Vergonha nacional

Leonardo Dahi

No auge das manifestações de junho do ano passado, quando o Brasil recebia a Copa das Confederações, o país foi tomado por protestos “contra a Copa” e eu fiz esse texto dizendo o quanto isso era ridículo.

Pois bem, a menos de cinco meses do início da competição, quando todos os estádios e obras relativas ao torneio estão prontos (ou em fase final), vemos um movimento nas ruas “Não vai ter Copa”. “Sem Direitos, sem Copa”, diz a família de um menino baleado pela PM que até agora não se sabe se estava na manifestação ou não.

Vamos tentar esquecer o fato de que, ao contrário do que eles querem acreditar, esse pessoal não tem força para impedir a Copa. Eu não tenho palavras para descrever a burrice de quem, após bilhões gastos, abre mão dos bilhões a mais que ela pode vir a retornar. Não consigo classificar de outra maneira que não com um mau-caratismo (ou inocência) enorme os líderes da revolta nacional que queriam o dinheiro da Copa em hospitais como se tudo por aqui funcionasse perfeitamente bem até a FIFA anunciar este país como sede do Mundial, lá em 2007. Como se a culpa, a panaceia dos nossos males, fosse a FIFA ou a Copa do Mundo.

2007… Estamos em 2014. Foram sete anos para dizer que não queríamos a Copa. Até mais, se lembramos que havia um lobby pela escolha do Brasil desde 2006 e que éramos o único candidato. Agora, sinto muito, já é tarde. Vamos fazer e vai ser sensacional. Se o Governo não fez a parte dele, façamos a nossa e façamos dessa Copa um momento especial. Não para as Copas, mas para nós. E isso não significa sair por aí protestando “contra tudo”. É receber quem vem pra cá de maneira cordial, é tentar não atrapalhar quem, brasileiro ou não, quer apenas assistir um jogo porque pagou caro por isso.

No auge da revolta popular, surgem grupos que, revoltados com a verba repassada às Escolas de Samba, prometem atrapalhar os desfiles na Marquês de Sapucaí. Ignorantes… Mal sabem, além do retorno que a festa gera, o quanto ela é importante para esse país. Tolos… Não sabem o quanto um samba-enredo – como qualquer música, qualquer forma de arte – pode ser muito mais útil que essa máscara que eles insistem em usar para protestar. Pretensiosos… Não sabem o quanto são inúteis para o progresso desse país.

imperio serrano

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O Brasil da juventude atual é um país apaixonado pela revolução. Isso dito assim pode parecer fantástico, afinal, o descontentamento é uma das principais formas de alcançar uma sociedade decente. Mas aqui no Brasil, isso é ruim. E é ruim porque, na verdade, não somos apaixonados pela revolução, mas sim por sermos revolucionários. Impulsionados por uma geração que, essa sim, lutou para mudar o país, temos a tal geração Y que adora romantizar as coisas para se posicionar como revolucionária, como líder, como o Edson Celulari na histórica Que Rei Sou Eu?, de 1989, ou o Cássio Gabus Mendes na não menos fantástica Anos Rebeldes

Uma juventude que usa bandeiras anarquistas, socialistas, ou fascistas sem, em muitos casos, sequer saber o que elas significam. Uma juventude que, como eu disse, romantiza os problemas brasileiros e nossa política para criar vilões e posar de herói. Que julga estar interferindo nos rumos da nação quando, na verdade, só está causando uma baderna e atrapalhando a vida de quem diz defender. Temos, atualmente, muitos Che Guevaras e Mandelas, e isso em nada tem a ver com esquerda ou direita, que acham que a luta armada – que, no caso deles, nem é tão armada assim (até isso eles romantizam) – é algo legal.

Bobos… A luta armada nunca é legal. Pode até ser mais emocionante de se estudar, de se inspirar, mas é algo, às vezes, necessário. E, agora, não é. Somos um país democrático com muitos problemas políticos, mas que está sempre aberto à mudanças. Lute por elas, mas lute com princípios, não com bagunça. Vote melhor, exponha seus descontentamentos de maneira mais clara, lute por uma bandeira mais sólida. Se a sua revolta ainda não deu resultado, sinto muito, a culpa é sua.

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No fundo, esse pessoal só quer mostrar para o Mundo que o Brasil não é futebol, bunda, caipirinha, praia e Carnaval. Um pessoal que passou a vida dizendo ter vergonha do nosso país por passar essa imagem. Coitados… Não sabem que, na verdade, nada disso nos envergonha lá fora. Não sabem que, na verdade e nesse momento, o nosso maior motivo de vergonha são eles mesmos.

O funk da discórdia

Baile-funk

Leonardo Dahi

Vamos aos fatos: a Câmara de São Paulo aprovou um projeto de lei que proibia bailes funk em vias públicas (onde, até onde eu sei, são realizados 99% desses bailes). O Prefeito Fernando Haddad (PT) vetou o projeto alegando que “O funk é uma expressão legítima da cultura urbana jovem, não se conformando com o interesse público sua proibição de maneira indiscriminada nos logradouros públicos e espaços abertos”.

Parte da opinião pública criticou duramente o Prefeito usando “argumentos” como o de que isso é “populismo” e forma de “comprar voto dos funkeiros”.

Agora vamos analisar a situação passo a passo. O projeto é absurdo. Não sei se é ilegal, creio que não, já que se trata de vias públicas, mas é, ainda que extra-oficialmente, censura. Tentar impedir qualquer manifestação cultural tem esse nome. O funk, como disse o Prefeito Haddad, é uma manifestação cultural. Se é boa ou é ruim, não sou eu, nem você, nem os vereadores, nem o Haddad quem tem que dizer. O que eu, você, os vereadores ou Haddad gostamos em termos de música não importa.

Se existem uma, duas, dez ou cinco mil pessoas que gostam de funk e querem ir ao baile, que se permita o baile, ué. “Ah, mas faz barulho”. Admita: seu problema não é com o barulho, mas com o que ele diz. Isso não é exatamente ruim, já que o direito que o cara tem de ouvir funk é o mesmo que você tem de não gostar. Mas daí a querer que ele ouça em casa, vai uma grande diferença.

Vamos a um exemplo prático: eu não gosto de funk. Não por causa das letras, nem do estilo de seus cantores, nem pela melodia, nem nada disso que a gente não precisa explicar quando diz não gostar de qualquer outro gênero. Só não gosto. Se eu estiver em um local e do lado houver um baile funk, eu possivelmente ficarei irritado. Só que isso não me dá o direito de proibir que o baile aconteça. Mesmo porque seria uma hipocrisia imensa da minha parte.

Eu gosto de samba, de Carnaval. Aqui em São Paulo, uma das maiores tradições em matéria de samba-enredo (e isso se estende por outros lugares daqui e do Rio) são os ensaios da Vai-Vai pelas ruas do Bixiga. Ora, como eu posso querer proibir o funk se o gênero que eu gosto faz o mesmo barulho? E admita, você também não ligaria se houvesse um show do seu artista preferido na porta da sua casa. Aliás, duvido que, fosse outro gênero, alguém sequer levasse uma Lei dessas para a câmara.

O funk vive, hoje, um preconceito que o próprio samba viveu no Século XX. É um assunto a ser explorado em outro texto, mas creio que a vontade de gritar que fulano tem moto x, carro y e “n” mulheres irrite um pouco quem não tem nem a moto, nem o carro e muito menos a mulher. É um preconceito diferente do que o samba viveu (ali havia uma ligação forte com o racismo, já que a escravidão ainda era coisa recente), mas preconceito.

Quando Fernando Haddad vetou o projeto de lei que proibia os bailes, ele não fez nada que mereça uma salva de palmas. Fez o que qualquer político, em 2014, deve fazer. Isso não é populismo: é liberdade de expressão.

Agora vamos à parte final. O barulho feito por essa tal “opinião pública” me deixa um pouco assustado. Não deveria, já que temos demonstrações dessas dia sim, dia também, mas ainda me deixa. É complicado pensar que estamos em 2014 e algumas pessoas ainda relacionam o gosto musical ao caráter de alguém.

Sim, o funk é patrocinado por muitos bandidos, traficantes e etc. Acredito que até alguns cantores tenham caráter duvidoso. Mas isso não significa que o cara que ouve funk vá roubar sua carteira. Novamente recorro ao samba: o Carnaval foi e ainda é patrocinado por bicheiros, traficantes, mas tem, por trás de cada um deles, milhares de pessoas que suam sangue por sua comunidade. Pessoas honestas, trabalhadoras, de bem.

É completamente absurdo ligar uma coisa com outra. O fã de Justin Bieber é acusado de pichar muros, arrebentar hotéis e transgredir regras? O fã de João Gilberto é tido como alguém que não cumpre horários? O torcedor do Botafogo é acusado de bolar golpes do tipo pirâmide de Ponzi? E os jovens ricos que financiam o tráfico de drogas de maneira muito mais séria que através de um baile funk? Sim, subir o morro pra comprar maconha ainda é mais grave do que ouvir funk.

Que fique claro que nesse jogo de opressor e oprimido, o segundo só não toma a mesma postura preconceituosa por falta de oportunidade. Experimenta trocar o baile funk por uma ópera em um sábado qualquer pra você ver. A filosofia do “minha vontade é o que vale” impera por aqui em todas as classes. Aliás, é a coisa mais democrática e que une ricos e pobres que temos no Brasil desde que o ingresso no Maracanã ficou mais caro.

O Brasil sempre se orgulhou de ser terra de todos, um mosaico de diferentes culturas, etnias e gostos. Mas, a cada dia que passa, fica mais evidente que todos são iguais, mas, em geral, todos nós queremos ser mais iguais que os outros.

Ele sempre voa

Leonardo Dahi

Foto: EBC

Os quatro ex-Presidentes vivos – José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva – mais a atual Presidente Dilma Rousseff, embarcam para Joanesburgo, África do Sul, para prestar as últimas homenagens ao grande líder local, Nelson Mandela, morto na última quinta-feira. Eles entram no avião da FAB, que não parecia em boas condições, aliás, e se preparam para a decolagem.

Estranham a demora e, quando vão até a porta da aeronave, se deparam com um bate-boca do copiloto pelo telefone. Dilma pergunta qual o problema, ele tenta desconversar, mas acaba dizendo a verdade: o piloto escalado para o voo perdeu totalmente sua força e desmaiou quando vinha para Brasília, não podendo pilotar. O copiloto tenta convencer a torre de que pode guiar o avião, mas recebe como resposta, o argumento de que, neste caso, não haveria copiloto. Sabe-se Deus como isso foi possível, mas não havia ninguém para substituí-lo em pelo menos cinco horas. A esta altura o telefone estava no viva-voz.

Sarney então se adianta, toma o telefone e diz:

– Eu posso ser o copiloto.

Quando perguntado se já havia exercido a função, ele responde:

– Não, mas acho que sei como fazer. Esse avião se mantém sozinho no ar, apesar de qualquer coisa. Chegaremos em Joanesburgo.

A torre estava irredutível, mas Dilma, com calor, tomou o aparelho e autorizou Sarney a auxiliar o agora piloto. Misteriosamente, neste momento, o piloto leva um tiro – o avião leva alguns, mas não há mais nenhum ferido. A equipe média chega, mas não evita sua morte. O avião, então, sobra para Sarney que, aos trancos e barrancos, decola o avião sem copiloto mesmo.

A viagem foi bastante tensa. As turbulências não eram esporádicas e sim permanentes. As turbinas estão com defeito, as asas não parecem tão firmes. A impressão é de que o avião cairia a qualquer momento. Para piorar, nenhuma aeromoça conseguia encontrar as comidas e bebidas no avião, devido aos movimentos bruscos que o avião fazia. Pouco menos de uma hora depois, Sarney reconhecia que não tinha condições de prosseguir como piloto. Ao mesmo tempo, Collor e Lula se candidataram para assumir. Após uma pequena discussão,  Collor acabou vencendo e sentou na cadeira da piloto.

Aos poucos, a comida começou a aparecer e a viagem passou a ser um pouco mais tranquila, embora alguns passageiros achassem estranho o fato de suas carteiras aparecerem na cabine do piloto. Eis que o avião começa a desacelerar. Desesperados, os passageiros perguntam o que houve e Collor responde:

– Calma, eu vou segurar um pouco a gasolina do avião porque não sei se ela aguentará até a África. Daqui a uma meia hora eu volto a acelerar aos poucos.

Com o avião cada vez mais próximo do chão, arrancam Collor de lá. O avião fica parado por um tempo até que Lula perde de novo e há uma troca de Fernandos: entra o Henrique. O avião se choca contra algumas árvores (sim, tudo isso aconteceu antes que ele saísse do território nacional) e, com alguns ferimentos, acaba milagrosamente voltando a voar. Aos poucos, a turbulência acaba, a viagem vai ficando mais confortável. Após algum tempo, Lula bate na porta da cabine, entra e encontra um compenetrado Fernando Henrique lendo guias turísticos de Paris, Milão, Londres e Barcelona. Pergunta a FHC porque aquilo e ouve:

– Resolvi não ir mais para a África. Faz tempo que não tiro umas férias na Europa, acho que mereço viajar um pouquinho. Agora decolaremos em Paris e lá me encontrarei com o cara que, espero, vá assumir este avião e nos levar para o resto da Europa.

Hora de seguir viagem. (Foto: UOL)

Lula tenta convencer FHC a rumar para a África, até que sente um tranco. O avião, de maneira bem atrapalhada, pousa no aeroporto da capital francesa e acaba ainda mais danificado. Enquanto FHC desce e explica a situação para o suposto novo comandante – um tal de José Serra -, Lula fecha a porta da aeronave e decola, danificando ainda mais a mesma.

Enfim, o avião fica mais estável. Ele está bem danificado e isso mais cedo ou mais tarde trará problemas, mas Lula, milagrosamente, faz com que o mesmo voe bem. A comida melhora e agora tem até filme para os passageiros. “Lula, o filho do Brasil” é a película. O que ninguém sabia é de onde apareceram tantos novos passageiros e porque todos eles usavam cuecas que tinham dólares como estampa. Com o alto número de passageiros, começou um campeonato de pôquer com dinheiro envolvido – não só durante as partidas, diga-se. Quando está quase chegando em terras africanas, ele passa o controle para a Dilma. Pela primeira vez, a troca de comandante foi tranquila.

Quando Dilma assume, os danos no avião começam a trazer problemas. Por sorte, quando começavam a cair, o aeroporto de Joanesburgo já era visível. Dilma bate, arrebenta todo o avião, o raspa no chão, quase atropela quem está na pista, mas pousa.

Eles descem e já começa a discussão para ver quem assume na volta. Dilma diz que consegue o levar para o Brasil. Lula diz que, em último caso, está ali. Também aparece o neto do copiloto morto. Ninguém sabe como, mas aquele cara que assumiria o voo em Paris já estava em Joanesburgo e também quer o comando da aeronove. O neto do copiloto morto está no chão, após levar uma rasteira. Também estão lá um piloto com bons voos domésticos e que traz como copilota uma ativista indignada com as árvores derrubadas no caminho. De repente, surge um policial prendendo alguns passageiros do avião e alguns populares sem-noção pedem para que ele leve todo mundo de volta pra casa.

Que o avião voe – e, de preferência, sem muitos danos ou turbulências.

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* Esta é, obviamente, uma obra de ficção. Talvez haja algumas semelhanças com a realidade. Talvez.

O alvo errado

Leonardo Dahi

O Brasil é o país em que nem o controverso é tão difícil de explicar quanto o óbvio. Nesses temos bicudos de manifestações e protestos por todo o país, o povo, cansado, escolheu um alvo para despejar sua raiva: a Copa do Mundo de 2014. Bradam contra os gastos absurdos lembrando dos problemas do país e caracterizam como “um absurdo” o país sediar um evento desses com as condições atuais, em especial com as dispensáveis exigências da FIFA.

É óbvio que escolher o Mundial de 2014 como alvo principal dos protestos é um erro enorme. Mas, como dito no começo, aqui, é mais difícil explicar o óbvio que o controverso.

A Copa não se faz com 12 estádios. Se faz com obras de infraestrutura, mobilidade urbana, maior estrutura hoteleira, de aeroportos, etc. Ou seja: após os 30 dias do torneio, o brasileiro, mesmo aquele que “não gosta de futebol e não quer a Copa”, pelo menos a princípio, teria sua vida melhorada por todas essas obras.

“Ah, mas quase nada foi feito, tudo ficou no papel”.

Concordo.

Agora me diga: que culpa a Copa do Mundo e a FIFA tem nisso? Se as obras não foram feitas, não foram feitas por culpa do poder público, não da Copa ou da FIFA. Aliás, quando você critica a FIFA por isso, os políticos, verdadeiros responsáveis, adoram. Isso sem falar nos turistas que virão para cá e que, maravilhados com nossas belezas naturais, voltarão e trarão mais gente depois da Copa.

“Tá bom. Mas as obras superfaturadas nos estádios, sendo que alguns nem serão usados depois do Mundial? Isso não vai melhorar a minha vida em nada”. Bom, não vai melhorar se você nunca foi a um estádio de futebol na vida. Ainda assim, é bom lembrar que se o Governo vai fazer um hospital e avalia a obra em R$ 1 milhão, mas acaba gastando cinco, também está errado. Superfaturamento nunca pode ser relevado por causa da importância da obra. Então, se houve superfaturamento no estádio, não é culpa da Copa, assim como, no caso do hospital, não seria culpa da enfermeira.

“Tá, e os estádios precisavam ter tantas frescuras? Com um assento do Maracanã, dava para fazer não sei quantos leitos de hospital!”.

Rá!

Amigos, quando o Ronaldo disse que “não se faz Copa do Mundo com hospitais”, ele estava certo (antes de me xingar, procura a entrevista – de 2011!!! – e veja o contexto em que ele disse isso). E sabe por que você não deve ficar irritado com isso? Porque você viu Copa do Mundo a vida inteira e sempre soube que os estádios, pelo menos desde 2002, precisam ter essas tais “frescuras”. “Ah, mas eu não queria a Copa aqui no Brasil”. Então deixa eu refrescar sua memória. O Brasil foi eleito como sede do Mundial em 2007, seis anos atrás. Sabe quantos países estavam na disputa? UM. Só o Brasil.

Logo, não havia dúvidas de que receberíamos um evento desse porte em 2014. Agora façamos uma soma: você sabe como funciona esse negócio de sediar Copa, sabe que é caro, sabe que o Brasil, país em que tudo termina em superfaturamento, vai ser a sede, não quer a Copa aqui. ENTÃO POR QUE DIABOS NÃO FOI PROTESTAR ANTES DO ANÚNCIO OFICIAL E NEM EM DIA ALGUM DESTES SEIS ANOS? Eu respondo. Porque você não era contra a Copa. Aliás, continua não sendo. Mas na falta de argumentos para protestar “contra tudo”, achou que esse seria um bom alvo.

E como já ouço muita gente bradando impropérios contra a FIFA, gostaria de lembrar que ela é uma entidade privada que não pediu para fazer Copa aqui. Como entidade privada, faz as exigências que quiser, cabendo ao Governo Brasileiro aceitar, ou não.

E eu nem vou comentar os pedidos absurdos de que a Copa não seja mais aqui porque isso é o cúmulo da burrice. Após todo o ônus que a Copa trouxe, abrir mão do bônus é imbecilidade, desculpa.

Festa no Cristo Redentor após o anúncio oficial de que a Copa de 2014 seria no Brasil (2007). O brasileiro sabia o que estava por vir.

Sem contar que o brasileiro tem uma mania engraçada de não olhar pro próprio umbigo quando vai reclamar de alguma coisa.

Quem me conhece sabe que eu gosto muito de Carnaval e, por isso, tento ter algum contato com Presidentes de escolas de samba e Carnavalescos nas redes sociais. E, olha, o que eu vi de Presidente reclamando dos gastos com a Copa, não foi brincadeira. MAS OPA PERAÍ UM POUQUINHO: e a verba que você recebe do Governo todo ano para botar o seu Carnaval na Avenida? Multiplica por 12 escolas no Grupo Especial, 17 no Acesso e quase 50 nos grupos inferiores, isso só no Rio de Janeiro. Não dá para fazer hospital com essa grana?

E o jovem do interior, que, inflamado faz discursos e mais discursos contra a Copa, mas é o primeiro a chegar quando algum cantor famoso vem fazer um show gratuito – e, logo, bancado pela Prefeitura – na cidade?

Então, amigos, se é para deixar de injetar dinheiro “onde não há necessidade”, que seja em todo lugar onde “não há necessidade” (lembrando sempre que o que não é necessário para você, pode ser importante para mim, e vice-versa), independente dos valores. No mais, torçamos e aproveitemos este momento único que acontece em nosso país. Copa das Confederações, do Mundo, Olimpíadas, isso tudo é muito legal e se torna um momento único quando acontece aqui do nosso lado. E, quem quiser ir as ruas, que vá protestar contra quem realmente merece.

A revolução vazia

Leonardo Dahi

Não diga!
Não diga!

E o povo foi, enfim, para as ruas. Após mais de vinte anos de passividade, o brasileiro decidiu que era hora de se levantar, agir, fazer alguma coisa. O estopim para a revolta geral da nação foi o aumento de vinte centavos no preço das passagens de ônibus em algumas capitais do país. A partir daí, vários protestos se desencadearam e o assunto virou tema das conversas de todo o Brasil.

Em primeiro lugar, é preciso frisar que, independente da legitimidade do ato, um protesto sempre é válido. Por um motivo nobre ou não, ele é um direito garantido na Constituição. Também é necessário dizer (mas não deveria ser, de tão óbvio que é) que um protesto sempre tem como objetivo, atrapalhar. Não existe protesto – pelo menos não com sucesso – que não “atrapalhe o trânsito” e reclamar disso chega a ser quase uma ironia em cidades como São Paulo, onde nunca se chega cedo em casa.

Também me soa óbvio que em um grupo enorme de jovens inflamados, com vontade de gritar e reivindicar alguma coisa, existirão alguns baderneiros que partirão para a violência, e estes não podem, sob hipótese nenhuma, descaracterizar o movimento. Por fim, é preciso demonstrar todo o repudio quanto à ação da Polícia Militar na esmagadora maioria das capitais, que, em um remake de cenas vistas nas décadas de 60 e 70, atropelou a Constituição e, quase que literalmente, alguns manifestantes. Bem como é de se repudiar a atitude de todos os governantes, de todos os partidos, que tentaram fazer cortina de fumaça no que acontecia até quando foi possível.

Faço essa introdução para demonstrar que não deve se questionar o fato de que, enfim, essa geração foi às ruas e de que isso é ótimo. Estão muito certos e tem que protestar. Mas, agora, é hora de parar um pouco e pensar: qual o real sentido destes protestos? O que eles conseguiram, ou melhor, querem conseguir? Honestamente, não conseguiram quase nada e, desse jeito, dificilmente conseguirão alguma coisa.

Fazer barulho, mostrar aos governantes que está acordado, é o básico de qualquer protesto. Se eu sair na rua batendo panelas em frente a sede da CBF, indignado porque o Ronaldinho Gaúcho não foi chamado para a Copa das Confederações, vou mostrar meu descontentamento, vou incomodar algumas pessoas, e não vou conseguir nada, porque o Felipão não irá mudar de ideia na próxima convocação só porque eu quero assim. Ou seja: essa “Revolução” que todo mundo fala nada mais é que a condição fundamental para que um protesto exista. E essa condição não é uma conquista, mas sim o início, a “pedra fundamental”.

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Foto: Divulgação

O “Movimento Passe Livre” faz algo parecido com o exemplo dado no início do parágrafo anterior. Não precisa pensar muito para saber que, pelo menos neste milênio, nenhuma grande cidade brasileira vai dar transporte coletivo de graça para todo mundo. Talvez seja preciso queimar uns dois ou três neurônios para entender que isso é economicamente inviável (e, para isso, eu recomendo a leitura deste texto), mas isso é outra história. Fato é que esses estudantes estão lutando por algo completamente utópico, o que nem é ruim por si só. A questão é que existem reivindicações mais viáveis e que teriam mais chance de surtir efeito. E nem é preciso sair do tema passagens de ônibus para achar uma delas: seria mais interessante lutar apenas para que não houvesse o tal aumento das passagens, ou contra a máfia que controla o transporte coletivo no país.

Só que aí entram dois problemas bastante graves. O primeiro é que nossa sociedade é meio estranha. Passa a vida dizendo que o brasileiro é acomodado, que não vai para a rua exigir seus direitos e, quando fazemos isso, o cidadão reclama que eles atrapalham o trânsito “por causa de vinte centavos”, sendo que “são jovens de classe média que portam um iPhone de dois mil reais”. O segundo é que quem protesta resolve dar ouvidos a estes absurdos e começa a bradar “não é só por vinte centavos”. Aí, amigos, aí danou-se de vez. O que era utopia vira uma sala de quinta série com 70 alunos, onde todo mundo grita, ninguém entende nada e o professor finge que nada acontece, se limitando a, de vez em quando, falar “crianças, silêncio”.

Querem o Michel Temer Presidente. (Foto: Reprodução)
Querem o Michel Temer Presidente. (Foto: Reprodução)

Digamos que houvessem 100 mil pessoas na Avenida Paulista ontem. É de se imaginar que sejam pessoas das mais diversas raças e classes sociais e, consequentemente, que tenham motivos bem diferentes para mostrar seu descontentamento com o governo, seja ele de que partido for, de que esfera for. Agora você imagine que este protesto simplesmente não tenha um objetivo definido, já que a maioria destes manifestantes bem sabe que o Passe Livre é uma bobagem. Pronto. O cara que tem a mãe doente no hospital público reclama da saúde, enquanto, ao seu lado, o pai que tem filho na escola do Estado, brada por melhorias no setor. Com a camisa vermelha, um carrega a bandeira do MST, enquanto, ao seu lado, um fazendeiro protesta contra a tomada de terra por parte do movimento. É uma situação fictícia, mas perfeitamente possível.

Quanto menos os movimentos tiverem uma ideia central, mais barulho ele irá fazer, maior adesão ele ganhará, e menor chance de sucesso ele terá. Se revoltar gratuitamente contra todo o descaso dos políticos nesses vinte anos de uma vez, é legítimo. Achar que dará algum resultado, é tão utópico quanto o tal “Passe Livre”.

E sem contar que aí entra uma porrada de gente fazendo discurso de boteco. Um quer protestar contra o dinheiro gasto nos estádios da Copa no dia do jogo de abertura da Copa das Confederações, sendo que teve quase seis anos para fazer alguma coisa (se isso aí não é vontade de aparecer, sei lá o que é…). O outro começa a meter o pau na Globo, dizendo que ela é manipuladora. Tenho fé que um dia teremos algo chamado internet para as pessoas terem alguma fonte de informação além da TV. Também sonho com o dia em que o controle remoto chegará a todas as casas do Brasil. Bom, isso é outra história. Tem gente que quer, inclusive, acabar com os partidos políticos, mais a frente, um quer tirar a Dilma da Presidência da República, enquanto o outro quer que todo mundo cante o hino nacional de costas no jogo do Brasil.

Amigo, aquilo lá é evento FIFA, campeonato de futebol. Só se justifica cantar o hino de costas em uma situação dessas se seu time estiver mal. Como o Brasil ganhou de 3 x 0 o primeiro jogo, acho que eles merecem uma moral maior. Se sair gol do México, aí sim, xinguem o Felipão, virem de costas, sei lá, façam alguma coisa. NÃO JOGA POR AMOR, JOGA POR TERROR. Bom, isso também é outra história.

Fato é que é muito legal ver o povo indo as ruas para demonstrar seu descontentamento. Mas a tão falada “Revolução”, lembra muito um elefante branco, alvo de tantas reclamações dos protestantes. É enorme, bem construída, bonita arquitetonicamente, impressiona, causa impacto. Por dentro, porém, é vazia e, assim que essa euforia acabar, ela não terá nenhuma utilidade, não deixará nenhum legado.

Querem marcar uma audiência com o Prefeito do RIO DE JANEIRO e usam o cartaz para convocar o povo a cantar o hino nacional de costas no jogo em FORTALEZA. (Foto: Facebook)
Querem marcar uma audiência com o Prefeito do RIO DE JANEIRO e usam o cartaz para convocar o povo a cantar o hino nacional de costas no jogo em FORTALEZA. (Foto: Facebook)