Brizola, o PT e os conservadores lúcidos

Lula e Brizola

Fábio Piperno 

O ex-policial federal e agente da ditadura João Lucena Leal falou em entrevista publicada na Folha de SP (24/11) sobre o plano de sequestrar Leonel Brizola, na época em que o político gaúcho vivia exilado no Uruguai e era o inimigo número 1 dos militares instalados no poder desde 1/04/64.

Imediatamente minha memória viajou no tempo e na história. Na única vez na vida em que depositei na urna um voto com paixão em eleição para presidente, quem o recebeu foi Brizola. Na última década de vida, fez muitas coisas das quais discordei. Mas o meu respeito por ele permaneceu intacto. Falava mais alto o conjunto da obra em favor da legalidade no país.

Em setembro de 2004 eu estava em uma clínica, acompanhando meu pai que fazia radioterapia. Enquanto aguardava a sessão que tirava os cabelos, mas que tentava em vão devolver a saúde a meu pai, folheava uma revista Veja que estava à disposição dos visitantes. Brizola morrera dias antes. No obituário do líder do PDT, o colunista, amargo e padrão Veja, ignorou a história e a verdade de fatos importantes. No Brasil era (é) assim. A Direita consome a democracia, arrota ditadura e se refestela na poltrona lendo a Veja.

Volto ainda mais no tempo. Em um comício na Praça da Sé na década de 80, bem depois da campanha Diretas Já!, chega a vez de Brizola falar. Nem bem ajeitou o lenço vermelho no pescoço e a plateia petista, de maioria esmagadora naquele evento cívico, começa a gritar: 1, 2, 3… Brizola é Burguês!!!! E as vaias ao então governador do Rio de Janeiro, naquele momento aliado do PT, se multiplicavam feito labaredas em capim seco.

Anos depois, em plena campanha presidencial, Brizola encontra-se casualmente com Aureliano Chaves, o vice de João Batista Figueiredo, o último presidente do ciclo militar. Trocam um afetuoso abraço. Surpreso com a reverência que ali unia dois adversários políticos, um repórter pergunta a Brizola a razão do caloroso abraço.

“O doutor Aureliano é um homem digno e nós (a esquerda) só chegaremos ao poder quando nos aliarmos aos conservadores lúcidos. Juntos, eu e o Lula temos um terço dos votos e com isso não é possível ganhar eleição”, explicou Brizola, antevendo a história.

O PT aprendeu a lição. Aliás, assimilou tão bem que tornou-se parceiro de Maluf, Kassab e o mais fiel amigo do clã Sarney. Aliou-se aos conservadores. Mas nem sempre à lucidez.

Todos os ex-presidentes deixaram um legado

Todos os ex-presidentes, dos últimos 30 anos, deixaram uma marca importante de seu governo para o país. Deixe a raiva, o sangue nos olhos e a sua ideologia um pouco de lado e veja esta retrospectiva de cada mandato dos ex-presidentes da nova República.

José Sarney
José Sarney

Governo Sarney (1985-1990)

José Sarney abriu a política com a Constituição Federal de 1988; se quisesse não convocaria Constituinte nenhuma e, com ajuda dos militares (mesmo ele tendo brigado com eles na eleição indireta que elegeu Tancredo Neves, criando a Aliança Democrática da qual ele foi o candidato a vice-presidente), governaria por mais 20 anos. Sarney pode ser tudo, pode ter deixado o Maranhão na miséria enquanto seu clã usufrui de uma boa vida; seus planos econômicos podem ter naufragados, mas foi democrata e, no exercício da presidência, como primeiro presidente civil desde 1964, acabou com a censura e convocou a Constituinte.

Fernando Collor de Mello
Fernando Collor de Mello

Governo Collor (1990-1992)

Fernando Collor de Mello ganhou a primeira eleição direta para presidência da República desde 1960. Em uma eleição histórica, com 23 candidatos, polarizada no segundo turno entre Collor e Lula – entre direita e esquerda, ricos e pobres, empresários e trabalhadores – Collor venceu por pequena vantagem sobre Lula. O “caçador de marajás” começou seu governo confiscando a poupança, sua popularidade despencou. Desilusão geral no país. Mas ele começou a abrir a economia brasileira, que era muito fechada. No meio de seu governo vieram as denúncias que o atingiram e o fizeram renunciar antes que o Senado votasse seu impeachment. Collor deixou como legado de seu governo o confisco da poupança, denúncias de corrupção, a CPI e a abertura da economia.

Itamar Franco
Itamar Franco

Governo Itamar (1993-1994)

Veio o processo de impeachment e o vice-presidente Itamar Franco assumiu a presidência interinamente, e depois em definitivo com a renúncia de Collor. Itamar chamou Fernando Henrique, que era ministro das relações exteriores, para o ministério da fazenda. Fernando Henrique, junto com a equipe econômica elaborou o Plano Real. Finalmente um plano econômico funcionou, a inflação era finalmente controlada. Fim da hiperinflação, o legado do presidente Itamar.

Fernando Henrique Cardoso
Fernando Henrique Cardoso

Governo FHC (1995-2002)

Fernando Henrique ganhou visibilidade, transformou-se quase em herói, pelo fim da inflação descontrolada. Elegeu-se derrotando Lula no primeiro turno em 1994 e, depois de muita confusão, mudou a regra no meio do jogo e criou o dispositivo da reeleição em 1997. Antes, terminou de estabilizar a economia com as privatizações e pacotes econômicos de seu primeiro mandato. Foi reeleito em 1998, mas saiu do governo em 2002 em baixa, com inflação alta e desemprego crescendo.

Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva

Governo Lula (2003-2010)

“A esperança venceu o medo”. Frase dita por Luiz Inácio Lula da Silva depois de derrotar José Serra no segundo turno. O primeiro metalúrgico eleito presidente. Lula na campanha de 2002 não radicalizava mais; chamou um empresário, José Alencar, para ser seu vice, fez a ‘Carta ao Povo Brasileiro’ se comprometendo a manter a política fiscal de seu antecessor, para acalmar o mercado e a classe média. Foi eleito e cumpriu seu compromisso, colocando no Banco Central Henrique Meirelles, que era do PSDB. Deixou a parte econômica com Meirelles e Antonio Palocci (PT) [Ministro da Fazenda]. Unificou os programas sociais já existentes e criou o programa Bolsa Família. Programa elogiado e copiado em vários países. Reelegeu-se em 2006 mesmo depois da grave crise de seu governo em 2005, que quase custou-lhe um processo de impeachment: o mensalão. Ajudado por um crescimento de 7,5% na economia (2010) e 28 milhões de pessoas deixando a extrema pobreza, ascendendo à classe média, Lula chegou ao final de seu governo com quase 90% de aprovação, elegendo seu sucessor – na verdade, sucessora, a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

COMPARANDO CRIADOR E CRIATURA

Foto: Folhapress

Aloisio Villar

De vez em quando alguém gosta de comparar os governos Lula e Dilma, até pesquisa presidencial já fizeram com os dois nomes em pauta.

O PT gela quando alguém faz essa comparação e logo corre pra dizer que é idiota já que nunca se enfrentariam. Até lançaram o slogan “Lula é Dilma e Dilma é Lula”.

Sim. Até agora vem sendo assim e acredito que continue. Mas ora bolas caros petistas. Nós temos sim o direito e o dever de comparar até porque antes deles serem membros do PT são nossos presidentes e temos que analisar pra qual rumo está indo nosso país até pra saber se vale a pena continuar nesse rumo.

Acho que um governo complementou o outro. Soube aproveitar as qualidades do anterior e aprimorou. Digo mais. Isso começou no governo Collor e a abertura para importações.

Mas vamos lá. Lula é Dilma e Dilma é Lula sim, mas só até a página 3. Devagar com o andor que o santo é de barro.

Pra começar Lula é político e Dilma é uma técnica. Por ser um político Lula é mais articulador e fez mais conchavos. Por fazer esses conchavos Lula esteve mais vulnerável a situações como do “Mensalão”. Dilma não me aparece ter muita paciência para o jogo político.

Lula era o “pai dos pobres”. Governo voltado para o social que às vezes botava o pezinho no populismo assim como botamos na água pra ver se estava gelada. Mas é um democrata então não parece em nada em alguns atos com companheiros da América Latina como o finado Hugo Chávez.

O governo Lula juntou sob seu manto dois esfomeados. O PMDB e o próprio PT que ali conhecia as maravilhas do poder. Juntando isso a alguns elementos de suas frentes, fora de outros partidos também esfomeados deu na grande lambança denunciada por Roberto Jefferson.

Lula parecia mais “condescendente” com a corrupção. Quando aparecia algum caso ele colocava óculos escuros, sentava-se à frente de um piano e virava Stevie Wonder cantando “I just called to say I love you”. Nada enxergava, nada sabia. “O quê? Tem gente minha acusada de corrupção? Se eu sei de algo? Não sei, pergunta lá no posto Ypiranga”.

Dilma não é assim. O modo que nossa presidenta tratou Ricardo Teixeira, por exemplo, já mostra que ela não é de alianças com quem não presta. Dilma asfixiou RT de uma forma que ele não teve escapatória senão renunciar. Mesma coisa faz com a FIFA não abrindo tudo para o que eles querem. Lula nunca faria isso.

Lula é político, Dilma é guerrilheira e mãe então sabe ser dura e a hora de dizer não.

Por Dilma ser mulher e mãe casos como o de Santa Maria, onde ela foi até o local e chorou, nos tocam mais, a gente vê sinceridade nela.

Dessa forma parece que Dilma é melhor que Lula né? Calma que uma presidência da República engloba muito mais que isso.

Lula não sairia com a popularidade que saiu apenas sorrindo e falando umas coisas que o povo gosta de ouvir. Foi o governo que mais fez pelo social. Elevou a classe C ao paraíso e aos crediários das Casas Bahia e Ricardo Eletro. Mas nada disso adiantaria se não tivesse gerado empregos para que as pessoas pudessem comprar.

Não adiantaria se não investisse em educação. Fez o Pró Uni como lançou o “bolsa família”. Porque sim, precisamos ensinar a pescar, mas enquanto a pessoa aprende tem que receber o peixe pra não morrer de fome.

Enfrentou algumas crises mundiais e tirou de letra. Ainda debochou chamando de “marolinha” e a economia cresceu. Ponto para Lula.

Com Dilma a renda cresceu. Segundo últimas pesquisas duas vezes mais que no governo Lula, mas como eu já disse Dilma pegou em um momento bom, de um governo que já fazia crescer e essa era a tendência.

O problema é que mesmo a renda crescendo a economia dá sinais de desgaste. Mesmo com o emprego continuando a crescer no governo Dilma o PIB anda crescendo menos que a torcida do Botafogo, a inflação algumas vezes mostrou suas garras e a indústria recuou com os investimentos diminuindo.

Por enquanto tudo vai bem, mas é um ciclo vicioso. Se as industrias realmente retraírem vão empregar menos, empregando menos teremos menos compras e as industrias vão investir menos. Dilma passa pelo drama do Tostines. Os mais velhos entenderão.

E há de ter cuidado com essas aparições da inflação. Inflação é como o alcoolismo. Você mantém sob controle, mas não tem cura. Só nós com mais de trinta anos sabemos o drama que era a época da hiper inflação e se a economia sucumbir não tem lado social, bolsa família ou austeridade política que dê jeito.

O que penso dos dois governos? Que os petistas estão meio certos. Lula não é Dilma e Dilma não é Lula. Mas Lula pensa como Dilma e Dilma pensa como Lula. Governos parecidos, com os mesmos propósitos onde as diferenças pra mim estão nos detalhes da personalidade de cada um, na vantagem que Dilma tem em pegar um Brasil em alta com Lula e nos problemas econômicos que Dilma terá que superar.

E mesmo com o que disse acima acho que ela se sairá bem. O PT enfrenta o desgaste de dez anos de poder, normal, mas saberá se sair bem dessa principalmente por dois motivos. A vida dos mais pobres ter melhorado e eles não esquecerão isso e a oposição ter a habilidade e a competência do Frajola tentando pegar o piu piu.

Dilma completa Lula. A criatura segue os passos do criador.

PS. Uma coisa que Dilma está aprendendo com Lula é a oratória. Ela fez um pronunciamento na TV e foi muito bem. Falou do dia internacional da mulher e do fim do imposto federal sobre a cesta básica.

Tendo boa oratória ela se sai melhor que o ex-presidente porque sendo mulher e falando como mãe atinge em cheio a população.

Dilma está aprendendo e continuando assim supera o criador.