Em busca da terceira força

Leonardo Dahi

A ex-ministra Marina Silva pretende criar um novo partido para viabilizar sua candidatura à Presidência. (Foto: Época)

Desde que o Brasil passou pelo processo de redemocratização, todas as eleições presidenciais, com exceção de 1989, tiveram PT e PSDB nas duas primeiras colocações. Isso significa que, pensando em Presidência da República, o Brasil vive uma espécie de bipartidarismo. Basta acompanhar qualquer discussão política nas ruas que isso se torna mais evidente: o prefeito pode ser do PDT, o governador do PMDB, mas, de um lado estão os petistas, e do outro, os tucanos.

No entanto, é curioso observar que, de 1994 a 2010, nenhum partido conseguiu ocupar duas vezes a terceira colocação na Eleição Presidencial. Em 94, foi a vez do PRONA de Enéas; em 98, o PPS de Ciro Gomes; em 2002, o PSB de Anthony Garotinho; em 2006, o PSOL de Heloísa Helena; e, em 2010, o PV de Marina Silva. Considerando que, em meio a esse bipartidarismo, existe uma razoável (e cada vez maior) parte do eleitorado descontente com os dois lados, por que essa terceira força não chega a incomodar as duas legendas soberanas no cenário político nacional?

Um bom exemplo que ilustra essa pergunta é o PSOL. Criada em 2004, a legenda foi vista como “um PT dos velhos tempos”: de esquerda (mesmo) e que não havia sido entregue à corrupção. Logo em seus primeiros anos de vida, o partido já lançou um candidato à Presidência, a ex-petista Heloísa Helena. A campanha fez barulho, mas, é claro não alcançou grandes resultados, pois é muito difícil conseguir, logo de cara, bater PT ou PSDB. Helena terminou em terceiro, com 6,85% dos votos válidos. É curioso notar que a chapa do PSOL nas eleições 2006 tinha dois partidos ultra-esquerdistas, o PSTU e o PCB, e, hoje, esses dois partidos (e outros que seguem a mesma linha) são rivais de um PSOL que, mesmo sem ter conquistado grandes vitórias, já é visto como “uma esquerda nem tão esquerda assim”.

Quatro anos depois, o Brasil via nascer uma nova terceira força: Marina Silva, do PV (enquanto, aliás, o PSOL investia na candidatura de Plínio de Arruda Sampaio). Com uma campanha moderna, praticamente independente do pouquíssimo tempo no horário eleitoral, Marina alcançou os 20% dos votos válidos. Pouco mais de dois anos depois, Marina não está mais no PV e virou uma política sem rumo. No entanto, as primeiras pesquisas de Ibope e Datafolha (que você pode conferir aqui) mostram que a candidata ainda está na cabeça do eleitor brasileiro (à frente, inclusive, do tucano Aécio Neves). Por isso, a ex-Ministra corre contra o tempo para fundar um partido a tempo de poder se candidatar à Presidência em 2014. Uma de suas principais apoiadoras nesse projeto? Heloísa Helena.

Heloísa Helena foi o primeiro grande nome do PSOL, partido fundado em 2004, com a candidatura à Presidência, em 2006. (Foto: Adriano Machado/Folha Imagem)

Tudo isso mostra que todas as “terceiras forças” se perderam no meio do caminho e não souberam como aproveitar os seus quinze porcento de fama.

Muito se fala na fraqueza da oposição brasileira e, por tabela, do PSDB. Mas há um problema ainda mais grave para a política nacional: a fraqueza e, pior, alternância desta terceira força. Nenhum candidato novo, de um partido novo, vai conseguir 30% dos votos em sua primeira Eleição presidencial para conseguir ir ao segundo turno. Não adianta a “alternativa” à PT/PSDB ser uma em um Eleição, e outra totalmente diferente daqui a quatro anos.

O Brasil precisa criar, com urgência, uma “oposição à oposição”, que precisa se organizar. Não adianta Marina Silva lançar candidatura com uma legenda nova porque, nesses quatro anos do período eleitoral, ela não fez nada que chamasse a atenção do eleitor. Quem votou nela em 2010, pode até votar em 2014 – por isso ela aparece bem nas pesquisas. Mas não passa disso.

Não adianta aparecer com ideias em época de eleição e, nos outros quatro anos, se refugiar na toca das redes sociais e blogs, defendendo aldeias indígenas e projetos sustentáveis, para depois aparecer, na Eleição seguinte, criticando os dois principais partidos brasileiros, se apresentando como “o diferente” ou seja lá o que for. Para isso, estão aí Levy Fidelix e José Maria Eymael.

E existe um outro ponto importante: ninguém vai dar um golpe de estado e fazer a ditadura voltar ao país (é o que eu penso, pelo menos). Não precisa se candidatar nesta Eleição como se não fossem haver outras. É preciso se organizar, criar alianças (inclusive com aqueles partidos que lançam candidatos à Presidência, sabendo que serão derrotados, apenas para atrair atenção e, principalmente, votos para Deputados e Senadores – outra coisa que tem que acabar). E não criar um partido às pressas, pegando o eleitor de surpresa.

Como eu disse anteriormente, para o Brasil, o problema da “terceira força” é maior que o da oposição. Se as duas principais legendas não se sentirem ameaçadas, continuarão guerreando entre si, deixando o eleitor e, consequentemente, o país, em segundo plano.

E, na visão mais otimista possível, isso ainda vai continuar assim por muito tempo.

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