
Assisti a um vídeo do Joel Pinheiro da Fonseca em seu canal no Youtube (deixarei o vídeo no final do texto para quem quiser ver a opinião do Joel) e decidi respondê-lo em texto. Joel se considera um liberal “flexível” na economia, que significa não deixar o social de lado, nos costumes, e conservador politicamente. Teve o nome envolvido nessas polêmicas de rede social por uma opinião externada por ele em texto no passado recente que foi resgatado. Mas minha conversa aqui é sobre o tema do vídeo.
Joel faz uma boa explicação do mercado financeiro não se abalar por falas e ações de pessoas do governo que afrontam e agridem instituições vitais para a democracia. É verdade que a bolsa de valores é um índice que mede a atividade econômica das empresas que estão associadas a ela e o grau de confiabilidade que os investidores estão tendo no governo para honrar suas dívidas mantendo as contas públicas em equilíbrio. Por mais que seja asqueroso e ameaçador, o vídeo do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, fazendo cosplay de Goebbels, não afeta a atividade das empresas. O mesmo vale para o presidente Jair Bolsonaro insultando repórteres dia sim e dia sim por eles estarem fazendo o seu trabalho ou quando parte para minar a credibilidade da imprensa.
Mas o que me incomodou e já incomodara numas aspas do economista Samuel Pessôa em matéria na Folha, foi a normalização da amoralidade do mercado financeiro. Entendo que em economia prevalece o pragmatismo dos números, mas relativizar essa amoralidade não é bom e torna liberais mais antipáticos ao eleitorado. Não se preocupam se tem gente dormindo nas calçadas, pessoas com fome, sem emprego ou já desalentadas se sujeitando a serviços análogos à escravidão.
Para o mercado financeiro e alguns tipos de “liberais”, a democracia é um estorvo na implementação de medidas que agradam investidores. E o mercado financeiro também não se importa com casos de corrupção se a economia for blindada, foi assim na era de bonança nos governos do PT. Foi com Temer e está sendo com Bolsonaro. O Joel faz uma ponderação criticando agentes do mercado financeiro alinhados ao governo, que compromete análises isentas. Samuel diz que vai para rua se perceber uma real ameaça à democracia. Achei mais uma válvula de escape para não serem acusados de cúmplices dos “coveiros da democracia”. Não acho que seja o caso do Joel nem do Samuel.
Mas normalizar a amoralidade do mercado financeiro é involuntariamente ou não contribuir na deterioração da jovem e cada vez mais frágil democracia brasileira, assim como os agentes financeiros e os “liberais chicago oldies”.
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