Análise: Ciro Gomes no Jornal Nacional

Dos 25 minutos previstos para a sabatina, que acabaram se alongando por 26, cerca de metade foi destinada a questionamentos sobre corrupção

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MICHEL COSTA

Nesta segunda-feira, o Jornal Nacional iniciou uma série de entrevistas com os candidatos à presidência da República. A princípio, seriam cinco entrevistas com os cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas eleitorais. Todavia, a impossibilidade de entrevistar Lula, preso em Curitiba após condenação em 2ª instância, limitou o número de entrevistados que passaram a ser, pela ordem, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva.

Abrindo a série, Ciro Gomes, candidato pelo PDT, respondeu às perguntas dos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos que, a julgar pela edição de ontem, não devem facilitar para os entrevistados. Em diversas ocasiões, Bonner e Vasconcellos interromperam Gomes, buscando ajustar as respostas às perguntas, sem permitir considerações mais abrangentes.

Dos 25 minutos previstos para a sabatina, que acabaram se alongando por 26, cerca de metade foi destinada a questionamentos sobre corrupção. Nesse tempo, Ciro respondeu sobre a Operação Lava Jato, que entende sofrer de desequilíbrio por “não ter ninguém do PSDB preso” e sobre “colocar a Justiça e Ministério Público em suas caixinhas”, pois, segundo o candidato, esses poderes têm ultrapassado seus limites.

O tema corrupção também gerou o momento mais tenso da entrevista, quando os jornalistas questionaram a condição de réu de Carlos Lupi, presidente do PDT. Enfático, diante da afirmação dos globais, Ciro negou ter conhecimento do processo e que tem “confiança cega” em Lupi, expressão forte que ganhou manchetes em diversos meios logo após a entrevista. O fato é que, embora não responda por corrupção na esfera criminal, Carlos Lupi responde processo por improbidade administrativa, esfera cível, por ter utilizado uma aeronave fretada por uma ONG em convênio com o Ministério do Trabalho, algo que poderia configurar vantagem indevida.

Ainda sobre corrupção, Ciro respondeu sobre Michel Temer, a quem chama de quadrilheiro, e seus aliados, boa parte deles presos. Na oportunidade, foi relembrado o momento quando, ainda ministro de Lula, denunciou ao então presidente as ações de Sérgio Machado que estaria “roubando a Petrobras”. Perguntado por Renata Vasconcellos sobre a razão de não ter denunciado as ações de Machado ao Ministério Público, Ciro alegou que fez o correto reportando-se ao presidente, mas que a acusação formal exigiria o ônus da prova, algo que só o aparato do MP e policial poderia produzir.

Sobre a promessa de retirar os nomes de 63 milhões de brasileiros do SPC, Ciro Gomes aproveitou a oportunidade para lançar a cartilha do programa “Nome Limpo”, que declara ser voltado para o estímulo do consumo das famílias, um dos motores da economia brasileira. Pressionado pelos entrevistadores que disseram que tal medida não seria tão simples quanto o candidato alega, Ciro respondeu que estudou a fundo o projeto e que o “alvoroço” se deu por ser uma iniciativa voltada para os mais pobres, diferente do Refis que, normalmente, beneficia grandes empresários.

Questionado sobre a segurança pública no Ceará, que hoje ocupa do posto de segundo estado mais violento do Brasil, o pedetista repetiu a acusação feita em outras oportunidades ao dizer que o acordo de facções como o Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho com os governos estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro fez com que os criminosos se deslocassem para outros estados, entre eles, o Ceará. Segundo o candidato, somente a Polícia Federal está preparada para combater essas facções criminosas.

A vice Kátia Abreu foi o assunto seguinte, quando foram expostas as contradições entre seu histórico ligado ao desmatamento e posicionamento contra a demarcação de terras indígenas e a agenda de centro-esquerda defendida pelo PDT. Enfático, Ciro disse que Kátia foi convidada para a chapa por ser diferente dele e que poucas pessoas no Brasil conhecem tanto de economia rural quanto ela. Neste ponto, relembrou a aliança entre Lula e seu vice José Alencar, um empresário. Reforçou ainda que a ex-ministra votou contra a reforma trabalhista e o Impeachment o que, a seu ver, está alinhado com sua candidatura.

O assunto governabilidade veio à tona quando os apresentadores expuseram a real dificuldade de Ciro Gomes construir alianças para sua campanha. Mais defensivo, Ciro citou os candidatos Jair Bolsonaro e Marina Silva que também tiveram a mesma dificuldade, num ambiente em que parte dos partidos do chamado Centrão está comprometida apenas com os próprios interesses. Deste modo, citou o histórico de seus antecessores que tiveram poderes “quase imperiais” nos seis primeiros meses de governo que seriam cruciais para colocar em prática suas propostas como o novo pacto federativo voltado para salvar os estados da insolvência.

No minuto reservado para a mensagem sobre o Brasil que ele quer, Ciro enfatizou seu apreço pelo trabalho e sua intenção de fomentar a educação de tempo integral. Citou ainda que espera que a política deixe de ser sinônimo de corrupção e que se preparou por muitos anos para comandar o país e que não o faz por interesses financeiros. Diante de uma bancada que o questionou de forma dura, chegando a consumir 40% do tempo de entrevista, Ciro se saiu relativamente bem, embora não tenha conseguido expor seus planos com a clareza que ele é peculiar.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

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Autor: Brasil Decide

Política e democracia

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