
Nunca na história um governo havia feito oposição a ele mesmo como o atual. Todo santo dia é uma nova crise saindo de dentro do núcleo governista lançada pelos filhos do presidente e pelo falso astrólogo, falso filósofo, falso “guru”, falso mentor da “nova direita”, o boquirroto que mora no interior do interior dos Estados Unidos, Olavo de Carvalho. Olavo seria apenas um velho caquético xingando autoridades na internet se não tivesse tanta influencia nos filhos e no próprio Jair Bolsonaro. Não tivesse indicado ministros para ministérios importantes e discípulos em cargos do alto escalão.
A guerra fria fratricida entre olavistas e militares se aproxima perigosamente de uma guerra declarada. Na verdade, já deixou de ser “fria” e passou a ser guerra declarada em que um lado não está para brincadeira e não se intimida em usar todas as armas e estratégias. Os militares tentaram não entrar nessa guerra, mas foram obrigados a entrar. O outro lado joga baixo, sem pudor. Nesse fogo cruzado fica o Brasil do desemprego, da economia atolada e sem perspectiva de sair da recessão, do eterno risco de uma nova greve caminhoneira.
O presidente encheu o seu governo de militares e não consegue conter os próprios filhos e aliados que distorcem fatos para destruir a reputação de “infiltrados”. Primeiro, contra o vice-presidente Hamilton Mourão; a nova vítima é o General Santos Cruz. Em certos momentos passa a impressão que Bolsonaro endossa o massacre da milícia digital contra os militares. Em outros é obrigado a sair publicamente em defesa de colegas da caserna.
A estratégia do bolsonarismo parece que é encurralar e desmoralizar o generalato que acabou virando a pedra no caminho da “revolução conservadora”, que nada mais é do que um projeto de poder similar ou mais ambicioso que o projeto de poder do PT.
Mas Carlos, Eduardo, Olavo e cia passaram do limite e sem volta. Esticaram por demais a corda e esbararam no General Villas Boas. Ex-comandante do Exército, mesmo debilitado fisicamente, Vilas Boas ainda é a voz moral da corporação tanto que Bolsonaro o trouxe para dentro do Palácio do Planalto e o confiou um peso importante na sua vitória nas eleições. Quero ver se Olavo terá peito de escrever uma linha ao seu estilo despolido a uma figura respeitadíssima como Villas Boas. Será que Carlos Bolsonaro terá coragem de acionar a milícia digital contra o ex-comandante do Exército?
— General Villas Boas (@Gen_VillasBoas) 6 de maio de 2019
Há uma teoria que essa disputa interna é tático para forçar uma ruptura constitucional e Jair Bolsonaro ser “obrigado” a governar sem ouvir o Congresso Nacional, além de limitar a interferência do Judiciário. Existe mesmo a tentativa de criminalizar qualquer atividade política importada da campanha eleitoral e minar o STF [alguns ministros ajudam nessa tarefa involuntariamente].
Porém, a turma ideológica da “revolução conservadora” não esperava que o pragmatismo das Forças fosse empecilho e o presidente reinaria como um imperador ouvindo os conselhos do “Guru de Richmond”, o “Jim Jones da Virgínia”. A disputa é mais por poder e cargos do que ideológica, que é mais plano de fundo.
Passou da hora do presidente tomar um lado sem meias palavras. Sem os militares, dificilmente o governo Bolsonaro se sustenta até o fim do mandato. Acho pouco provável que os militares percam essa contenda. Se perderem, o Congresso pode frear o ímpeto dos “templários modernos”. Se os militares forem derrotados, o “centrão” é a última barreira que evite o Brasil seguir o caminho da Venezuela ou Hungria.