Análise: Fernando Haddad no Jornal Nacional

William Bonner e Renata Vasconcellos buscaram levantar pontos polêmicos da trajetória do entrevistado e de seu partido

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MICHEL COSTA

Na quinta e última entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu nesta sexta-feira Fernando Haddad do PT. Usando mais uma vez o formato das sabatinas anteriores, William Bonner e Renata Vasconcellos buscaram levantar pontos polêmicos da trajetória do entrevistado e de seu partido, sem dar espaço para colocação de propostas.

No caso específico de Haddad, cuja candidatura em substituição a Lula havia sido registrada três dias antes da entrevista, os telespectadores não tiveram a oportunidade de ouvir uma única proposta. Coube ao ex-prefeito de São Paulo se defender durante os quase 30 minutos de entrevista, começando com os escândalos do Mensalão, Petrolão e sobre suposta falta de autocrítica no Partido dos Trabalhadores.

Antes de responder, Haddad incluiu o ex-presidente Lula em seu boa-noite, o que daria um pouco da tônica do que viria a seguir. Na sequência, reforçou a tese de que o PT foi o partido que mais fortaleceu os mecanismos de combate à corrupção, relembrando ainda que os primeiros escândalos na Petrobrás nasceram durante a Ditadura Militar e que não é papel de um presidente da República se imiscuir com indicações dos diretores de estatais.

Ainda no tema corrupção, a sabatina começou a esquentar quando Bonner listou, entre petistas presos, condenados ou investigados, dois ex-presidentes, onze ex-ministros, quatro ex-presidentes do PT e três tesoureiros. Dizendo que não era correto “misturar as coisas”, Haddad citou o financiamento de campanha – em referência ao crime de Caixa 2 – e fez questão de lembrar que Dilma, por não ser ré em nenhum processo de corrupção, não deveria ser incluída naquela lista, entendendo ser uma condenação por antecipação.

Sobre a acusação de que haveria uma conspiração do Poder Judiciário, mas que grande parte dele tinha sido indicada pelos governos petistas, Haddad disse que, pessoalmente, nunca falou em conspiração, mas em erros, e que as decisões dos tribunais reforçam a ideia de que não houve partidarização do judiciário.

Quanto às denúncias do Ministério Público de São Paulo que o acusam de corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, o candidato defendeu suas ações na prefeitura de São Paulo e lembrou que a própria Corregedoria do Ministério Público investigará possível “boca de urna” dos promotores que atuam em processos contra políticos na campanha eleitoral. Em seguida, em novo momento de tensão, Fernando Haddad ignorou a tentativa de mudança de assunto dos entrevistadores para dizer que era decisão dele a satisfação com a resposta quando é o assunto é sua própria honra.

A derrota para João Dória no primeiro turno das eleições municipais de 2016 foi o tema seguinte. Na oportunidade, Haddad lembrou o momento político do País que acabou culminando com o impeachment de Dilma Rousseff e que o represamento das denúncias contra outros partidos provocou a indução do eleitor ao erro.

Tal declaração soou para os apresentadores como se a culpa fosse sempre dos outros e nunca do PT, observação que fez o candidato citar a recente entrevista de Tasso Jereissati na qual o tucano descreve aquele que seria um conjunto de erros memoráveis do PSDB após as eleições de 2014, concluindo que, para ele, o governo Dilma foi sabotado pela oposição, instante em que Bonner relembrou a estratégia eleitoral da ex-presidente de segurar aumentos de preços para realizá-los após aquele pleito.

Com o tempo da entrevista estourado, restou a Haddad falar sobre o Brasil que queria, espaço que usou para falar sobre sua passagem pelo MEC citando as universidades federais criadas, o PROUNI naquele que seria o melhor momento do país nas últimas décadas, concluindo que quer fazer o Brasil ser feliz de novo.

Ao final da entrevista, a impressão anterior de que nas sabatinas do Jornal Nacional não há espaço para colocação de propostas se ampliou. Fernando Haddad não foi perguntado acerca de nenhuma de suas propostas e se viu obrigado a apenas se defender de perguntas acusatórias. Mais uma vez, o telespectador não teve chance de conhecer mais sobre um dos presidenciáveis com maior potencial de chegar ao 2º turno.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

Análise: Marina Silva no Jornal Nacional

William Bonner e Renata Vasconcellos mantiveram a linha inquisidora nas perguntas

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MICHEL COSTA

Na quarta e última entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu Marina Silva da Rede Sustentabilidade nesta quinta-feira. Repetindo o formato das sabatinas anteriores com Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin, William Bonner e Renata Vasconcellos mantiveram a linha inquisidora nas perguntas endereçadas à ex-ministra, um formato que incomodou outras figuras da imprensa.

O primeiro assunto abordado foi a debandada ocorrida na Rede que, desde seu registro em 2015, perdeu diversos quadros que criticaram a inexistência de posicionamento do partido para os grandes problemas do País. Tentando tratar as saídas como algo natural, Marina disse que o respeito a seus antigos aliados continua e que, por isso, se entende como alguém capaz de unir pessoas com diferentes visões de mundo.

A temperatura da entrevista começou a subir quando o impeachment se tornou o tema. Lembrando que 50% da Rede foi favorável ao impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, Marina disse que via margem para o impeachment pelo uso de Caixa 2 na campanha vencedora em 2014 e que Dilma e Temer eram “farinha do mesmo saco”. Todavia, Marina não explicou ao público que Dilma não caiu pelo suposto cometimento do crime de Caixa 2, mas pelas pedaladas fiscais.

Sobre a reforma da Previdência, a candidata afirmou a necessidade de haver um debate entre todos os segmentos e não apenas com empresários como Temer fez. Comentou ainda sobre a necessidade de combater os privilégios e estabelecer diferenças entre a idade mínima de homens e mulheres, visto que elas ainda têm a chamada dupla jornada.

O apoio dado a Aécio Neves no 2º turno de 2014 foi o questionamento seguinte. Ao declarar que, naquele momento, não sabia dos malfeitos do senador mineiro, Marina foi interrompida por Bonner que lembrou o episódio do aeroporto de Cláudio, obra que teria sido feita com dinheiro público para atender a família do então candidato tucano à presidência. Desconfortável, Marina disse que todo mundo escolheu alguém, mas que não repetiria o apoio dado na ocasião.

Sobre corrupção, tema comum em todas as entrevistas, Eduardo Campos –então cabeça de chapa de Marina em 2014 e morto em acidente aéreo –, foi citado como nome presente na lista de propinas distribuídas para a campanha daquelas eleições. Firme na resposta, a ex-ministra disse que a justiça ainda está investigando o caso, mas que defende a Operação Lava Jato.

Coligações estaduais e suas supostas contradições foram o assunto seguinte. William Bonner apontou as críticas de Marina Silva ao fisiologismo no Brasil em contraponto ao apoio da Rede a partidos conhecidos por essa prática. Lembrando seus 30 anos de vida pública sem estar envolvida em casos de corrupção, a candidata se defendeu ao dizer que todos os partidos têm bons quadros, expressão que diz estar sendo copiada por Geraldo Alckmin, e citou um “jovem que foi prefeito de Pelotas sobre o qual não pesa nenhuma acusação”. O jovem em questão é Eduardo Leite, 33, réu em duas ações por improbidade, o que não configura crime de corrupção. Contudo, muito mais grave, é a acusação de que os exames que detectam câncer de útero realizados pelo SUS no município de Pelotas no período em que Eduardo foi prefeito teriam sido realizados por amostragem. Como o caso ainda está sendo investigado, chega a ser politicamente imprudente da parte de Marina citar o candidato ao governo do Rio Grande do Sul.

No que diz respeito à aliança com o Partido Verde, sigla que deixou para ajudar a formar a Rede, Marina declarou que nunca teve problemas com seu atual companheiro de chapa, Eduardo Jorge, e que saiu do PV por divergências políticas que não são diferenças programáticas na coligação atual.

Quanto a possíveis divergências com a forte bancada ruralista no Congresso, Marina pontuou que é um erro enxergar o agronegócio como homogêneo e exemplificou com a boa recepção que teria recebido na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) no dia anterior.

No último questionamento que recebeu, Marina defendeu sua atuação como ministra do Meio Ambiente e disse que a licenças de instalações de novas hidrelétricas durante sua gestão não tiveram nenhuma decisão que não tivesse embasamento técnico.

No minuto reservado para sua mensagem final, Marina Silva foi concisa e abrangente, citando sua origem pobre, tendo sido alfabetizada aos 16 anos, a negritude, a maternidade e a meta de construir um Brasil mais justo para trabalhadores, empresários, homens e mulheres, formando um país próspero e sustentável.

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Ao final da série de entrevistas, que mantiveram o mesmo padrão, a impressão é que pouco se extraiu do que os candidatos disseram, uma vez que os questionamentos foram montados para que cada um se defendesse como pudesse. Um eleitor em dúvida sobre seu voto, caso queira mais informações sobre os presidenciáveis, terá de buscar noutras fontes. Se houve algo que se fortaleceu com as sabatinas do Jornal Nacional foi a desesperança na política. Algo que, convenhamos, só é bom para quem se alimenta dela da pior forma possível.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

Análise: Geraldo Alckmin no Jornal Nacional

William Bonner e Renata Vasconcellos seguiram com a linha de levantar pontos polêmicos

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MICHEL COSTA

Na terceira entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu nesta quarta-feira a visita de Geraldo Alckmin do PSDB. Repetindo o formato utilizado com Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, William Bonner e Renata Vasconcellos seguiram com a linha de levantar pontos polêmicos da trajetória dos entrevistados, sem conceder grande espaço para exposição de propostas.

No primeiro dos 27 minutos de sabatina, o governador de São Paulo respondeu sobre a aliança do PSDB com o chamado Centrão, partidos que, juntos, somam 41 indiciados pela Operação Lava Jato e que seriam conhecidos pela política do “toma lá, dá cá”. Repetindo o discurso de outras ocasiões, Alckmin citou o número excessivo de partidos e a necessidade de uma reforma política, mas enfatizou que todos os partidos possuem bons quadros.

Ainda sobre alianças, Alckmin negou que o PTC de Fernando Collor esteja em sua coligação, mesmo que apoiado pelo PSDB em Alagoas. Neste ponto, o sorriso irônico dos jornalistas à parte, cabe informar que coligações que parecem esdrúxulas em estados e municípios são mais comuns do que se pensa e não deveriam ser vistas pela ótica nacional. Apesar disso, o tucano insistiu na necessidade de se construir alianças para conseguir aprovar as reformas que julga ser necessárias.

Quando o tema passou a ser corrupção, Bonner e Vasconcelos citaram o senador Aécio Neves e o ex-senador Eduardo Azeredo como exemplos de que a maneira como o PSDB lida com a corrupção no próprio partido é diferente do posicionamento em relação a seus adversários. Questionaram também por que Alckmin, enquanto presidente do PSDB, não buscou a expulsão de ambos. Encurralado, restou ao candidato dizer que Aécio está se defendendo na justiça, enquanto Azeredo, que está preso, se afastou da política há anos.

A corrupção continuou em pauta no momento em que a dupla de apresentadores mencionou as três delações premiadas e as testemunhas que confirmaram ter havido desvio de recursos nas obras do Rodoanel, inclusive com a participação de seu cunhado. Visivelmente desconfortável, Alckmin negou que houvesse qualquer irregularidade nas obras e que os gastos foram aprovados pelo Tribunal de Contas de São Paulo. Negou ainda que Laurence Casagrande Lourenço, seu ex-secretário, e que se encontra preso, tenha cometido qualquer irregularidade, apesar do Ministério Público Federal apontar desvios de 600 milhões de reais.

Sobre segurança pública, os jornalistas apontaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) como responsável pelo controle de parte do crime organizado que atua no Brasil e que seus líderes continuam a dar ordens de dentro dos presídios paulistas. Em defesa de seu governo, Alckmin disse que o estado foi pioneiro na construção de presídios de segurança máxima e negou que houvesse ação criminosa de dentro dos presídios, algo que contradiz ação recente do próprio governo de São Paulo.

Quanto ao déficit habitacional do estado governado pelo PSDB há 24 anos, Alckmin declarou que São Paulo é o único estado que investe 1% do ICMS em habitação, entregando 120 mil unidades à população. Em seguida, culpou a crise enfrentada pelo País como a maior responsável pelos problemas de moradia.

Questionado sobre saúde pública e a ação das Organizações Sociais (OSs) que teriam recebido 38 bilhões de reais de dinheiro público sem cumprirem as metas e que, segundo o TCE, o estado falha na fiscalização do uso desse investimento, o governador afirmou que há monitoramento e acompanhamento e que suas contas foram aprovadas pelo mesmo tribunal por unanimidade. No entanto, as contas do estado foram alvo de ação da Polícia Federal que gerou o apontamento de 23 irregularidades em contratos da saúde.

Na mensagem de despedida, Alckmin retomou o mantra do “emprego e renda” que vem sendo a marca de sua campanha, bem como a criação de oportunidades de trabalho para os brasileiros. Em linhas gerais, tratou-se de mais uma sabatina nos moldes anteriores, retirando munição de quem esperava perguntas e reações mais amenas sobre a suposta preferência global pelo candidato tucano.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

Análise: Jair Bolsonaro no Jornal Nacional

William Bonner e Renata Vasconcellos optaram por perguntas voltadas mais para a polêmica

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MICHEL COSTA

Dando sequência à série de entrevistas com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional entrevistou nesta terça-feira Jair Bolsonaro do PSL. Assim como havia acontecido com o pedetista Ciro Gomes no dia anterior, os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos optaram por perguntas voltadas mais para a polêmica do que para as soluções de cada programa.

O primeiro tema tratado foi a postura de Bolsonaro que se coloca como novo no cenário político mesmo estando no sétimo mandato e com os filhos ingressos na carreira. Como resposta, o ex-capitão disse que nunca fez parte do núcleo corrupto da política e que sempre foi “baixo clero” em Brasília e que seus filhos foram votados porque o povo acreditou neles. Na oportunidade, lembrou da fala de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo, qualificando-o como um dos únicos parlamentares que não aceitou dinheiro do Partido dos Trabalhadores para votar em projetos na Câmara dos Deputados.

Permanecendo no tema, Renata Vasconcellos lembrou o patrimônio declarado por Bolsonaro, cerca de R$ 2 milhões, boa parte dele, conquistado durante os seus mandatos. Em sua defesa, Bolsonaro disse que não recebeu dinheiro de empresas, leia-se propina.

A seguir, no primeiro momento de tensão na sabatina, Bolsonaro se defendeu do recebimento de auxílio-moradia possuindo imóvel em Brasília, declarando que esse auxílio era tão legal quanto o recebimento na forma de pessoa jurídica, o “pejotinha”, da dupla de apresentadores. Aparentando irritação, Renata disse que eles não eram funcionários públicos, ouvindo de volta que as Organizações Globo recebem bilhões de reais em propaganda oficial do governo.

No curto espaço dado para economia, Bolsonaro falou sobre a relação de confiança com o economista Paulo Guedes e, questionado sobre eventuais desentendimentos futuros, o presidenciável protagonizou uma cena inusitada que deve ter arrancado risadas em muitos lares brasileiros ao lembrar que tanto ele quanto Bonner eram separados e que ninguém se casa pensando em uma “mulher reserva”. Neste instante, ficou bastante claro que Bolsonaro se defenderia das perguntas partindo para o ataque.

O clima quente permaneceu no estúdio quando Renata Vasconcellos relembrou a diferença salarial entre homens e mulheres, algo que, segundo o IBGE, está na casa dos 25%. Bolsonaro insistiu na tese que a igualdade já está prevista na CLT, mas que entende que cumpri-la não é tarefa do presidente da República. O candidato negou que concordasse com a diferença, contudo, há uma entrevista no programa SuperPop em que Bolsonaro diz isso claramente (5’32”).

Indo além, Bolsonaro indicou os jornalistas como exemplo de diferença salarial, sem dizer que Bonner recebia mais. Renata então afirmou que “nunca aceitaria receber menos que um homem para exercer a mesma função”. Neste caso, cabe informar que Bonner, além de apresentador, é editor-chefe do Jornal Nacional há 22 anos.

Quando o assunto passou a ser direitos trabalhistas, Bonner citou o comentário atribuído a Bolsonaro que os trabalhadores teriam que escolher entre ter mais direitos e ter emprego e perguntou quais direitos seriam retirados. Na defensiva, Bolsonaro disse que essa é uma fala de empresários, todavia, o apresentador lembrou que o presidenciável a repete como se concordasse com ela. Em seguida, mencionaram o voto contrário à “PEC das domésticas”, cuja justificativa seria o desemprego gerado pelos encargos, tese que, segundo dados do IBGE, não se sustentou posteriormente.

No entanto, o momento mais errático do candidato aconteceu no tema homossexualidade. Bonner e Vasconcellos citaram declarações de Bolsonaro ao dizer que ter um vizinho gay desvaloriza imóvel, que não queria ter um filho gay e associações entre homossexualidade e pedofilia. Apesar de negar ser homofóbico, Bolsonaro falou que “um pai não quer encontrar seu filho brincando de boneca” e se defendeu dizendo que age para proteger as crianças. Na sequência, ao citar o “9º Seminário LGBT Infantil”, que na verdade foi o “9º Seminário LGBT”, cujo tema era “Infância e Sexualidade” e apresentar um livro que não foi adotado pelo MEC como o “kit-gay”, Bolsonaro desinformou o público fazendo uso de dois episódios que não aconteceram como ele descreveu.

Quando o assunto passou a ser segurança pública, Bolsonaro relembrou que tanto ele quanto Bonner foram vítimas da violência urbana e que esta deve ser combatida à altura, com o policial de posse de armamento superior ao do bandido. Mencionou ainda o “excludente de ilicitude” para as mortes provocadas por policiais que, segundo o candidato, merecem ser condecorados e não processados.

O derradeiro momento de tensão aconteceu quando Bonner recordou as declarações do general da reserva, Hamilton Mourão, vice da chapa de Bolsonaro, que havia dito a um grupo de militares que se os poderes teriam que buscar solução, caso não conseguissem, chegaria a hora que o exército teria que impor a solução. Para Bolsonaro isso foi um alerta do seu vice, em caso de caos social e lembrou que isso já aconteceu no Brasil em 1964. Diante da tentativa de correção histórica de Bonner, o candidato citou Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo, que em 1984 reafirmou o apoio o regime. Neste ponto, onde ninguém tem razão, o melhor resumo talvez seja o famoso refrão que diz “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, mesmo tendo feito um mea-culpa tardio, 10 anos após a morte de seu fundador.

Após a mensagem de despedida de Jair Bolsonaro, quando este falou em Deus, que o país precisa de um candidato honesto e que é preciso união entre todas as classes e regiões do País, restou a impressão que seu discurso saiu fortalecido entre as pessoas que defendem seus posicionamentos, ao passo que aqueles que discordam enxergaram novamente o candidato que rechaçam. Quanto ao Jornal Nacional, pela segunda vez, a opção pelo confronto lamentavelmente esvaziou a entrevista deixando de lado as propostas do candidato.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

Análise: Ciro Gomes no Jornal Nacional

Dos 25 minutos previstos para a sabatina, que acabaram se alongando por 26, cerca de metade foi destinada a questionamentos sobre corrupção

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MICHEL COSTA

Nesta segunda-feira, o Jornal Nacional iniciou uma série de entrevistas com os candidatos à presidência da República. A princípio, seriam cinco entrevistas com os cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas eleitorais. Todavia, a impossibilidade de entrevistar Lula, preso em Curitiba após condenação em 2ª instância, limitou o número de entrevistados que passaram a ser, pela ordem, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva.

Abrindo a série, Ciro Gomes, candidato pelo PDT, respondeu às perguntas dos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos que, a julgar pela edição de ontem, não devem facilitar para os entrevistados. Em diversas ocasiões, Bonner e Vasconcellos interromperam Gomes, buscando ajustar as respostas às perguntas, sem permitir considerações mais abrangentes.

Dos 25 minutos previstos para a sabatina, que acabaram se alongando por 26, cerca de metade foi destinada a questionamentos sobre corrupção. Nesse tempo, Ciro respondeu sobre a Operação Lava Jato, que entende sofrer de desequilíbrio por “não ter ninguém do PSDB preso” e sobre “colocar a Justiça e Ministério Público em suas caixinhas”, pois, segundo o candidato, esses poderes têm ultrapassado seus limites.

O tema corrupção também gerou o momento mais tenso da entrevista, quando os jornalistas questionaram a condição de réu de Carlos Lupi, presidente do PDT. Enfático, diante da afirmação dos globais, Ciro negou ter conhecimento do processo e que tem “confiança cega” em Lupi, expressão forte que ganhou manchetes em diversos meios logo após a entrevista. O fato é que, embora não responda por corrupção na esfera criminal, Carlos Lupi responde processo por improbidade administrativa, esfera cível, por ter utilizado uma aeronave fretada por uma ONG em convênio com o Ministério do Trabalho, algo que poderia configurar vantagem indevida.

Ainda sobre corrupção, Ciro respondeu sobre Michel Temer, a quem chama de quadrilheiro, e seus aliados, boa parte deles presos. Na oportunidade, foi relembrado o momento quando, ainda ministro de Lula, denunciou ao então presidente as ações de Sérgio Machado que estaria “roubando a Petrobras”. Perguntado por Renata Vasconcellos sobre a razão de não ter denunciado as ações de Machado ao Ministério Público, Ciro alegou que fez o correto reportando-se ao presidente, mas que a acusação formal exigiria o ônus da prova, algo que só o aparato do MP e policial poderia produzir.

Sobre a promessa de retirar os nomes de 63 milhões de brasileiros do SPC, Ciro Gomes aproveitou a oportunidade para lançar a cartilha do programa “Nome Limpo”, que declara ser voltado para o estímulo do consumo das famílias, um dos motores da economia brasileira. Pressionado pelos entrevistadores que disseram que tal medida não seria tão simples quanto o candidato alega, Ciro respondeu que estudou a fundo o projeto e que o “alvoroço” se deu por ser uma iniciativa voltada para os mais pobres, diferente do Refis que, normalmente, beneficia grandes empresários.

Questionado sobre a segurança pública no Ceará, que hoje ocupa do posto de segundo estado mais violento do Brasil, o pedetista repetiu a acusação feita em outras oportunidades ao dizer que o acordo de facções como o Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho com os governos estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro fez com que os criminosos se deslocassem para outros estados, entre eles, o Ceará. Segundo o candidato, somente a Polícia Federal está preparada para combater essas facções criminosas.

A vice Kátia Abreu foi o assunto seguinte, quando foram expostas as contradições entre seu histórico ligado ao desmatamento e posicionamento contra a demarcação de terras indígenas e a agenda de centro-esquerda defendida pelo PDT. Enfático, Ciro disse que Kátia foi convidada para a chapa por ser diferente dele e que poucas pessoas no Brasil conhecem tanto de economia rural quanto ela. Neste ponto, relembrou a aliança entre Lula e seu vice José Alencar, um empresário. Reforçou ainda que a ex-ministra votou contra a reforma trabalhista e o Impeachment o que, a seu ver, está alinhado com sua candidatura.

O assunto governabilidade veio à tona quando os apresentadores expuseram a real dificuldade de Ciro Gomes construir alianças para sua campanha. Mais defensivo, Ciro citou os candidatos Jair Bolsonaro e Marina Silva que também tiveram a mesma dificuldade, num ambiente em que parte dos partidos do chamado Centrão está comprometida apenas com os próprios interesses. Deste modo, citou o histórico de seus antecessores que tiveram poderes “quase imperiais” nos seis primeiros meses de governo que seriam cruciais para colocar em prática suas propostas como o novo pacto federativo voltado para salvar os estados da insolvência.

No minuto reservado para a mensagem sobre o Brasil que ele quer, Ciro enfatizou seu apreço pelo trabalho e sua intenção de fomentar a educação de tempo integral. Citou ainda que espera que a política deixe de ser sinônimo de corrupção e que se preparou por muitos anos para comandar o país e que não o faz por interesses financeiros. Diante de uma bancada que o questionou de forma dura, chegando a consumir 40% do tempo de entrevista, Ciro se saiu relativamente bem, embora não tenha conseguido expor seus planos com a clareza que ele é peculiar.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração