Análise: Marina Silva no Jornal Nacional

William Bonner e Renata Vasconcellos mantiveram a linha inquisidora nas perguntas

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MICHEL COSTA

Na quarta e última entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu Marina Silva da Rede Sustentabilidade nesta quinta-feira. Repetindo o formato das sabatinas anteriores com Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin, William Bonner e Renata Vasconcellos mantiveram a linha inquisidora nas perguntas endereçadas à ex-ministra, um formato que incomodou outras figuras da imprensa.

O primeiro assunto abordado foi a debandada ocorrida na Rede que, desde seu registro em 2015, perdeu diversos quadros que criticaram a inexistência de posicionamento do partido para os grandes problemas do País. Tentando tratar as saídas como algo natural, Marina disse que o respeito a seus antigos aliados continua e que, por isso, se entende como alguém capaz de unir pessoas com diferentes visões de mundo.

A temperatura da entrevista começou a subir quando o impeachment se tornou o tema. Lembrando que 50% da Rede foi favorável ao impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, Marina disse que via margem para o impeachment pelo uso de Caixa 2 na campanha vencedora em 2014 e que Dilma e Temer eram “farinha do mesmo saco”. Todavia, Marina não explicou ao público que Dilma não caiu pelo suposto cometimento do crime de Caixa 2, mas pelas pedaladas fiscais.

Sobre a reforma da Previdência, a candidata afirmou a necessidade de haver um debate entre todos os segmentos e não apenas com empresários como Temer fez. Comentou ainda sobre a necessidade de combater os privilégios e estabelecer diferenças entre a idade mínima de homens e mulheres, visto que elas ainda têm a chamada dupla jornada.

O apoio dado a Aécio Neves no 2º turno de 2014 foi o questionamento seguinte. Ao declarar que, naquele momento, não sabia dos malfeitos do senador mineiro, Marina foi interrompida por Bonner que lembrou o episódio do aeroporto de Cláudio, obra que teria sido feita com dinheiro público para atender a família do então candidato tucano à presidência. Desconfortável, Marina disse que todo mundo escolheu alguém, mas que não repetiria o apoio dado na ocasião.

Sobre corrupção, tema comum em todas as entrevistas, Eduardo Campos –então cabeça de chapa de Marina em 2014 e morto em acidente aéreo –, foi citado como nome presente na lista de propinas distribuídas para a campanha daquelas eleições. Firme na resposta, a ex-ministra disse que a justiça ainda está investigando o caso, mas que defende a Operação Lava Jato.

Coligações estaduais e suas supostas contradições foram o assunto seguinte. William Bonner apontou as críticas de Marina Silva ao fisiologismo no Brasil em contraponto ao apoio da Rede a partidos conhecidos por essa prática. Lembrando seus 30 anos de vida pública sem estar envolvida em casos de corrupção, a candidata se defendeu ao dizer que todos os partidos têm bons quadros, expressão que diz estar sendo copiada por Geraldo Alckmin, e citou um “jovem que foi prefeito de Pelotas sobre o qual não pesa nenhuma acusação”. O jovem em questão é Eduardo Leite, 33, réu em duas ações por improbidade, o que não configura crime de corrupção. Contudo, muito mais grave, é a acusação de que os exames que detectam câncer de útero realizados pelo SUS no município de Pelotas no período em que Eduardo foi prefeito teriam sido realizados por amostragem. Como o caso ainda está sendo investigado, chega a ser politicamente imprudente da parte de Marina citar o candidato ao governo do Rio Grande do Sul.

No que diz respeito à aliança com o Partido Verde, sigla que deixou para ajudar a formar a Rede, Marina declarou que nunca teve problemas com seu atual companheiro de chapa, Eduardo Jorge, e que saiu do PV por divergências políticas que não são diferenças programáticas na coligação atual.

Quanto a possíveis divergências com a forte bancada ruralista no Congresso, Marina pontuou que é um erro enxergar o agronegócio como homogêneo e exemplificou com a boa recepção que teria recebido na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) no dia anterior.

No último questionamento que recebeu, Marina defendeu sua atuação como ministra do Meio Ambiente e disse que a licenças de instalações de novas hidrelétricas durante sua gestão não tiveram nenhuma decisão que não tivesse embasamento técnico.

No minuto reservado para sua mensagem final, Marina Silva foi concisa e abrangente, citando sua origem pobre, tendo sido alfabetizada aos 16 anos, a negritude, a maternidade e a meta de construir um Brasil mais justo para trabalhadores, empresários, homens e mulheres, formando um país próspero e sustentável.

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Ao final da série de entrevistas, que mantiveram o mesmo padrão, a impressão é que pouco se extraiu do que os candidatos disseram, uma vez que os questionamentos foram montados para que cada um se defendesse como pudesse. Um eleitor em dúvida sobre seu voto, caso queira mais informações sobre os presidenciáveis, terá de buscar noutras fontes. Se houve algo que se fortaleceu com as sabatinas do Jornal Nacional foi a desesperança na política. Algo que, convenhamos, só é bom para quem se alimenta dela da pior forma possível.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

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Autor: Brasil Decide

Política e democracia

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