Entrevista com o prefeito de Manaus (AM), Arthur Virgílio Neto, que não abre mão de ser o candidato do PSDB na eleição de 2018 e desafia o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para uma prévia aberta.

Por que resolveu entrar na disputa para ser o candidato a presidente do Brasil?
Porque entendo que é hora de ousadia com responsabilidade. Fui duas vezes líder do governo do presidente Fernando Henrique na Câmara dos Deputados, fui ministro-chefe da Secretaria da Presidência da República nesse mesmo governo, por três anos seguidos fui secretário-geral nacional do PSDB, pela terceira vez sou prefeito da cidade de Manaus, que é umas das mais complexas do país, uma das mais desafiadoras, portanto eu entendo que há experiência, além de mãos limpas, e energia para colocar o país nos bons rumos da boa economia.
O senhor é crítico do jeito que o governador Geraldo Alckmin trata os outros estados. Acha que ganharia dele em uma prévia?
A prévia depende muito como ela seja feita. Uma prévia sem cartas marcadas, uma prévia aberta, com dez debates e que o tempo está passando e eles não tratam de marcar estes debates. Uma prévia de dez debates entre o governador Alckmin e eu próprio. Uma prévia com a votação de 1,2 mi de filiados com mais de 1 ano de filiação e uma prévia em que os candidatos se joguem com nada de máquina, se joguem com o coração e cérebro para que fique bem claro quem é o melhor. Nesta prévia, eu acredito que sairia vencedor.
Agora, eu tenho dúvidas sobre o resultado da prévia. É uma coisa pra ser lutada. É uma luta que eu vejo que ele não quer travar e luta que eu preciso travar como preliminar, mas tenho certeza quase que absoluta de outra verdade: a de que ele não é o candidato para este momento a presidente da República, não é um candidato bom para empolgar a nação. Eu acho que tenho mais condições que ele para isso e me sinto mais competitivo, me sinto capaz de realmente causar uma grande polarização política neste país em torno de um projeto de reformas, de um projeto de consolidação de ganhos econômicos que nasceram com o real e que durante algum tempo andaram se desperdiçando na poeira de tanta denúncia de corrupção, de tanta confusão e tanta coisa negativa.
O senhor disse que, sem prévias, o PSDB caminha para mais uma derrota presidencial. Perderia com Alckmin, mesmo com prévias?
Eu não sinto que seja o momento dele. Não sinto. Não sinto que o eleitor queira alguém com o perfil do governador Alckmin, não vejo isso, vejo que ele passa bem distante pelas suas indecisões, pelas suas indefinições, pela forma como trata tangenciando certos assuntos sem mergulhar no coração desses mesmos assuntos. Exemplos: união homoafetiva, eu sou a favor; ele dificilmente é a favor, mas não sei como diria, talvez saísse pelo lado do direito civil.
Eu sou a favor da liberação da maconha como item de um programa muito completo de segurança pública que tenho em mãos; ele dificilmente diria algo parecido. Reforma da Previdência: eu sou favor, tem que ser votada como questão fechada no PSDB, com punição severa para aqueles que ficarem inadimplentes com este compromisso. E o governador Alckmin como presidente do partido e candidato que é uma coisa esdrúxula – presidente do partido e candidato – é algo que até denigre o partido, não fica nem bem, ele declarou que havia sido fechado questão, e foi fechado na reunião do diretório, e depois que não havia punição. Meu Deus, como pode fechar questão e não punir quem não respeite a definição de fechamento de questão por parte da instância superior de decisão do partido?
Tudo isso não compõe. É candidato, assim, muito do “talvez”, “mais ou menos”, “pode ser”, não o candidato que dê as respostas que o Brasil está pedindo agora, e por isso o Brasil tem se iludido com figuras falsas como, por exemplo, o candidato Jair Bolsonaro, que é um aventureiro, não tem nada concreto sobre ninguém, aliás, desconfio sobre o que ele teria exatamente na cabeça, não sei precisar o que poderia ter na cabeça, com certeza não tem projeto para o país na cabeça, então vai ocupando espaço, porque parece decido, fala em matar bandido. Onde é que está o plano de segurança pública? Fala em acabar com a corrupção e passando por uma pessoa honesta nunca governou tesouraria de um clube. O que recomenda para virar presidente da República? Em nome do combate à corrupção vai enganando. Vai iludindo jovens que estão cansados da insegurança pública, cansados da corrupção. Vai iludindo pessoas e nós temos aqui essa indefinição, essa coisa de sempre dizer as coisas pela metade, não falar as coisas inteiras e me sinto muito pronto para dizer as coisas o que penso, inteiras, pouco me preocupando sobre se tira voto ou me dá voto.
Disse que “esmagaria” o pré-candidato Jair Bolsonaro em um debate. Qual tática usaria para vencê-lo?
Basta debater com ele. O simples debate vai mostrar quem eu sou e vai mostrar quem ele não é. Simplesmente ele não responde uma pergunta que signifique contato realista com a arte de gerir a coisa pública e nem tem ideia formada até porque sempre foi um deputado de ficar cobrando reajuste para militares, enfim, fazer disso sua bandeira e fez, e diz que não é político, uma carreira neste campo. Para mostrar quem não é o Bolsonaro, eu preciso só de um debate com ele, e as pessoas vão ver quem sou eu.
PSDB errou ao entrar oficialmente no governo do presidente Michel Temer?
Não. Naquele momento agiu completamente ajustado com a nação com a necessidade de uma transição após a questão Dilma Rousseff. A presidente Dilma Rousseff perdeu as condições de governar o país, entra o seu substituto constitucional que era o vice-presidente Michel Temer, ele não poderia ficar pendurado no pincel, ele teria que está amparado numa maioria parlamentar que garantisse a governabilidade e com o compromisso de fazer reformas estruturais a começar pela da Previdência. Hoje em dia, virou uma coisa irrelevante. Pode sair, já devia ter saído antes, o que não pode romper com o projeto das reformas. Não podemos titubear nem usar o Temer como pretexto para titubear em relação as reformas. Se afasta do governo Temer ontem, entrega tudo que é cargo, quem não fez está perdendo tempo. Agora, não pode é não votar as reformas estruturais, isso não sirva de desculpa para ninguém.
E, na sua visão, o partido errou ao apoiar o impeachment e era melhor deixar Dilma Rousseff “sangrar” ou seria um erro igual na época de Lula no mensalão?
Não sou a favor de deixar ninguém “sangrar” porque sou contra a tortura, quem é favor de tortura é o candidato Bolsonaro. Ele que gosta disso, eu não sou a favor de tortura. Eu jamais deixaria alguém “sangrando” porque não é da minha forma de combater. Eu não fui, no início, entusiasta de impeachment, não sou vivandeira de opinião pública, de sair atrás da opinião pública.
Eu entendo que o líder ele forma maiorias, não é a maioria que forma o líder e o líder tem que saber ter essa sintonia fina com a opinião pública. Se a opinião pública emocionalmente é levada a opinião que seja, ao longo prazo, danosa para o país o papel do líder é até perder a condição de líder, mas dizer que estão errando que a história registra o que estão fazendo a cada momento da própria vida do país.
Então, pra mim, a presidente Dilma não caiu por causa de “pedalada”, não foi por causa dessa história, ela caiu porque perdeu as condições de governar o país. Como o país ficou ingovernável então o Congresso, no momento final eu entendi que tinha que ser assim, optou por impedi-la e juridicamente usaram um pretexto, mas ela caiu porque perdeu as condições de governar o país.
O senhor acha que tem chance de vitória caso seja o candidato do PSDB?
Tenho muitas expectativas de vitória sim. Porque vejo uma candidatura de esquerda cansada, a esquerda está cansada no mundo inteiro, no Brasil está mais do que fatigada, ela repete jargões que são antigos para os anos 1950 do século passado. Engraçado quando tinha que ser esquerda mesmo, quando havia uma esquerda, e eu já fui iludido por isso, mas foi nessa condição que enfrentei uma ditadura militar, o Lula não era tão esquerda assim. Uma coisa engraçada ele ter ficado depois de velho.
O grande poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, hoje em dia não tem cabimento nem na juventude, mas ele dizia que se você não é de esquerda quando jovem você não é jovem, não viveu a juventude; se você não rompeu com a esquerda depois de maduro é porque você não ficou maduro. Carlos Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro, um dos maiores da língua portuguesa.
Lula é uma coisa velha, uma coisa ultrapassada. Nós temos na outra ponta Bolsonaro, enfim, tem um grande caminho pelo centro e não adianta nos iludimos qualquer um que se diga de centro vai chegar. Não, eu sou liberal na economia, sou a favor de privatizações, sou a favor de agências reguladoras que regulamentem essas relações entre as novas empresas privadas e o Estado. Sou a favor de um Estado necessário. Nada de Estado mamute como esse que nós temos. Sou a favor de um Estado que seja capaz de estruturar certas áreas para propiciar chegada do capital privado. Não sou, em princípio, a favor do Estado-Empresário.
Entendo que não deve ser, jamais, privatizada uma Eletronuclear, isso é matéria de segurança nacional. Mas entendo que das mais ou menos 150 estatais que nós ainda temos eu privatizaria de início quase 90%, 85% delas, incluindo a Petrobras, se tiver valor de mercado no momento. Eu ainda questiono se ela tem valor de marcado para ser privatizada tanto mal fizeram a ela no período petista, no consulado petista.
Disse que não quer o apoio do PMDB e do PP. Mas o tempo do horário eleitoral ainda faz diferença. Não seria risco abrir mão desse ativo? Até para se apresentar nacionalmente e apresentar suas propostas com tempo suficiente para as pessoas assimilarem.
Eu abriria [apoio de PMDB e PP para ter maior tempo de TV] porque considero um passivo. E mais: esse tempo de TV eu acabaria consumindo esse tempo todinho explicando porque estou com eles. Eu prefiro assim, quem tem 3, 4 ou 3 minutos e meio, e não é difícil para o PSDB conseguir isso, sem dividir o Estado em capitânias hereditárias antes da eleição para depois não governar. Eu prefiro, com clareza, arriscar que me falte algum tempo, mas acho que não faltaria, a ter um tempo que no fundo vai representar até pela expressão daquele tempão enorme de que não sou capaz de inovar, não sou capaz de propor para o país saídas efetivamente saudáveis e diferente para a grande crise brasileira.