Gustavo Vaz
Quem frequenta as redes sociais sabe: não é preciso muito esforço para ver algum tucano, ou um anti-petista com visões superficiais do mundo, destilando seu ódio aos projetos sociais implantados pelos governos petistas recentes. Usando daquele manjado argumento que “é preciso ensinar a pescar, e não dar o peixe de graça aos pobres”, os ativistas de sofá acusam Lula, Dilma e seus blue caps de praticar assistencialismo barato. De certa forma, estes cidadãos não estão errados nas suas gritas, porém, não é no setor social que o PT é assistencialista, mas sim, no setor da politicagem. Explico, o PT chegou ao governo federal, em 2002, amparado por uma imensa rede de aliados, mantida quase que inteiramente até os dias de hoje. Pois bem, na sua história de uma década a frente da nação, o PT se vale de uma prática, no mínimo, questionável. O partido acertou com seus aliados uma espécie de pacto, que garante aos coligados alguma regalia em toda a relação de cargos importantes da gestão nacional, sejam eles na alçada legislativa ou ministerial.
Dessa maneira, temos ministérios sendo ocupados não por políticos especialistas na pasta, ou que tenham como plataforma política assuntos relacionados ao cargo que ocupam. Toda esta prática causa certos acidentes políticos dos quais o PT poderia evitar. Um exemplo do que escrevo é o Ministério dos Esportes. Reservado ao PC do B desde o segundo mandato de Lula, a pasta teve, nesse período, Orlando Silva e Aldo Rebelo como comandantes. Bem, Orlando Silva teve uma gestão errática. Sempre com uma imagem de “banana”, Silva dizia amém a qualquer desmando relativo aos preparativos dos grandes eventos esportivos que acontecerão em terras tupiniquins, e trouxe pouquíssimo avanço em termos de preparação de atletas e fomento da prática esportiva na base (com exceção da criação do Bolsa Atleta, reservado exclusivamente a praticantes de esportes olímpicos). No fim, Orlando Silva ainda se meteu num escândalo com os cartões corporativos do seu ministério. Aldo Rebelo, por sua vez, aparenta ser um homem com boa vontade, mas, é nítido que a praia dele não é o esporte…
Indo para outro ponto da Esplanada, chegamos ao Ministério da Pesca, ocupado por… Marcello Crivella, do PRB. Digamos que Crivella não é uma das figuras mais bem quistas pela população, especialmente, a fluminense, para começo de conversa. O ministro faz parte da bancada “evangélica” (colocarei a palavra entre aspas, em respeito aos evangélicos comuns, que não merecem ser representados por esse grupo), talvez o setor mais conservador da nossa política, extremamente arraigado no PRB, de quem o PT é aliado, e de quem recebe uma “boquinha”. Pergunto a vocês: qual a credencial que um pastor, com um passado político nada louvável, tem para ser Ministro da Pesca? A não ser que ele consiga invocar Jesus a repetir o milagre da multiplicação dos peixes em rios e mares brasileiros, não vejo nenhuma.
Outro partido tomado pela bancada “evangélica”, é o PR, também participante da base aliada. Tirando o ex-vice-presidente José Alencar (que era do PL, antes do partido virar PR depois da fusão com o PRONA) e alguns outros, grande parte do partido sequer tem os mesmos ideais de integração social do PT. Enquanto José Alencar era fiel a Lula (chegando a dizer que não assumiria a presidência caso Lula fosse deposto, durante toda a efervescência do Mensalão), seus pastores bradam seus discursos quase fascistas. Pois bem, saibam que do PR vem uma das exceções à prática que trato neste texto. A pasta do PR na cúpula governista é a dos Transportes, ocupada por Paulo Sérgio Passos, considerado autoridade no assunto. Talvez daí, venha um exemplo que é possível trazer especialistas aos ministérios, sem “magoar” algum partido aliado.
[A presidente Dilma empossou na última quarta-feira César Borges, ex-governador e ex-senador da Bahia, filiado ao PR, como o novo ministro dos Transportes]
Pensaram que essa situação acaba na Esplanada? Que nada, a prática do assistencialismo político também está presente no Congresso Nacional, e bem presente, diga-se de passagem. Basta notar como a base aliada se porta durante as eleições da Câmara e do Senado. Há um acordo entre a situação (maioria nas duas casas) de que a presidência do Senado “seja” do PMDB. Com isso, nenhum partido da base aliada lança candidatura e todos votam no nome peemedebista indicado. Bem, os últimos dois nomes que o PMDB lançou (e se elegeram) foram: José Sarney e Renan Calheiros. A história conta por mim o que esses dois já aprontaram.
Na política brasileira, há também o costume do principal aliado em uma coligação indicar o candidato a vice. Uma dica aos anti-petistas, levados pela mídia: parem de se focar em Dilma Rousseff nas suas revoltas nas redes sociais, olhem para o vice dela. Falo de Michel Temer, outro peemedebista com passado questionável – aliás, citei em meu último texto que Requião sempre defende o “velho MDB de guerra” – não é para menos, o partido que já foi símbolo da resistência à ditadura e teve em sua legenda nomes como Ulysses Guimarães, atualmente é um antro de nomes suspeitos e movido por pura politicagem, salvo raras exceções.
Ainda no Congresso, existem inúmeras Comissões dentro das casas. Cargos estes que mais uma vez são divididos cordialmente entre os partidos (aqui, não somente da base aliada, como o Leonardo Rossatto discorre em seu blog). Algumas delas acabam sobrando para partidos menores, devido a interesses dos grandes, dentre os quais, o PT está. As comissões julgadas como menos “importantes” pelo PT, também são entregues a base aliada. Ocorre que uma delas parou nas mãos do PSC, que indicou… Marco Feliciano, o pastor (que mais separa as ovelhas, do que as junta), eleito sem maiores problemas por seus colegas parlamentares, à Comissão dos Direitos Humanos. Apesar do fato já ter sido discutido exaustivamente internet afora, não custa dizer que temos um “pequeno” paradoxo nessa eleição de Feliciano.
É nítido que Dilma e o PT deviam repensar a prática de assistencialismo de cargos, praticada no governo federal atual. Permitir que Orlandos, Renans, Sarneys e Felicianos ocupem cargos importantes na hierarquia da nação é uma temeridade desnecessária, que só dá “pano para manga”. Óbvio que a política requer esse jogo de coligações e apoio – afinal, sem o PMDB ao seu lado, nenhum presidente resiste no Brasil – porém, há maneiras de fazer a coisa certa, de modo com que esses postos supracitados sejam ocupados por mérito, por gente que entende como a banda toca, e não, distribuídos a bel-prazer entre os amigos (que colocam nomes de interesse da cúpula dos partidos), sem que haja qualquer seleção em que a qualificação seja levada em conta.
Concordo que existe esse assistencialismo político infelizmente existe, mas sem ele Lula não teria conseguido ganhar a eleição e muito menos governar. Essa é a grande verdade, e Dilma tb tem que entrar no sistema. Agora dizer que existe assistencialismo social barato é pura dor de cotovelo de uma elite econômica que sempre mandou nesse país e que insiste em manter essa visão superficial, burra, preconceituosa, injusta e má, não compreendendo, portanto, que se deve sim ensinar a pescar mas antes tem que dar o perixe para que o cidadão posso se fortalecer, aprender e finalmente pescar.
Muito bom mesmo; mas sempre citando esse tipo de assistencialismo povão.