Fernando Henrique Cardoso completa 95 anos. Debilitado por Alzheimer, o ex-presidente não lembra que ocupou o cargo mais importante da República. Sua família pediu à justiça a sua interdição para gerir seu patrimônio.
Até meados da década de 1990, FHC não era um político popular. A sua principal disputa eleitoral foi para prefeito de São Paulo que perdeu para Jânio Quadros e ficou marcado por sentar na cadeira do prefeito antes da eleição. O desespero do presidente Itamar Franco em encontrar um ministro da Fazenda depois de sucessivas trocas fez escolher o seu ministro de relações exteriores que era Fernando Henrique.
FHC resistia e pediu autonomia para trocar de ministério. Na Fazenda, montou uma equipe de economistas oriundos da PUC-RJ. Foi o “golpe de sorte” que o Brasil precisava depois de vários planos econômicos frustrados.
Foi o fim da hiperinflação com o Plano Real que catapultou FHC para ser o candidato a presidente e vencer a eleição no primeiro turno em 1994. Seu governo ficou marcado pela modernização econômica, racionalização do gasto público e o surgimento dos programas sociais.
O problema do governo FHC foi o fisiologismo político para ter governabilidade e não sofrer impeachment. Esse problema continuou e se agravou nos governos seguintes. É um problema crônico que vem da Constituição ser parlamentarista no sistema presidencialista.
FHC também errou de ter aprovado a reeleição para o executivo federal, estadual e municipal. O próprio reconheceu o erro anos depois. Além dos problemas que vem da reeleição, a sua aprovação no Congresso teve acusação de compra de votos.
FHC, o sociólogo que virou presidente, um democrata de visão estratégica, de mente aberta.
Encontro entre ex-rivais foi mais pessoal do que partidário
Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva fizeram uma reaproximação histórica. Ambos se encontraram em um almoço patrocinado pelo ex-ministro Nelson Jobim.
FHC saiu do encontro declarando voto em Lula contra Bolsonaro. A fala gerou reação no tucanato que fez FHC reforçar de que apoiará o candidato do PSDB, mas caso não chegue no segundo turno, não vota no atual mandante.
A aproximação de dois ex-rivais eleitorais dos partidos que governaram, juntos, o país por duas décadas deveria sinalizar que é possível uma aliança para uma frente ampla.
Mas a reação, principalmente tucana, ao encontro inviabiliza uma aliança PSDB-PT no primeiro turno e difícil até no segundo turno. Lembrando que no segundo turno em 2018 o PSDB não declarou apoio a nenhum dos candidatos e muitos tucanos individualmente declararam voto a Bolsonaro.
Portanto, o gesto de FHC e Lula foi mais simbólico e pessoal do que um começo de uma união eleitoral entre os partidos. E favoreceu mais ao petista do que aos tucanos, pois mostrou um Lula aberto ao diálogo e democrata.
Pesquisa Datafolha divulgada sábado mostra que a rejeição ao governo Dilma disparou de 24% para 44%
A presidente Dilma está sem apoio político sólido depois da derrota humilhante na disputa entre Eduardo Cunha (PMDB) e o candidato do PT, Arlindo Chinaglia, para presidente da Câmara e sem apoio popular. Pesquisa Datafolha divulgada sábado (7/2) mostra que a rejeição ao governo Dilma (rejeições de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, respectivamente governador e prefeito de São Paulo, também aumentaram) disparou de 24% para 44%; avaliação de ótimo/bom despencou de 42% para 23%, e quem acha o governo regular está em 33%.
O que está ruim sempre pode piorar. A pesquisa mostrou que para 52% dos entrevistados Dilma sabia da corrupção na Petrobras e deixou que ocorresse; para 46% ela falou mais mentiras do que verdades na campanha eleitoral (25% entre os petistas) e para 38% a situação econômica vai piorar, eram apenas 6% em outubro. Outros 21% disseram que a corrupção é o segundo maior problema do país. A saúde é o maior problema atual, para 26% dos entrevistados.
Após a eleição, Dilma se encastelou nos palácios e só ouve os mais próximos (Aloizio Mercadante e Miguel Rossetto e outros). Até de Lula a presidente se afastou, segundo o insuspeito Ricardo Kotscho conta em seu blog. Isolada politicamente e sem o apoio popular que a reelegeu há quatro três meses, a situação atual de Dilma Rousseff está muita parecida com a de Fernando Collor no período que foi afastado da presidência. Se o final será igual não se sabe, só depois de alguns meses será possível saber.
Impeachment
Quem equipara o impeachment de um presidente a um golpe não sabe bem o significado de uma democracia. Impeachment é do jogo democrático, não é golpe. Além de ser a arma democrática da população para expulsar um presidente comprovadamente envolvido em algum escândalo de corrupção ou por irresponsabilidade. Se discute se o impeachment vale em casos de culpa ou só em casos de dolo (má fé). A aplicação desse dispositivo é feita pelo Congresso Nacional. Ou seja, por políticos, o que faz o impeachment ser político. O ex-presidente Fernando Collor foi afastado da presidência pelo Congresso, mas foi absolvido das denúncias que estava envolvido pelo judiciário (STF), por exemplo.
FHC
O ex-presidente Fernando Henrique não é golpista. FHC é um democrata. Caso não fosse, não tinha entregado a presidência da República para um ex-operário e opositor a seu governo. Fernando Henrique tinha todas as ferramentas e clima para arquitetar um golpe em 2002. Empresários e o mercado financeiro estavam em pânico devido a vitória de Lula na eleição. A dúvida era se Lula cumpriria o que escreveu na Carta ao Povo Brasileiro, principalmente continuar com o tripé macro econômico. Além disso, FHC e o PSDB sempre tiveram (e tem até hoje) uma certa boa vontade da grande mídia. Era só Fernando Henrique alegar que uma ruptura brusca dos rumos do governo seria trágico para o País. A recente democracia brasileira começava a amadurecer, mas ainda estava verde. FHC bancou a transição de um presidente eleito pelo povo para outro presidente eleito pelo povo como um bom democrata e estadista, o que não acontecia desde 1961 – JK para Jânio Quadros.
Para muitos, um presidente da República precisa ter 50 diplomas, falar 25 idiomas, ser intelectual, ter estudado em Harvard, ser químico, dominar todas as ciências da matemática. Resumindo: precisa ser DOUTOR. Essa pequena introdução é para deixar claro que não precisa de nada disso para ser um bom presidente da República. Com todos os problemas, com toda a corrupção (sim, petistas e lulistas, houve muita corrupção no governo Lula) em seu governo, Lula se saiu melhor no exercício da presidência do que o intelectual pertencente da Academia Brasileira de Letras, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. O retirante nordestino semianalfabeto e torneiro mecânico deixou um país melhor socialmente e com um PIB de 7,5% para seu sucessor, no caso a sucessora, do que o sociólogo FHC deixou para o próprio Lula em 2003.
“Mas a economia mundial estava favorável e no governo FHC eram crises atrás de crises”. Sim, mas no final do governo Lula houve uma crise que valeu por dez comparando com as crises econômicas da década de 1990. Com sua inteligência e astúcia (e um pouco de sorte) Lula conseguiu que a economia brasileira não sucumbisse a ela. Não foi só uma “marolinha”, mas o Brasil foi um dos últimos a entrar e um dos primeiros a sair e ter um crescimento de China. Outros irão dizer que o antídoto usado foi errado ou o sistema se esgotou. Acho que a segunda parte está correta. O modelo usado com sucesso para enfrentar a crise de 2008 pelo governo precisa de uma atualização.
FHC ou Lula. PT ou PSDB. Tucanos acusam petistas de usurparem programas criados no governo tucano. Petistas acusam tucanos de entreguistas dos bens do país ao capital estrangeiro. Nem um nem outro. O governo FHC criou vários programas que o governo Lula unificou gerando o programa Bolsa Família. Mas o governo FHC teve oportunidade de fazer um programa parecido e não o fez porque não quis. Para “não comprometer o Tesouro Nacional”. Discurso usado por alguns que são contra programas de assistência social. Esquecendo-se de que quem tem fome não pode esperar. Tem que ensinar a pescar, mas não pode deixar morrer de fome.
Nos últimos 20 anos o Brasil teve muitas conquistas (PSDB-PT), mas precisa avançar no que falta. Ou seja: melhorar os serviços públicos. Só que não vejo nem em Aécio nem em Campos essa mudança que tomou conta do brasileiro. E isso se reflete nas pesquisas, muito bem colocado pelo jornalista Mauricio Puls em artigo publicado na Folha de São Paulo. O povo quer mudança, mas não sente nos atuais opositores a confiança necessária para apostar neles. É a velha máxima: não troco o certo pelo duvidoso. Trocar seis por meia-dúzia pra quê? O Brasil com o PSDB saiu dos tempos da hiperinflação. O Brasil com o PT avançou, sim. Com PSDB foi plantado as bases. Com o PT foi levantada a casa. Agora vem a terceira fase. Porém, não sei se Aécio Neves, Eduardo Campos e a própria presidente Dilma, ou outro nome, são capazes de ser o líder dessa terceira fase.
Todos os ex-presidentes, dos últimos 30 anos, deixaram uma marca importante de seu governo para o país. Deixe a raiva, o sangue nos olhos e a sua ideologia um pouco de lado e veja esta retrospectiva de cada mandato dos ex-presidentes da nova República.
José Sarney
Governo Sarney (1985-1990)
José Sarney abriu a política com a Constituição Federal de 1988; se quisesse não convocaria Constituinte nenhuma e, com ajuda dos militares (mesmo ele tendo brigado com eles na eleição indireta que elegeu Tancredo Neves, criando a Aliança Democrática da qual ele foi o candidato a vice-presidente), governaria por mais 20 anos. Sarney pode ser tudo, pode ter deixado o Maranhão na miséria enquanto seu clã usufrui de uma boa vida; seus planos econômicos podem ter naufragados, mas foi democrata e, no exercício da presidência, como primeiro presidente civil desde 1964, acabou com a censura e convocou a Constituinte.
Fernando Collor de Mello
Governo Collor (1990-1992)
Fernando Collor de Mello ganhou a primeira eleição direta para presidência da República desde 1960. Em uma eleição histórica, com 23 candidatos, polarizada no segundo turno entre Collor e Lula – entre direita e esquerda, ricos e pobres, empresários e trabalhadores – Collor venceu por pequena vantagem sobre Lula. O “caçador de marajás” começou seu governo confiscando a poupança, sua popularidade despencou. Desilusão geral no país. Mas ele começou a abrir a economia brasileira, que era muito fechada. No meio de seu governo vieram as denúncias que o atingiram e o fizeram renunciar antes que o Senado votasse seu impeachment. Collor deixou como legado de seu governo o confisco da poupança, denúncias de corrupção, a CPI e a abertura da economia.
Itamar Franco
Governo Itamar (1993-1994)
Veio o processo de impeachment e o vice-presidente Itamar Franco assumiu a presidência interinamente, e depois em definitivo com a renúncia de Collor. Itamar chamou Fernando Henrique, que era ministro das relações exteriores, para o ministério da fazenda. Fernando Henrique, junto com a equipe econômica elaborou o Plano Real. Finalmente um plano econômico funcionou, a inflação era finalmente controlada. Fim da hiperinflação, o legado do presidente Itamar.
Fernando Henrique Cardoso
Governo FHC (1995-2002)
Fernando Henrique ganhou visibilidade, transformou-se quase em herói, pelo fim da inflação descontrolada. Elegeu-se derrotando Lula no primeiro turno em 1994 e, depois de muita confusão, mudou a regra no meio do jogo e criou o dispositivo da reeleição em 1997. Antes, terminou de estabilizar a economia com as privatizações e pacotes econômicos de seu primeiro mandato. Foi reeleito em 1998, mas saiu do governo em 2002 em baixa, com inflação alta e desemprego crescendo.
Luiz Inácio Lula da Silva
Governo Lula (2003-2010)
“A esperança venceu o medo”. Frase dita por Luiz Inácio Lula da Silva depois de derrotar José Serra no segundo turno. O primeiro metalúrgico eleito presidente. Lula na campanha de 2002 não radicalizava mais; chamou um empresário, José Alencar, para ser seu vice, fez a ‘Carta ao Povo Brasileiro’ se comprometendo a manter a política fiscal de seu antecessor, para acalmar o mercado e a classe média. Foi eleito e cumpriu seu compromisso, colocando no Banco Central Henrique Meirelles, que era do PSDB. Deixou a parte econômica com Meirelles e Antonio Palocci (PT) [Ministro da Fazenda]. Unificou os programas sociais já existentes e criou o programa Bolsa Família. Programa elogiado e copiado em vários países. Reelegeu-se em 2006 mesmo depois da grave crise de seu governo em 2005, que quase custou-lhe um processo de impeachment: o mensalão. Ajudado por um crescimento de 7,5% na economia (2010) e 28 milhões de pessoas deixando a extrema pobreza, ascendendo à classe média, Lula chegou ao final de seu governo com quase 90% de aprovação, elegendo seu sucessor – na verdade, sucessora, a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.