O “Fundão Eleitoral”, como ficou conhecido, será de quase R$ 5 bilhões em 2026. É questionável não só o valor como a existência desse fundo público para campanhas políticas.
Por um lado, a democracia tem alto custo e precisa ser financiada de algum modo ou o crime organizado se aproveitará, já se aproveita de várias formas. Já outra visão não acha justo a população ser obrigada a financiar campanhas eleitorais – financiamento popular de campanhas políticas tem que ser individual e voluntária.
Doações de empresas para candidatos viraram a porta de entrada para a corrupção. Não que com o fim delas foi o fim da corrupção, pelo contrário, mas deu um verniz de moralização. O problema é a que custo: dinheiro público e do crime organizado.
O voto do ministro Alexandre de Moraes pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado democrático de direito entre outros crimes é um acerto de contas do país com seu passado repleto de tentativas de golpes, umas bem sucedidos e outras, não.
Felizmente, a última não teve êxito por um “não” de dois dos três comandantes das Forças Armadas. Moraes relembrou algumas das tentativas golpistas, todas com êxito, para mostrar que golpes de Estado e abolição do Estado de direito são independentes.
1823: D. Pedro I fechou a assembleia constituinte para impor uma constituição como ele queria.
1930: Getúlio Vargas deu o golpe derrubando o governo de Washington Luís para impedir a posse do presidente eleito Júlio Prestes, pondo fim a primeira República e implementando a ditadura do Estado Novo posteriormente.
1964: As Forças Armadas juntas com setores da sociedade civil e política deram o golpe em João Goulart prometendo entregar o poder logo. Esse “logo” demorou 20 anos.
O que esses eventos tem em comum é que em todos eles os militares estavam dando suporte ou sendo protagonistas contra a democracia. Após o golpe em 1964, os militares eliminaram o Estado de direito com os Atos Institucionais. É aí que Moraes mostrou no seu voto (no vídeo) a diferença entre golpe de Estado e abolição do Estado de direito.
O golpe de Estado é tentar destituir ou impedir por meio da força um governo democraticamente eleito, enquanto abolição do Estado de direito (nem precisa ser democrático como aconteceu após 1964) é atacar uma das instituições que o sustenta para esse fim.
Veremos a conclusão do julgamento e seus desdobramentos, esperando que o país vire de vez a página do golpismo.