
Leonardo Dahi
Neste 21 de abril, além do dia de Tiradentes, se comemora também o aniversário de Brasília. A Capital Federal está completando, hoje, 53 anos. Pois é, a Capital é mais nova do que a nossa Presidente, que nasceu treze anos antes de sua atual residência.
O caso de Brasília é curioso. Enquanto a maioria das nossas grandes cidades surgiu ao acaso, através da colonização portuguesa – nosso maior município, por exemplo, surgiu como um colégio jesuíta: São Paulo -, Brasília foi sonhada, planejada, construída. Tudo isso em uma área deserta do país. “O meio do nada”, como diziam alguns – e dizem até hoje.
“A Capital da Esperança”, como diz seu hino, já era sonhada há muito tempo. Mas foi com Juscelino Kubitschek que ela, enfim, tomou do Rio de Janeiro o posto de centro Executivo, Legislativo e Judiciário do nosso país. Nossa Capital pode não ter mais as praias de Salvador ou o Cristo Redentor abençoando todas as belezas naturais do Rio de Janeiro, mas tem seus encantos. Uma cidade projetada pelo grande e imortal Oscar Niemeyer, em parceria com o não menos genial Lúcio Costa.
Uma cidade que já viu muita coisa. Fez parte dos “50 anos em cinco” de seu grande construtor, JK, foi a residência dos homens que escreveram um negro capítulo de sua história. Por mais de 20 anos, Brasília teve, nos corredores de sua residência mais famosa – o Palácio do Planalto – generais, ditadores, brasileiros e estrangeiros. Uma cidade que viu o desfile de Chefes de Estado que entraram para a história. Ouviu coisas que suas paredes sequer tem coragem de revelar, viu coisas que o tampou os olhos.
Viu a democracia renascer, mas com uma Eleição indireta. Viu Tancredo ganhar e não levar. Viu planos econômicos mirabolantes serem arquitetados para conter uma inflação maior do que suas asas norte, sul, leste e oeste. Viu 21 homens brigando pelo direito de comandar o país, serem o primeiro dono de sua mais célebre casa eleito pelo povo, depois da ditadura. Viu este homem ser a esperança do Brasil e uma de suas maiores decepções em toda a história. Viu o povo invadir as ruas para derrubá-lo, viu momentos conturbados que levaram à sua renúncia. Viu um novo Plano Econômico, esse dos bons, surgir.
Viu o Brasil levantar. Viu, quase 43 anos depois de sua fundação, um Presidente eleito pelo povo passar a faixa Presidencial para um Presidente eleito pelo povo. De FHC para Lula. Povo que invadiu essa cidade para saudar a chegada de um homem do povo ao comando da nação. Brasília, naquele 1/1/2003, viu a mais bonita festa feita pela nossa gente para saudar seu novo líder. Viu esse líder mudar o Brasil, para melhor e para pior. Viu o país crescer e se envergonhar com mais escândalos de corrupção. Viu, a cada posse presidencial e de seus deputados e senadores, a esperança de um país melhor renascer.
Há quem diga que Brasília foi um erro, pois tirou os nossos comandantes do centro nervoso do país, impossibilitando uma cobrança mais direta do povo aos políticos. Isso talvez seja verdade, mas é impossível classificar essa cidade como um erro.
Brasília é a marca deste Brasil moderno. Deste Brasil que esqueceu a colonização portuguesa, seu passado e foi ser livre, “gigante pela própria natureza”. Era preciso esquecer este passado, construir uma nova cidade, uma nova Capital, um novo país, por mais que a história ainda nos reservasse dias de muito sofrimento. Acreditando nisso ou não, é lá que são definidos os rumos do Brasil. É lá que se escreve a nossa história. Por tudo isso, hoje é dia de agradecer e saudar essa cidade, sempre tão carregada de esperança e controvérsia: parabéns, Brasília. Que venham mais 53 anos de história, de democracia e que nunca mais o ato de um Presidente eleito pelo povo passar a faixa Presidencial para um Presidente eleito pelo povo, seja algo inédito.