
A escalada do conflito governo vs “sistema” está subindo na mesma velocidade que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro se esfacela. O caldo está fervendo e já deu sinal do potencial explosivo com o tamanho das manifestações contra o contingenciamento no MEC que, ao contrário do que acha o presidente, não foram só de “idiotas úteis“. As manifestações do dia 15/05 lembraram junho 2013. Diferentemente das manifestações de seis anos, de quarta tiveram um foco bem definido e uma pauta sensível: educação.
Para mostrar que a sua força nas redes ainda pode mobilizar multidões nas ruas, o bolsonarismo está promovendo a sua manifestação para o dia 26/05 com slogan “todos juntos contra o centrão” e um ameaçador #OPovovaiInvadirOCongresso. Não deixa de ser uma oportunidade de medir o tamanho desse núcleo duro do eleitorado de 57 milhões de pessoas que elegeram Bolsonaro.
Pesquisas de variados institutos mostram queda de popularidade do governo e do presidente. A lua de mel que governos têm após a posse não durou seis meses pela falta de habilidade política de Bolsonaro, e ele não faz questão de aprender, o desencanto de boa parte do eleitorado brasileiro que depositou muita esperança na figura mística do salvador da pátria, a disputa fratricida dentro do governo insuflada pelo ideólogo de um dos grupos e pelos filhos do presidente.
Líderes no Congresso Nacional já farejaram sangue ao mar e perceberam que o presidente Bolsonaro não quer dialogar com eles. Que incentiva os ataques contra os políticos, contra aliados e até a integrantes do próprio governo. Nesse clima, o presidente compartilhou um texto no Whatsapp que lembrou a carta de renúncia do Jânio Quadros e o “Não me deixam só” do Fernando Collor. A aposta é no caos que dilacera o tecido social e a própria democracia. Não tem nada de conservadorismo aí. A relação com o Congresso tende a piorar.
A impressão é que Jair Bolsonaro prefere que derrubem o seu governo a se “prostituir”, torcendo que sua imagem fique preservada. É uma visão equivocada do que seja a negociação política e convivência harmoniosa entre os poderes da República. Deve achar que vai conseguir uma base com pressão popular ou trocar o Congresso por referendos e plebiscitos, como Chávez fez na Venezuela e Olavo de Cavalho sugeriu que Bolsonaro fizesse aqui.
Enquanto isso, a economia do país definha de vez e a crise social se agrava abrindo caminho para a esquerda voltar. Mas não acho que os políticos queiram um novo impeachment em tão curto intervalo – o que não significa que seja uma carta descartada e os próprios bolsonaristas trouxeram o tema para o debate público em teorias conspiratórias.