A política no fundo do poço

Dilma Rousseff está cada vez mais isolada politicamente e sem apoio popular

A popularidade do governo Dilma não para de cair. A mais nova pesquisa do Datafolha mostra que os que aprovam o governo teve nova queda, de 23% para 13%. Isso mesmo. Apenas 13% (coincidência com o número de legenda do PT, uma grande ironia) dos brasileiros aprovam o inicio do segundo mandato da presidente Dilma. Segundo o Datafolha, 62% acham o governo ruim/péssimo e 24% regular. A pesquisa foi feita com 2.842 eleitores logo após as manifestações de domingo (15), atos contra Dilma que levaram milhões às ruas.

O governo Dilma está derretendo numa velocidade impressionante. Já era esperada uma nova queda na avaliação positiva depois dos últimos acontecimentos (lista do Janot, indicadores econômicos cada vez piores e “panelaço” quando Dilma fala na TV), mas não para menos de 15% de ótimo e bom. Se a eleição fosse hoje, Dilma correria perigo de perder até para Luciana Genro (PSOL).

Há possibilidade para uma recuperação da popularidade do governo para pelo menos levar ele até o final do mandato com alguma estabilidade e o país não parar de vez? Sim, claro que há possibilidade. A própria presidente já viu sua popularidade cair de 65% para 30% durante as manifestações de junho 2013 e recuperou boa parte durante a campanha eleitoral, que foi fundamental para Dilma ser reeleita por margem pequena no segundo turno contra o senador Aécio Neves-PSDB/MG (51,64% a 48,36%).

Ocorre que agora é diferente. Os protestos atuais são diretamente contra a presidente e até com pedidos de impeachment. Nem a esquerda que ajudou e se engajou na campanha petista no segundo turno está disposta a defender o governo Dilma, entre outras divergências por causa do ajuste fiscal realizado pelo ministro da fazenda, Joaquim Levy. Os filmes e “conselhos” do marqueteiro João Santana talvez não funcionem mais.

Um dado ainda mais preocupante para o governo nessa pesquisa – e desmonta a tese de muitos, inclusive no governo, que os protestos são coisa da “elite frustrada pela derrota eleitoral” – são os números no Norte-Nordeste, reduto petista. No Norte, 51% reprovam o governo. No Nordeste, 55% acham o governo ruim/péssimo.

Dilma Rousseff está cada vez mais isolada politicamente e sem apoio popular. A presidente vai ter que pensar muito como reverter essa maré negativa. O governo Dilma 2 está com cara e jeito do governo FHC 2. Se a popularidade continuar caindo, logo vai lembrar o governo Collor.

Um processo de impeachment é o último passo. É a “bala de prata”, a pena capital politicamente. Não é golpe. Sair às ruas gritando fora fulano e fora sicrano é um direito constitucional. E é bom que o sentimento político e patriótico aflore no brasileiro. O brasileiro é um povo muito acomodado politicamente. A maioria não suporta os políticos e a política. Mas odiar a política e se alienar dela é muito pior. O povo longe das discussões políticas é tudo que os piores tipos de políticos desejam.

Agora, esse mesmo povo tem que entender que um impeachment de um presidente, de um governador de Estado ou de um prefeito de uma cidade não sai só pela vontade da população. É importante, mas não o essencial. Não é só fazer manifestações (por maior que sejam) que se resolve tudo e acaba com a corrupção. Aliás, a corrupção não acaba nunca. O que precisa existir são instituições sólidas e que funcionem. A impunidade tem que ser arrancada pela raiz.

Qualquer processo de impeachment para ser aberto precisa de provas concretas de envolvimento direto do presidente, do governador, ou do prefeito. Suspeitas, insinuações, boatos e falsas acusações não são argumentos para impeachment. Nem má-gestão da administração pública é motivo para afastamento. O “tribunal” do governante que administra mal o dinheiro público é a urna e a pena dele é a derrota. Ulysses Guimarães lutou para aprovar a Constituição Cidadã de 1988, que está longe de ser perfeita, mas é a melhor que a República brasileira já teve. Não vamos jogar a Constituição Cidadã no lixo apenas por capricho.

Em resumo, pelo menos nesse momento não sou a favor do impeachment para a presidente Dilma (PT) nem para o governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP), nem para o governador Beto Richa (PSDB/PR). Vale o protesto. Vale fazer manifestação pedindo o impeachment de todos esses que citei. Mas com consciência que é apenas a sua opinião. E que precisa de base política e jurídica para acontecer, que não vai acontecer apenas porque você deseja. A democracia é composta por poderes e instituições representativas. A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos (Sir Winston Churchill).

Avaliação do Congresso Nacional também está no térreo. Só 9% dos entrevistados da pesquisa Datafolha aprovam os deputados e senadores. 50% desaprovam os métodos dos congressistas, o que é próximo ao índice de 56% de 1993, quando do escândalo dos “anões do orçamento”. No lugar de refletir por que desse descrédito da população para com o Congresso e tentar corrigir os erros, deputados e senadores legislam cada vez mais em causa própria (aqui e aqui).

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Autor: João Paulo

Editor-chefe de Brasil Decide

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