No dia 28 de outubro os brasileiros elegeram o próximo presidente da República. Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad. Desde a primeira eleição para presidente após a redemocratização, em 1989, o PT nunca voltou a perder um segundo turno de uma eleição presidencial.
Antes de 2018, o PSL era um partido insignificante entre as mais de 30 legendas registradas no TSE. Com Bolsonaro, o partido elegeu mais 50 parlamentares e derrotou o PT na disputa presidencial, repetindo o também pequeno PRN de Fernando Collor.
Bolsonaro venceu em 15 estados da federação e no DF, também saiu consagrado da urna em 4 das 5 regiões do país. Foi uma vitória gigantesca que deixa a responsabilidade do presidente eleito ainda maior frente aos desafios e compromissos de campanha.
Mapeando o voto por região, observa-se que Dilma e Haddad tiveram mais ou menos a mesma votação no Nordeste. Já no Sudeste, o PT perdeu um contingente muito grande de votos em relação a eleição de 2014: 6,4 mi. É mais da metade na diferença do resultado geral que foi de 10,7 mi.
No exercício de imaginação se os 6,4 mi de votos fossem para Haddad, o placar da eleição passaria a ser favorável ao petista: 53,4 x 51,3. Ou seja, ao conseguir quase 40 mi de votos só no eixo sul-sudeste, Jair Bolsonaro amorteceu a grande diferença que o nordeste sempre entrega ao petismo desde 2002. A diferença geral se ampliou com a grande votação de Bolsonaro no centro-oeste e a surpreendente vitória apertada no norte.
A conclusão confirma o que foi discutido há quatro anos contra o viés preconceituoso de alguns para os nordestinos. O PT não venceu as últimas eleições antes de 2018 apenas pela votação massiva no nordeste. Ao perder terreno no centro-sul, por vários motivos já explorados à exaustão, o partido perdeu a eleição.
“Não vejo em Bolsonaro um conservador”
Entrevista com um membro da nova direita que declarou voto em Haddad contra Bolsonaro. Marlos Ápyus foi por alguns anos um aguerrido ativista contra os governos petistas, perdeu amizades e oportunidades profissionais. Marlos defende que o agora presidente eleito não é conservador, como fazer oposição ao seu governo, comenta sobre o Partido NOVO, garante que o PSDB como conhecido acabou e chama o governador eleito de São Paulo, João Doria, de “Donald Trump genérico”.
Boa leitura mesmo se você não concordar com suas palavras.
Como se sente um membro da “nova direita” que passou anos combatendo o PT tendo que votar no partido?
Foi terrível ter que votar no PT. Mas, perto de outras situações vividas neste 2018, foi até fácil. Três palavras rondam a mente: frustração, culpa e vergonha. Frustração por ver uma direita que só falava em Reagan, Thatcher e Churchill querer que o Brasil engula Major Olímpio, Joice Hasselmann e todo o clã Bolsonaro. Culpa por saber que os últimos anos do meu trabalho foram úteis à ascensão do que considero o pior presidenciável da história da nossa jovem democracia. E vergonha por ter que baixar a cabeça e reconhecer que havia sentido em muitos dos alertas feitos pela esquerda nos últimos anos. Em especial, aquele sobre o despertar da extrema-direita.
O que essa “nova direita” errou de 2013 pra cá para ter esse segundo turno?
Foi tolerante demais com a intolerância. Desde o início estava lá o germe do autoritarismo, e eu mesmo fiz pouquíssimo caso dele, aleguei que se tratava apenas de um punhado de cartolinas falando em intervenção militar. A ideia deveria ter sido esmagada ali. Nenhum passo poderia ser dado antes disso. Lembro de o MBL se esforçar para tirar o caminhão dos “intervencionistas” dos protestos pelo impeachment, mas fracassar seguidamente. Corta para 2018: o MBL defendendo Jair Bolsonaro com unhas e dentes. O mesmo MBL que eu tanto defendi.
De novo: frustração, culpa e vergonha.
O que fazer e como fazer oposição a Bolsonaro?
O PT já experimentou ser a oposição irresponsável que historicamente era. E não conseguiu derrotar o governo Temer (já ao final do primeiro turno, Bolsonaro foi escolhido como candidato da situação, tudo ficou nítido no momento em que o Centrão migrou para o candidato do PSL). O desafio é ser oposição responsável. Como o PT não ajudará, será necessário fazer uma oposição descolada do petismo. E, para não repetir os erros do PSDB, é preciso fazer uma oposição firme. Para tanto, o segredo é simples, ainda que não seja fácil: saber reconhecer os acertos do governo, saber repreender os erros, não pecar por omissão, apresentar-se como uma solução e, principalmente, manter um diálogo ininterrupto com a opinião pública – essa indireta foi para Marina Silva.
O que acha do NOVO vencer em Minas Gerais e ter sua primeira experiência no Executivo em um grande e quebrado estado?
A criminalização da política é um erro que cometemos há muito tempo. Mais recentemente, piorou no que fracassamos ao não diferenciá-la da politização do crime. Sei que estou marinando ao falar assim, mas há uma linha clara separando os dois movimentos. Um é a busca do meio termo para pacificar conflitos. O outro e o uso de narrativas para livrar criminosos da cadeia. O primeiro não é errado. Mas o NOVO faz cara feia até para esse, e isso talvez seja o que mais me decepciona na sigla. Há tanto despeito com o mero diálogo que o NOVO só se permitiu apoiar – aquela nota de neutralidade era um apoio dissimulado que o partido não quis assumir – uma figura grotesca como Jair Bolsonaro, que de liberal tem praticamente nada.
Imagino que o governo de Minas Gerais será positivo para o NOVO deixar de ser verde. E, principalmente, verde-oliva.
A “nova direita” tem como se reagrupar novamente ou o elo se perdeu?
Eu acho que ela está bem agrupada em torno de Bolsonaro. Essa nova direita não votou em Bolsonaro com o pesar que eu votei em Haddad. Ela votou com orgulho. Tantas vezes, usando a desculpa de que fazia isso apenas para derrotar o PT. Mas não me convenceu. Do contrário, não faria as defesas tão apaixonadas do candidato escolhido.
Na sua opinião, o PSDB tem salvação ou só uma refundação e até trocar de nome?
O PSDB acabou. Aquela sigla da elite intelectual paulistana acabou. Alckmin já não era um expoente dela. E foi traído por um Donald Trump genérico, da série C. Que vai tentar transformar o partido, num primeiro momento, em mais uma linha auxiliar de Bolsonaro. Num segundo turno, num trator capaz de passar por cima daquele que agora jura apoiar. É um pouco a diferença entre futebol arte e futebol força. Doria está disposto a dar canelada, simular pênalti e chutar a bola para o mato. Tem quem ache bonito vencer assim. Mas eu sou da escola de Telê Santana.
O PSL chegou para ser o partido dos conservadores ou é apenas uma onda?
Não vejo em Bolsonaro um conservador. Bolsonaro é só uma mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia. E se cercou de gente assim. Conservadorismo é basicamente prudência. É ser firme na contenção de riscos por, como ninguém, saber dar valor a tudo aquilo que se tenta mudar. E o modo de fazer importa. Com honra, com ordem, com respeito, com o máximo de cuidado. Ou o exato oposto de como o bolsonarismo age.