Rafaela Silva é fruto da política feita pelos cidadãos

Rafaela é fruto da política de verdade, aquela feita sem os políticos, mas pelos cidadãos

Rafaela Silva-OURO

Confesso que não sou muito fã de jogos olímpicos e muito menos tenho sentimento nacionalista (não confundir com patriotismo). Mas fiquei arrepiado, emocionado com a conquista de Rafaela Silva. A primeira medalha de ouro do Brasil foi da judoca carioca e na sua cidade, no Rio de Janeiro. Mulher. Negra. Jovem. E da favela Cidade de Deus, uma comunidade das mais perigosas do Rio, que sofre com o abandono do poder público.

Depois de perder a chance de medalha em Londres 2012, Rafaela foi vítima da intolerância das redes sociais. Várias mensagens racistas para uma garota que representou o Brasil e perdeu. Vencer e perder são do esporte. A derrota em Londres foi importante para a vitória e consagração de Rafaela quatro anos depois, no seu país, na sua cidade. Rafaela não só ganhou uma medalha olímpica como foi campeã. É ouro! Ela agora faz parte do seleto grupo de brasileiros campeões olímpicos no judô e em todos os esportes na história das Olimpíadas.

Momento histórico para Rafaela e para todos os brasileiros da comunidade Cidade de Deus. Sim, há outros caminhos sem ser o do crime para quem mora em favelas e periferias. E não precisa ficar esperando os governos fazerem a sua obrigação de dar educação, saúde, cultura, lazer e saneamento básico para os moradores. Rafaela é fruto do projeto social do medalhista olímpico Flávio Canto, o Instituto Reação. Seja esportista, como Flávio Canto, artista ou um cidadão comum todos podem ter responsabilidade social. Rafaela é fruto da política de verdade, aquela feita sem os políticos, mas pelos cidadãos.

Mas sempre aparecem os oportunistas de plantão nessas horas. E não só os políticos. Gente que tenta ideologizar a conquista de Rafaela por ela ser mulher e negra. A vitória da Rafaela Silva é simbólica pela superação, mas não é de esquerda ou de direita. É dela, é do Brasil!

Do paraíso ao inferno em sete anos

Metade da população é contra a realização da Olímpiada no Brasil

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Pesquisa Datafolha reveladora faltando menos de um mês para a Olimpíada. Em três anos caiu de 64% para 40% quem é favorável a realização dos jogos do Rio de Janeiro 2016, e subiu de 25% para 50% quem é contra. O desinteresse pelos Jogos também é alarmante. Para 51% dos consultados pelo instituto o interesse pela primeira Olimpíada na América do Sul é nenhum, contra 33% com um pouco interesse e só 16% com muito interesse.

Outro dado da pesquisa é que para 63% dos brasileiros a Olimpíada no Brasil vai trazer mais prejuízo do que benefício ao país, só 29% acham que vai trazer mais benefício que prejuízo. Há um equilíbrio entre os moradores da cidade do Rio de Janeiro – 47% a 45%, para mais prejuízo que benefício. Na média geral, 51% acham que os Jogos Rio 2016 vão trazer mais prejuízo que benefício.

Há muitas explicações para essa mudança de humor da população. A principal é a mudança na economia. Quando o Brasil venceu o direito de receber os Jogos Olímpicos de 2016, em 2009, a economia vinha crescendo e teve seu ápice em 2010, com crescimento de mais de 7%. Não tinha Lava-jato, Lula era o presidente com quase 100% de aprovação e Dilma foi eleita sua sucessora prometendo manter esse clima positivo.

Em sete anos tudo mudou. A economia foi para o buraco, veio a operação Lava-jato descobrindo um esquema de corrupção gigantesco na Petrobras, contas públicas no vermelho, um processo de impeachment, troca de presidente, o Rio de Janeiro quebrou com a queda no preço do petróleo. O custo da Olimpíada já beira os 40 bilhões de reais com boa parte sendo financiada pelo poder público.

Foi uma aposta muito alta feita por Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Uma aposta escorada na bonança do petróleo com a descoberta do pré-sal e o crescimento da economia via consumo. Só que uma hora essa bolha estouraria e seria preciso um ajuste fiscal. Com a proximidade da eleição de 2014, o governo Dilma deixou o ajuste de lado, quando se dispôs a fazer era meio tarde e ficou muito amargo.

Ainda tem o fator que o Brasil não é um país olímpico. O Brasil ganha medalhas nas Olimpíadas mais no esforço pessoal dos atletas do que em um planejamento bem elaborado e executado pelo COB – Comitê Olímpico Brasileiro – e pelo Ministério dos Esportes. A expectativa dos organizadores para a delegação brasileira ganhar 30 medalhas (de ouro) e terminar entre os 10 melhores no quadro de medalhas é muito otimista.

A Olimpíada do Rio de Janeiro, do Brasil, da América do Sul vai acontecer. É torcer que nesses pouco mais de 20 dias tudo transcorra com uma mínima organização. Principalmente na segurança – igual na Copa do Mundo –, o mundo está muito belicoso. Que a “guerra” seja no tatame, nas quadras, nos gramados e com histórias emocionantes nas disputas por medalhas. De toda forma, o povo brasileiro vai pagar uma conta alta depois desses grandes eventos. A esperança é que o país não vire uma Grécia pós-2004.

Um sonho que virou pesadelo

Um projeto megalomaníaco comprometeu o futuro do país

A tensão entre Arábia Saudita e Irã e a desvalorização do petróleo pelos sauditas trazem para o debate o quanto foi irresponsável a ilusão dos governos do Brasil com o pré-sal, a Copa e a Olimpíada.

Pré-sal: Um projeto megalomaníaco incentivado pelo governo federal e pelo governo do Rio de Janeiro. Agora os dois estão com dificuldade de fechar suas contas. Comprometeram o futuro do país por um negócio que nem existia e, tudo indica, não vai existir. E quem vai pagar essa conta é essa e a próxima geração. O governo do Rio de Janeiro não tem dinheiro nem para manter os hospitais estaduais. Precisou o Ministério da Saúde intervir e a prefeitura do Rio fazer empréstimos ao governo estadual para os hospitais não fecharem as portas e o atendimento básico à população não ficar comprometido.

Em 2007 e 2009, quando o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo 2014 e a Olimpíada 2016, os que alertavam para a gastança sem freio e corrupção eram tachados de “chatos” e “pessimistas”. Os “otimistas” lembravam de Barcelona 92 e o desenvolvimento da cidade graças aos jogos olímpicos, de Sydney 2000; enquanto os “pessimistas” lembravam de Atenas 2004 e o colapso grego alguns anos depois. Parece que os “pessimistas” estão levando essa.

Sempre fica para os “chatos” dos economistas ortodoxo-liberais a missão de alertar para o lado ruim de uma festa, a organização, principalmente em uma organização de Copa do Mundo e Olimpíada. A maioria da população ficou embriagada com essas conquistas e o governo brasileiro injetou mais “bebida” nela, com um otimismo e nacionalismo que lembrou o “Ame-o ou deixe-o” da ditadura militar.

A verdade é que a Copa, Olimpíada e pré-sal foram usados como marketing por governos que só pensaram e pensam no calendário eleitoral. O legado propagado pelos governantes que esses eventos deixariam para população não passou de mais um conto do vigário. E nós, brasileiros, caímos novamente.

Rio 2016 e o “legado” de Grécia 2004

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A Copa do Mundo de futebol realizada no Brasil em 2014 custou R$ 27,1 bilhões. Apenas com as arenas foram gastos R$ 8,4 bilhões. O governo esperava um gasto de R$ 33 bilhões com o Mundial. Não significa, no entanto, motivo para comemorar. A “economia” feita foi de obras de infraestrutura não concluídas ou canceladas nas cidades-sede.

Sempre fui a favor da realização da Copa no Brasil. A Copa do Mundo foi um sucesso de público e a melhor média de gols do século vinte e um: 2,67 – empatando com a Copa da França em 1998. Grandes jogos. Sem nenhuma grande polêmica fora de campo. Uma festa, uma confraternização de torcidas, turistas nacionais e internacionais nas arenas, fan fests e nas ruas por todo país. Foi uma Copa do Mundo histórica não só por Brasil 1×7 Alemanha na semifinal, mas pelo geral.

Agora é hora de olhar para o absurdo dos gastos excessivos com verdadeiros elefantes brancos e superfaturamentos comprovados como o Estádio Nacional Mané Garrincha, de Brasília. R$ 1,5 bilhão para construir uma arena para quase 70 mil pessoas numa cidade que não tem nenhum time nem na Série B do Campeonato Brasileiro. A administração Agnelo Queiroz (PT) quebrou Brasília. O governo do Distrito Federal ficou praticamente sem dinheiro e atrasando pagamentos dos funcionários. Derrotado nas urnas, nem para o segundo turno foi, Agnelo Queiroz foi curtir férias nos EUA enquanto o novo governo fica com a bomba relógio para desarmar.

Depois das emoções da Copa do Mundo, chegou o momento de passar uma lupa em todos os contratos da organização do mundial e punir os responsáveis pelo menor a maior irregularidade encontrada.

Sem legado, orçamento dos Jogos Olímpicos do Rio já chega perto dos R$ 40 bilhões – exatos R$ 37,7 bilhões.

Quando o Brasil ganhou o direito de sediar a Olimpíada do Rio 2016 em 2009, a economia brasileira era celebrada no mundo. O ex-presidente Lula usou essa conquista como propaganda de seu governo para impulsionar o nome da então ministra Dilma Rousseff, de olho na eleição presidencial de 2010. Até a revista Economist fez a famosa capa do Cristo Redentor com “Brasil decola”. Brasil era a nova vedete do mundo com crescimento de quase 10%.

Não é mais. A realidade hoje é mais dura. A economia estagnou e uma inflação persistente acima da meta de 4,5% estabelecida pelo Banco Central. Um ajuste fiscal negado na campanha pela presidente reeleita Dilma Rousseff é feito via aumento de impostos para reequilibrar as contas públicas. O governo promete que o país voltará a crescer com inflação controlada em 2016, no ano olímpico. O Brasil de hoje lembra muito a Grécia de dez anos atrás.

Quando ingressou na União Europeia, a Grécia fez uma farra com dinheiro público e patrocinou a Olimpíada de Atenas 2004. Na hora de pagar a conta vem o discurso “anti-imperialista” contra a Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia).

O Brasil de 2017 será a Grécia de 2015? Só o tempo dirá. Mas caminha para isso.