Plínio Valério “enforcou” o PSDB

O PSDB até o momento não se pronunciou sobre a fala abjeta do senador Plínio Valério (AM), que disse que não consegue ficar seis horas ouvindo Marina Silva sem ter vontade de “enforcá-la”.

Tenho divergências com a ministra Marina Silva, principalmente no tema ecológico, mas nem de brincadeira você tem o direito de dizer que tem vontade de enforcar ela e ninguém. Se derrota o adversário pelos argumentos. Perdemos a capacidade de diálogo e o óbvio de que se derrota um rival sem o objetivo de aniquilá-lo.

O PSDB tenta se reconectar com suas bandeiras históricas e se posicionar como alternativa de centro a atual polarização, após ter sido derrubado pelo bolsonarismo como rival do petismo. Só que primeiro tem que fazer uma limpa dentro de casa.

Sei que o partido recuperou o direito de ter gabinete no Senado Federal com a filiação de dois senadores recentemente e expulsar um agora o deixaria só com dois dificultando a montagem de uma candidatura competitiva a presidente quanto para atingir a cláusula de barreira além de voltar a ter uma numerosa bancada no Congresso Nacional.

Mas o episódio não pode passar batido e o partido fingir que nada aconteceu. É preciso que os líderes tomem alguma posição nem que seja uma simples nota de repúdio. Aécio Neves tem obrigação de se posicionar. Marina o apoiou no segundo turno de 2014 o ajudando a quase derrotar o PT.

Dilema tucano

Pesquisa Ipespe/XP Investimentos mostra Lula (PT) liderando a corrida presidencial com 44%, seguido por Jair Bolsonaro (PL) com 24% e Ciro Gomes (PDT) e Sergio Moro (Podemos) empatados em 8% cada. Este é o quadro principal. Depois, vem os candidatos “nanicos” com números tão insignificantes que nomearei apenas um para servir se gancho: João Doria (PSDB), 2%.

Doria foi o candidato escolhido nas prévias tucanas derrotando o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Recentemente, Doria recebeu apoio de FHC, que já havia declarado voto nas prévias, mas nada o faz ganhar pontos nas pesquisas, nem mesmo a fama de ser o “pai da vacina” que o partido usa para quebrar a resistência ao nome do governador paulista. Doria tem na sua rejeição recorde uma âncora que afunda a sua candidatura.

E lá vai o PSDB repetir o desempenho pífio de 2018 quando Geraldo Alckmin terminou em 4° lugar com 5% dos votos válidos e Doria pode bater esse recorde negativo com menos votos, o que faz o agora ex-tucano e o quase vice de Lula abrir um sorriso de orelha a orelha.

Quem também sorrir é Aécio Neves, desafeto público de Doria. Aécio apoiou Leite nas prévias e trabalha nos bastidores para o partido não lançar candidato próprio avisando que a candidatura derrotada de Doria pode inviabilizar o partido na eleição para o Legislativo.

De fato, um candidato com 2% de intenções de voto prejudica o partido na eleição legislativa. Os tucanos vivem um dilema: prosseguir com uma candidatura natimorta ou abrir os olhos para a realidade onde o PSDB não faz mais parte do pelotão de elite.

Análise do encontro entre FHC e Lula

Encontro entre ex-rivais foi mais pessoal do que partidário

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva fizeram uma reaproximação histórica. Ambos se encontraram em um almoço patrocinado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

FHC saiu do encontro declarando voto em Lula contra Bolsonaro. A fala gerou reação no tucanato que fez FHC reforçar de que apoiará o candidato do PSDB, mas caso não chegue no segundo turno, não vota no atual mandante.

A aproximação de dois ex-rivais eleitorais dos partidos que governaram, juntos, o país por duas décadas deveria sinalizar que é possível uma aliança para uma frente ampla.

Mas a reação, principalmente tucana, ao encontro inviabiliza uma aliança PSDB-PT no primeiro turno e difícil até no segundo turno. Lembrando que no segundo turno em 2018 o PSDB não declarou apoio a nenhum dos candidatos e muitos tucanos individualmente declararam voto a Bolsonaro.

Portanto, o gesto de FHC e Lula foi mais simbólico e pessoal do que um começo de uma união eleitoral entre os partidos. E favoreceu mais ao petista do que aos tucanos, pois mostrou um Lula aberto ao diálogo e democrata.

Crise no PSDB

Após o DEM, Rodrigo Maia rompendo com ACM Neto, o PSDB também entrou em crise depois da eleição para as mesas do Congresso. João Doria quer o deputado Aécio Neves fora do partido. Doria não engoliu deputados do partido votando em Arthur Lira contra Baleia Rossi, e Aécio seria o líder dos que acusa de ser “adesistas”.

Doria deseja um PSDB oposicionista e bem longe de Jair Bolsonaro, planeja assumir a presidência do partido para já assegurar a candidatura presidencial e atrair descontentes no DEM, principalmente Rodrigo Maia e Rodrigo Garcia. O grupo de Aécio foi buscar guarida no Rio Grande do Sul, com o governador Eduardo Leite. Leite é um potencial rival de Doria pela candidatura do PSDB em 2022. Em entrevista para CNN Brasil, Eduardo Leite disse que “liderança não se impõe” em recado para Doria.

Doria queima a largada pela candidatura presidencial abrindo uma crise desnecessária no tucanato. Quando era prefeito e com poucos meses no cargo também começou a articular para ser o candidato tucano em 2018. Não conseguiu tirar a candidatura de Geraldo Alckmin e se contentou em disputar para governador. Se queimou na cidade de São Paulo precisando do famoso “BolsoDoria” e da capilaridade do PSDB no interior paulista.

Tô fora do populismo punitivo!

O que escrevi neste espeço no dia/noite que Lula ganhou a liberdade, após decisão do STF ao julgar constitucional o artigo 283 do CPP, em que veta condenados a cumprir a pena depois da segunda instância se confirmou horas depois. Lula atacando o atual presidente de um lado, Jair Bolsonaro respondendo do outro. Ambos precisam um do outro em uma simbiose de sobrevivência política e eleitoral.

Lula solto tem poder de mobilizar e liderar a oposição que, até aqui, está anêmica e sem rumo. A polarização Bolsonaro e Lula sufoca o centro que começava a isolar os extremos, mas ainda uma reação incipiente. Com Lula de volta ao jogo, não se sabe até quando, o centro volta a ser esmagado e qualquer alternativa à direita ou à esquerda é sufocada.

A postura do PSDB sobre a prisão em segunda instância e o desdobramento do julgamento no STF é lamentável. Sabendo que a candidatura presidencial do governador João Doria não tem a menor chance se a polarização do bolsonarismo contra o antipetismo se repetir em 2022, Doria e o atual presidente do partido, Bruno Araújo, rasgam a história do partido embarcando no populismo punitivo.

O PSDB rasga sua história. De um partido que levanta a bandeira da social-democracia, só espero respeito e defesa da Constituição. Araújo, a mando de Doria, quer transformar o PSDB em um partido liberal de centro, mas o que está saindo é um partido populista do pior populismo que existe.

Pode não gostar do atual governo. Tenho críticas e elogios à gestão Bolsonaro, as criticas são principalmente ao projeto de destruição das instituições pelo núcleo “bolsolavismo”, e acho que Lula solto favorece sua reeleição. Daí a usar isso para ser contra a decisão do tribunal, ignorando o que diz a Constituição e o CPP, tenho vergonha na cara.

A despeito do PT ter montado um sofisticado esquema de corrupção e a partir da metade do segundo governo Lula, aprofundado no governo Dilma, vigorou um populismo fiscal irresponsável que jogou o país na pior crise econômica da sua história, nunca ficarei contra a Constituição por sentimentos de Justiça ou ideologia.