Lucas de Freitas, @LinuxC
O que o passado recente nos ensina? Vimos que quando a repressão ou a generalizada violência cessou no ápice das manifestações, as ruas entraram em clima de calçadão. Pipoca, cerveja e até água, apesar de à preços de estabelecimentos classe A eram vendidos por ambulantes. O ambiente que chegou a tornar-se familiar e divertido fez com que a liberdade que só se encontra na internet fosse algo concreto.
Raridades como atuação política generalizada, pais com suas crianças nos ombros sorrindo sem estresses, nuvens de maconha e a PM cercando um espaço sem espancar ou prender arbitrariamente nenhum pobre saíram do mundo platônico e se tornaram realidade. Erguer um cartaz se tornou, no pensamento de muitos, sinônimo de convencer ou confrontar centenas de pessoas que se cruzavam minuto a minuto. É aí que começa nosso problema.
Desejos, vontades e ideias são conflitantes. É diferente termos uma manifestação onde o alvo é se reduzir o preço das passagens do transporte público e uma onde o alvo é simplesmente ir à rua “contra-tudo-que-está-aí.”.
Minha intenção realmente não é a mesma da mídia tradicional de lhe convencer que para protestos serem realizados é necessário ser pragmático e montar um regimento interno com percursos, velocidade máxima pré-estabelecidas, pontos de parada e gritos padronizados. De qualquer maneira, sindicatos e movimentos populares como o MST já seguem toda a cartilha, e não ganham muito apoio dos roborrepórteres brasileiros.
No século XVIII, o parlamentar inglês Edmund Burke já refletia sobre a responsabilidade do governo em julgar ideais distintas, que muitas vezes entram em conflito para se alcançar um consenso positivo para o povo. Discutir e analisar desejos excessivamente minoritários se torna uma perda de tempo, mas isto é inconcebível para quem declara possuir desprezo em política, ao passo que quer sua voz escutada. Afinal, como aceitar o aumento do preço do combustível ou o valor de um videogame na faixa de R$4000,00? O resultado disso é uma Avenida Paulista ou Rio Branco facebookiada repleta de cartazes feitos ao impulso, sem qualquer reflexão ou nexo, aplaudidos por muitos pela sua suposta criatividade.
É difícil distinguir se a foto do cartaz acima se encaixa na categoria ingenuidade ou ignorância. Tomemos como ingenuidade para não sermos arrogantes, afinal se somarmos 9 anos de educação fundamental e 3 de ensino médio, não se existe uma aula em um colégio sequer que elucide a um estudante o que é o espectro político, e que diferencie esquerda de direita – em muitos casos, literalmente.
A expectativa da explosão de novos e massivos protestos é grande. Já foram gastos milhões dos cofres públicos para camburões anti-manifestação e as vezes é difícil desejar que a polícia não reprima. Pessoalmente eu seria um dos prejudicados por esse desejo.
O medo de uma bala de borracha efervesce na mente de quem não sabe pelo que luta. Quando as ruas se tornam espaços pacíficos, os ingênuos tiram o facebook do computador e o dão vida com seus cartazes. Se não se conhece o ambiente, se não se conhece os males necessários e as tradições do espaço, deve-se haver cuidado por onde se pisa: As ruas tem suas rachaduras.