
Passada a histórica eleição de 2014 é possível imaginar como será o quadro daqui a quatro anos. Claro que ainda é muito cedo. Dilma nem tomou posse para um segundo mandato. Mas em política, assim que se fecham as urnas, já surgem as conversas sobre a próxima disputa. Neste momento, alianças no Congresso se formam de olho na próxima eleição. Quem diz o contrário está mentindo ou é ingênuo.
O natural é Aécio Neves ser novamente o candidato do PSDB em 2018. Afinal, ele tem 51 milhões de votos como arma para ganhar a indicação do partido de novo. Conseguiu ser o tucano com mais votos para presidente desde 2002 e quase derrotou o PT. Ele quer ser o grande líder da oposição e fez um pronunciamento histórico na volta ao Senado Federal. Mas sua candidatura para 2018 não será fácil. A escolha de candidatos para uma eleição presidencial não funciona apenas pela lógica. A lógica nem sempre acompanha a política.
Nos últimos anos, três grupos políticos disputaram o comando do PSDB: o grupo político do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o grupo de Aécio Neves e o grupo de José Serra. Alckmin levou vantagem e foi o candidato à presidência em 2006. Corre nos bastidores que só foi o Alckmin porque Serra não queria enfrentar Lula novamente. É possível, mas não creio que Serra deixasse de disputar a presidência da República se tivesse chance. Sua ambição política pela presidência falaria mais alto. Em 2010, não quis a reeleição para governador de São Paulo porque achava que teria grandes chances de ganhar sem o Lula na disputa, mesmo o país crescendo a 7,5%, a popularidade de Lula batendo 90% de aprovação e 70% da população querendo continuação. Era óbvio que Lula elegeria quem colocasse como candidato. Deu Dilma, a primeira mulher eleita presidente do Brasil.
Em 2014 era o contrário: 70% pró-mudança. Economia crescendo 0%, inflação no teto da meta, escândalos de corrupção na Petrobras e a popularidade da presidente em queda – recuperada em plena campanha graças aos filmes de João Santana. E a alta na avaliação do governo foram fundamentais para a reeleição apertada de Dilma. Em São Paulo, Alckmin tinha a prerrogativa da reeleição, Serra sem mandato e mais que isso: perdeu a prefeitura de São Paulo para outro “poste” de Lula, o ministro da educação Fernando Haddad (PT). Aécio se aproveitou que era senador e costurou alianças, ganhou todos os diretórios do partido colocando aliados neles e se tornou presidente do PSDB. Com o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Alckmin ocupado em São Paulo, Serra politicamente desgastado, e tivemos um caminho pavimentado para Aécio conseguir a indicação para ser o candidato do partido neste ano.
Agora a situação parece ser confortável para Aécio, mas não está.
Primeiro desafiante: Geraldo Alckmin é bem visto entre os paulistas e foi reeleito no primeiro turno com 57% dos votos válidos. Seu governo é bem avaliado apesar da crise hídrica e da denúncia de formação de cartel na construção das linhas do metrô de São Paulo.
Segundo desafiante: José Serra está de volta e revigorado depois de derrotar Eduardo Suplicy (PT) para o Senado com boa vantagem – Suplicy era senador por São Paulo há 24 anos. Serra vai travar uma disputa feroz com Aécio no Senado para ver quem será o grande líder oposicionista do governo Dilma. Agora tem jogo. Aécio não vai ganhar novamente por W.O. Se Serra já queria prévias quando suas forças políticas estavam frágeis, agora mais do que nunca ele vai exigir prévias para definir o candidato do partido em 2018. E deve ter apoio de Alckmin, que também sonha em ser ele o candidato. Além de novatos que se reelegeram com grandes votações. Como os governadores reeleitos Beto Richa – reeleito no Paraná no primeiro turno – e Marconi Perillo – reeleito em Goiás no segundo turno, mas com quase 60% dos votos válidos. E o Senador Alvaro Dias, do Paraná, reeleito para mais um mandato com grande votação.
Nem o apoio de FHC deve ajudar Aécio a evitar as prévias dessa vez. E é aqui que entra a minha sugestão ao Aécio, Serra, Alckmin, FHC e demais tucanos: façam prévias!
Sinto falta de prévias como nos EUA. Quem não se lembra da disputa de Barack Obama contra Hillary Clinton para a indicação do Partido Democrata? Sinto falta disso aqui no Brasil. O partido que realizava prévias era o PT até 2002, quando Lula precisou derrotar Eduardo Suplicy para tentar pela quarta vez ser presidente. Com a chegada do partido ao Planalto, acabaram-se prévias no PT.
Prévias partidárias são democráticas. Essa disputa dentro do partido é saudável. O vencedor já entra na disputa principal votado. Pelos militantes e filiados do partido, mas votado, com moral e legitimado pelo partido, e não por meia dúzia de engravatados dentro de uma sala com ar-condicionado tomando uísque. Essas eleições devolveram o orgulho ao tucanato depois de muito tempo. Muitos jovens vestiram a camisa do PSDB e até se filiaram ao partido. Coloquem a militância na rua, PSDB, talvez seja isso o complemento que faltou nessa eleição e pode fazer a diferença ao seu favor na próxima eleição.
E ao PT, volte a ser PT e realize prévias novamente. Lula terá mais de 70 anos e é um risco ele querer voltar. Arriscando um legado de 87% de aprovação. A jovem democracia brasileira mostrou que está sólida, mas é hora de avançar mais um pouco. Prévias já!
A realização de prévias é o melhor caminho não só para o PSDB como para outros partidos. No entanto, no caso dos tucanos, me preocupa mais a ligação que tiveram com os setores mais reacionários do País e a dificuldade de diálogo com o povo, algo que César Maia já havia comentado. Construir-se forte sem o apoio de macartistas, elitistas e loucos será o maior desafio do PSDB pra mim.