Entrevista com Sabrina Fernandes

Uma conversa muito interessante com a socióloga Sabrina Fernandes

Sabrina Fernandes é uma brasileira de Goiânia (GO), 31, é socióloga, professora e militante marxista. Sabrina tem um canal no Youtube, “Tese Onze”, com pouco mais de 230 mil inscritos. É provavelmente o canal de esquerda mais popular em uma plataforma que a direita domina. Escreveu o livro “Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira”.

sabrina

Você sempre foi de esquerda da linha marxista ou houve um ponto de virada do seu entendimento ideológico?

Eu sempre fui uma pessoa com alguns valores progressistas, mas até os 18 anos eu não tinha muita noção sobre ideologia e projetos políticos. O feminismo foi importante para que eu me instigasse a descobrir mais sobre política e alguns temas da pauta ambiental também me aproximaram de formas de ação política. Porém, foi quando passei a ler Marx que comecei a enxergar o debate sobre as diferentes formas de poder na sociedade, suas estruturas e como a injustiça era e é produzida. É a partir daí que passei a me considerar uma pessoa mais politizada.

O que considera ser um socialista marxista no século 21?

É uma absoluta necessidade ser socialista e marxista no século 21. Estamos lidando com um momento de crise ecológica que se aprofunda cada vez mais e ela se relaciona também com a desigualdade radical que assola o nosso planeta. O marxismo aponta a crítica correta sobre os problemas que enfrentamos e nos desafia a pensar um caminho para fora dessa situação. O método marxista, o materialismo histórico, nos leva a compreender como o capitalismo está na raiz da atual crise ecológica e como não será possível solucionar este problema sem provocar uma mudança sistêmica.

A esquerda perdeu contato com o povo ou a direita que conseguiu chegar nele?

Algo importante a considerar é que a esquerda não é um objeto separado das pessoas. As pessoas constroem os campos políticos. Existem pessoas de esquerda e de direita na classe trabalhadora, mas houve um distanciamento das maiores organizações de esquerda do trabalho cotidiano com a classe. Isso é resultado de um processo de institucionalização, ao mesmo tempo em que a percepção da classe sobre essas organizações foi afetada por fatores diversos, alguns de responsabilidade da própria esquerda, outros que resultam do grande esforço ideológico da direita de construir um senso comum anti-esquerda. Para além disso, a situação de desamparo social gera vulnerabilidades e a direita conservadora teve certo êxito em se mostrar presente através da mídia e de instituições religiosas no cotidiano das pessoas.

Você é crítica de uma esquerda liberal-progressista e sempre foi crítica da deputada Tabata Amaral, até quando era a “queridinha da esquerda”, não teme a divisão do campo progressista principalmente no momento atual?

A deputada Tabata Amaral é apenas uma representante do fenômeno pós-político e que também se apresenta na esquerda de forma a apagar antagonismos importantes rumo à conciliação. Há uma ilusão de que só porque a extrema-direita se consolidou no poder, seria necessário diluir a oposição ao seu acordo mais básico para conseguir se contrapor ao governo Bolsonaro. Todavia, sabemos que isso apenas garantiria pequeninas vitórias institucionais, enquanto o caminho exige construir a partir das bases para que seja possível apresentar um projeto alternativo. A esquerda radical possui um projeto muito distinto daquele do campo liberal-progressista e normalmente estes apelos exigem que a esquerda radical abra mão deste projeto. É necessário apresentar as críticas, mas logicamente, compreendo a importância de acordos táticos em momentos cruciais.

Jair Bolsonaro tem em torno de 30% do eleitorado, outros 30% são opositores declarados do presidente e 30%, nem lá nem cá. Defende a esquerda dialogar com esse centro para vencer eleições ou a unidade apenas dentro da esquerda?

Não deve ser papel da esquerda pensar o diálogo com as pessoas a partir dos parâmetros eleitorais. Mais do que identificar projeções do eleitorado para que então a esquerda se adapte em busca de votos, é necessário politizar a classe trabalhadora para que ela se alinhe com a esquerda. Assim, serão formados sujeitos políticos e não apenas eleitores.

E não faltou convergência na última eleição presidencial?

Em vez de pensarmos em como a esquerda institucional deveria ter se unido ao redor de um candidato ou outro, é importante desenvolver processos de criação de síntese para que as concordâncias de projetos surjam e não apenas acordos frágeis voltados para a competição eleitoral.

Você tem uma tese que estão incentivando a antipolítica em substituição aos partidos. É o caso de movimentos de capacitação de candidatos, como Renova BR, e movimentos cívicos Acredito, Agora e, mais para direita, MBL?

Eu não trabalho com o conceito de antipolítica e sim pós-política. O fenômeno pós-política estabelece que seria possível formar lideranças desprendidas dos campos ideológicos e voltadas para a capacitação e execução técnica. Todavia, quando se normaliza ou se rejeita o sistema capitalista, a escolha que está em jogo é política e influenciada ideologicamente. É preciso que partidos, sobretudo de esquerda, fiquem alertas para os grupos que tentam adentrar os partidos sem construí-los através desses projetos de capacitação, pois há sim uma agenda política por trás de seus idealizadores e financiadores. (O caso do MBL é diferente, pois se trata de um movimento social de direita e não de uma campanha, grupo ou iniciativa delimitada às eleições).

Para finalizar, o que espera do futuro da esquerda e seu palpite para o governo Bolsonaro em 2020.

O governo Bolsonaro segue forte, apesar da impopularidade do presidente em certos setores. Há base suficiente no legislativo para colocar em práticas mais metas do governo, enquanto os ministérios tem executado suas políticas prioritárias sem grandes obstáculos. É tempo de reorganização na esquerda brasileira e isso exige bastante esforço e certa paciência, pois os resultados não são tão rápidos quanto se espera. Por isso, é importante criar novamente uma cultura política de mobilizações e uma militância consolidada preparada para enfrentar as ameaças de repressão e criminalização que partem do governo.

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Autor: Brasil Decide

Política e democracia

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