
MICHEL COSTA
Na quinta e última entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu nesta sexta-feira Fernando Haddad do PT. Usando mais uma vez o formato das sabatinas anteriores, William Bonner e Renata Vasconcellos buscaram levantar pontos polêmicos da trajetória do entrevistado e de seu partido, sem dar espaço para colocação de propostas.
No caso específico de Haddad, cuja candidatura em substituição a Lula havia sido registrada três dias antes da entrevista, os telespectadores não tiveram a oportunidade de ouvir uma única proposta. Coube ao ex-prefeito de São Paulo se defender durante os quase 30 minutos de entrevista, começando com os escândalos do Mensalão, Petrolão e sobre suposta falta de autocrítica no Partido dos Trabalhadores.
Antes de responder, Haddad incluiu o ex-presidente Lula em seu boa-noite, o que daria um pouco da tônica do que viria a seguir. Na sequência, reforçou a tese de que o PT foi o partido que mais fortaleceu os mecanismos de combate à corrupção, relembrando ainda que os primeiros escândalos na Petrobrás nasceram durante a Ditadura Militar e que não é papel de um presidente da República se imiscuir com indicações dos diretores de estatais.
Ainda no tema corrupção, a sabatina começou a esquentar quando Bonner listou, entre petistas presos, condenados ou investigados, dois ex-presidentes, onze ex-ministros, quatro ex-presidentes do PT e três tesoureiros. Dizendo que não era correto “misturar as coisas”, Haddad citou o financiamento de campanha – em referência ao crime de Caixa 2 – e fez questão de lembrar que Dilma, por não ser ré em nenhum processo de corrupção, não deveria ser incluída naquela lista, entendendo ser uma condenação por antecipação.
Sobre a acusação de que haveria uma conspiração do Poder Judiciário, mas que grande parte dele tinha sido indicada pelos governos petistas, Haddad disse que, pessoalmente, nunca falou em conspiração, mas em erros, e que as decisões dos tribunais reforçam a ideia de que não houve partidarização do judiciário.
Quanto às denúncias do Ministério Público de São Paulo que o acusam de corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, o candidato defendeu suas ações na prefeitura de São Paulo e lembrou que a própria Corregedoria do Ministério Público investigará possível “boca de urna” dos promotores que atuam em processos contra políticos na campanha eleitoral. Em seguida, em novo momento de tensão, Fernando Haddad ignorou a tentativa de mudança de assunto dos entrevistadores para dizer que era decisão dele a satisfação com a resposta quando é o assunto é sua própria honra.
A derrota para João Dória no primeiro turno das eleições municipais de 2016 foi o tema seguinte. Na oportunidade, Haddad lembrou o momento político do País que acabou culminando com o impeachment de Dilma Rousseff e que o represamento das denúncias contra outros partidos provocou a indução do eleitor ao erro.
Tal declaração soou para os apresentadores como se a culpa fosse sempre dos outros e nunca do PT, observação que fez o candidato citar a recente entrevista de Tasso Jereissati na qual o tucano descreve aquele que seria um conjunto de erros memoráveis do PSDB após as eleições de 2014, concluindo que, para ele, o governo Dilma foi sabotado pela oposição, instante em que Bonner relembrou a estratégia eleitoral da ex-presidente de segurar aumentos de preços para realizá-los após aquele pleito.
Com o tempo da entrevista estourado, restou a Haddad falar sobre o Brasil que queria, espaço que usou para falar sobre sua passagem pelo MEC citando as universidades federais criadas, o PROUNI naquele que seria o melhor momento do país nas últimas décadas, concluindo que quer fazer o Brasil ser feliz de novo.
Ao final da entrevista, a impressão anterior de que nas sabatinas do Jornal Nacional não há espaço para colocação de propostas se ampliou. Fernando Haddad não foi perguntado acerca de nenhuma de suas propostas e se viu obrigado a apenas se defender de perguntas acusatórias. Mais uma vez, o telespectador não teve chance de conhecer mais sobre um dos presidenciáveis com maior potencial de chegar ao 2º turno.
Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração



