Nixon ressuscita após obituário na TV

ike-dick.pngFábio Piperno

Para se tornar um verdadeiro protagonista, o ex-ator Ronald Reagan precisou migrar dos estúdios de Hollywood para a política. Como estrela do novo cast, seu primeiro grande sucesso foi em 1966, quando despachou do governo da Califórnia o democrata Pat Brown, que na eleição anterior havia mandado para o ostracismo o ex-presidenciável Richard Nixon.

Rechaçado pelo eleitorado de seu estado natal, Nixon chegou a ter o obituário político lido pela rede ABC. Sem cargo e com o prestígio definhando, migrou para New York, onde voltou a ganhar a vida como advogado. E de longe, assistia à ascensão de Reagan, que rapidamente se tornava uma das estrelas do partido.

Mas o autoexílio não ia durar para sempre. Em 1968, o vice nos dois mandatos do presidente Dwight (Ike) Eisenhower e candidato derrotado por John Kennedy pela ínfima margem de 0,2% no voto popular, o californiano Nixon se apresentou para disputar as prévias. Por ironia, seu maior rival era justamente o governador da Califórnia.

De início, Reagan saiu atrás nas pesquisas. No entanto, reagiu e chegou à convenção dos Republicanos lastreado por 37,93% dos votos dos eleitores, contra 37,54% de Nixon. Porém, a vantagem não se traduziu em número de delegados partidários e, graças ao apoio de estrelas do partido, o ex-vice conseguiu a indicação.

A dificuldade para obter a nomeação se repetiu no confronto contra o democrata Hubert Humphrey, batido pela estreita margem de 0,7% dos votos populares. Expoente dos ultraconservadores o governador do Alabama, George Wallace, foi o terceiro com 13,53% como candidato pelo Partido da Independência Americana. Inimigo dos militantes pela igualdade dos direitos civis, proferiu um famoso discurso em que defendia “Segregação hoje, segregação amanhã, segregação para sempre”.

Com a vitória, Nixon se tornou o último presidente eleito a ter sido antes derrotado em uma corrida para a Casa Branca. E também o derradeiro a sair de lá sem concluir um mandato.

O cisma entre o ex e o futuro presidente Roosevelt

TR

Fábio Piperno

O sobrenome que mais venceu eleições presidenciais nos Estados Unidos foi o Roosevelt, variação do original holandês Rosenvelt. O primeiro membro da família a ocupar a Casa Branca foi o republicano Theodore. Vice eleito em 1900, ele herdou a presidência no setembro seguinte após a morte de William McKinley. Tinha apenas 42 anos. Popular ao término do segundo mandato em 1908, não quis tentar nova reeleição. E quando mudou de ideia, já era tarde.

Opositor dentro do partido do correligionário e sucessor William Howard Taft, TR resolveu desafiá-lo em 1912 por considerá-lo excessivamente conservador. Popular entre o eleitorado havia, no entanto, perdido o controle da máquina partidária. Derrotado na tentativa de ser o indicado entre os Republicanos, respondeu com a criação do Partido Nacional Progressista.

Candidato pela nova agremiação lançada apenas cinco meses antes da eleição, TR não tinha tempo a perder. Na busca por apoios fora de seu partido, sofreu grande decepção em New York. Seu primo em quinto grau, o democrata Franklin Delano Roosevelt, preferiu ficar ao lado do correligionário Woodrow Wilson, recusando-se a repetir 1904, quando apoiou o parente republicano, a quem no ambiente familiar chamava de Tio Ted.

Abertas as urnas, o desempenho de Theodore Roosevelt foi histórico. O candidato da terceira via foi o segundo colocado, com 27% dos votos. Taft ficou com apenas 23%, resultado vexatório para quem tentava a reeleição. O vencedor foi o democrata Wilson, com 42% dos votos populares.

Após tomar posse, o eleito nomeou FDR para subsecretário da Marinha, cargo que TR havia exercido pouco antes de chegar à presidência. E anos depois, novamente um Roosevelt que havia sido subcomandante da Marinha chegaria à Casa Branca.

Guerra do Vietnã abate presidente em New Hampshire

Fábio Piperno

O estado de New Hampshire contribui com menos de 0,5% do total de votos dos Estados Unidos. Mas o pequeno colégio eleitoral do estado foi forte o suficiente para abater um presidente que pretendia renovar seu mandato. Em 1968, o nome óbvio entre os democratas era o Lyndon B. Johnson, candidato à reeleição. Na Casa Branca, LBJ cumpria o que prometera. Aprovou leis como o Medicare, que permitia o acesso dos mais pobres e idosos à saúde gratuita, o voto universal que incluía analfabetos e, principalmente, o Civil Rights Act, que na prática igualava direitos entre brancos e negros. No entanto, havia o Vietnã.

Os Estados Unidos continuavam atolados em uma guerra cruel, que produzia pilhas de cadáveres de americanos. Opositor ferrenho da Guerra do Vietnã, o senador Eugene McCarthy decidiu desafiar Johnson dentro do partido democrata. Por ironia, o fervoroso católico McCarthy tinha como autor preferido o britânico Thomas Morus, autor do clássico Utopia…

No início, a pretensão nem foi levada a sério, desdém que era ratificado pelas pesquisas. No entanto, o rumo das primárias começou a mudar no último dia de janeiro, quando no Vietnã eclodiu a Ofensiva do Tet. A ação fez milhares de vítimas entre a população local e nas tropas americanas.

Internamente, as críticas à intervenção recrudesceram e devastaram a popularidade de Johnson. O ataque final contra a reeleição foi desferido exatamente em New Hampshire. Nas primárias ocorridas em 12 de março, a antes inabalável candidatura do presidente superou o azarão McCarthy por menos de 1%. Era o começo do fim!

Na noite do domingo 31 de março, um resignado LBJ foi à televisão anunciar que “cheguei à conclusão de que não devo permitir que a presidência se envolva nas divisões partidárias que estão se desenvolvendo neste ano político……assim, não procurarei nem aceitarei a indicação do meu partido para outro mandato como presidente”.

Foi a confissão da derrota inevitável! New Hampshire ficou para a história como a última batalha eleitoral disputada por LBJ.

Oscar na mão e apoio ao primo para Casa Branca

Fábio Piperno

Atriz veterana, Olympia Dukakis não era a favorita para receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1988. Mas foi o nome anunciado pela dupla Glenn Close e Michael Douglas para levar a estatueta. No tradicional discurso, os óbvios agradecimentos a amigos, familiares, elenco e diretor. Apenas o encerramento foi diferente. A atriz se despediu do palco com um eloquente “Michael, let´s go!”.

O Michael em questão era seu primo, o então governador de Massachusetts, estado que comandou com sucesso por 12 anos. Naquele momento, Dukakis despontava na liderança da série de primárias que mais parecia um duelo entre integrantes do Dream Team político do partido Democrata.

Além de Dukakis, concorriam pela indicação o célebre reverendo Jesse Jackson, no passado ligado a Martin Luther King, Richard Gephardt, que presidiu a Câmara, o senador Gary Hart, que no ciclo anterior chegou a incomodar o favorito Walter Mondale, Al Gore e Joe Biden, mais tarde vices eleitos de Bill Clinton e Barack Obama.

Apesar da força dos demais postulantes, Dukakis venceu com relativa facilidade e chegou animado para desafiar o então vice George Bush, indicado pelos republicanos para dar continuidade à revolução conservadora conduzida com sucesso pelo presidente Ronald Reagan.

As pesquisas apontavam liderança apertada de Bush até o dia do segundo debate, quando um abatido Dukakis, debilitado por forte gripe, teve um desempenho pífio. O Democrata ainda teve de enfrentar a suspeita de que sofria de problemas psiquiátricos e de que era liberal demais até na questão da pena de morte, o que apenas piorou sua situação eleitoral.

Abertas as urnas, Bush confirmou o favoritismo com 53,4% dos votos. O apoio da prima Olympia não foi suficiente para Michael, que seguiu até 1991 como governador de Massachusetts.

Filme de Ike iniciou propaganda eleitoral na TV

Fábio Piperno

Herói militar, de biografia impecável, mas estreante em disputadas eleitorais, o general Dwight Eisenhower foi a novidade dos conservadores moderados do Partido Republicano para tentar recuperar a Casa Branca em 1952 e assim encerrar 20 anos de hegemonia política dos Democratas.

Acostumado ao fragor das batalhas da Segunda Grande Guerra, Ike duelou nas primárias do partido contra o nome preferido entre os republicanos mais conservadores, o senador nacionalista Robert Taft. Representante do bloco do Corn Belt, grupo que reunia principalmente políticos do meio-oeste, Taft havia tentando sem sucesso a indicação republicana em 1944.

Embora a agenda do partido no início da década de 50 fosse influenciada pelo macarthismo, ideário mais próximo de seu oponente, Eisenhower passou pelas primárias e arrasou nas urnas o rival democrata, o liberal e funcionário do New Deal, Adlai Stevenson. O militar recebeu 55,1% dos votos populares. O vice eleito foi o então senador pela Califórnia, Richard Nixon. Em 1956, os dois adversários voltaram a se enfrentar e Eike venceu com margem ainda mais ampla.

A campanha do general legou uma novidade ao marketing político. Pela primeira vez na história, foi apresentado um filme de propaganda eleitoral feito para a televisão. Produzido pelos estúdios Disney e com música do consagrado Irving Berlim, a peça reforçava o slogan “I like Ike”, apelido de infância do candidato. Na abertura, um texto anunciava que o filme havia sido pago pelos cidadãos que apoiavam o candidato.