Grécia mostra que não fomos tão mal

Fábio Piperno

O derretimento da economia da Grécia é uma obra de décadas, realizada por governos irresponsáveis de um país com renda pouco acima do nível chileno e gastos com padrões germânicos. É óbvio que um dia a conta não fecharia.

O esfacelamento das finanças do país, dramatizado após a crise global de 2008, é resultado da gastança liberada principalmente pelos governos da Nova Democracia, de centro-direita, e do Pasok, de centro-esquerda. As duas forças majoritárias se revezaram no poder durante praticamente todo o período da Terceira República, iniciado em 1974 com a abertura política do país.

O modelo de aumento de gastos públicos para financiar um estado de bem-estar social envelhecido, com alta alarmante de gastos previdenciários, aposentadorias precoces e baixa produtividade era uma bomba-relógio que explodiu com o fim do dinheiro fácil a partir de 2008.

Os pacotes de austeridade negociados com a Troika (Banco Central Europeu-FMI-Comissão Europeia) provocaram uma recessão sem precedentes em um país da Europa ocidental em tempos de paz. Gessado pela camisa de força da moeda única no continente, o Euro, a Grécia não teve meios para sair da armadilha que a ausência de autonomia monetária significa em situações críticas como a atual.

O novato Syriza, coligação de esquerda que venceu as eleições de janeiro passado, ganhou nas urnas tendo como base a proposta de romper com as medidas de austeridade exigidas pela Troika. Fiel aos compromissos de campanha, o governo decidiu esticar a corda em busca de concessões. Mas o desfecho de 30 de junho e a capitulação neste 1º de julho mostram que na tragédia grega não tem vida fácil fora do Euro.

Nas principais cidades do país se tornaram comuns os cartazes com o “Fora FMI”, bastante comuns no Brasil e em toda a América Latina, principalmente a partir do final da década de 70.

Durante o governo João Batista Figueiredo, o último presidente do ciclo militar, de tão frequente que era, a presença do FMI por aqui se tornou até folclórica. O Fundo Monetário Internacional despachava para cá uma austera técnica, a chilena Ana Maria Jul. A cada desembarque em Brasília, provocava calafrios.

De tailleur e carregando uma maleta 007, onde guardava as bulas dos remédios amargos que prescrevia para o ministro Delfim Neto e demais autoridades do governo, Ana Maria Jul era a encarnação do mal.

A senhora chilena, de face petrificada e mais dura que Angela Merkel, era o rosto sem filtro e sem véu da banca internacional que castigava devedores pobres e indisciplinados, tratados com juros proibitivos, que quebraram várias das economias da região. Na maleta, Jul nos entregava pacotes com exigências como cortes de gastos públicos, congelamentos dos aumentos salariais e controle obstinado da inflação. Nada muito diferente do que hoje é apregoado.

No encerramento da vistoria, exigia assinatura de Delfim Neto nas famosas cartas de intenções, cujo cumprimento condicionava os novos créditos e a rolagem da então impagável dívida externa. O Brasil obviamente se comprometia com todas as exigências e jamais entregava o prometido.

Nessa época, o México quebrou. Mais tarde um pouco, na Argentina foi ainda pior. Já redemocratizado, o país à beira da total insolvência adotou o corralito em 2001, no governo de Fernando de la Rúa. Com a medida, as pessoas que lotavam os caixas eletrônicos tinham limites de saques. Algo parecido com o que se vê agora na Grécia. Apenas dois anos após ser eleito, de la Rúa foi despejado do poder.

Com o tempo, o FMI deixou de assombrar por aqui. As principais economias da região quitaram seus débitos com o fundo e o Brasil acumula US$ 380 bilhões em reservas cambiais, o que fez do país credor internacional. Sinal de que não fomos tão mal e não erramos tanto assim em nossas escolhas. Por que no fundo, empréstimo do FMI era um presente de grego que custa muito caro, como o presente nos volta a ensinar.

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Autor: Fábio Piperno

Sou Jornalista, louco por futebol e pelo meu país.

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