
O então juiz Sergio Moro foi uma peça do xadrez político no ciclo eleitoral 2014-2018. Em 2016 ajudou no impeachment da presidente Dilma, ao divulgar um áudio entre ela e Lula em uma interceptação telefônica já fora do prazo judicial e omitindo trechos para configurar que o ex-presidente estava virando ministro apenas para fugir da jurisdição de Moro. Aquele áudio foi a mola propulsora e reascendeu o impeachment que estava se apagando no Congresso Nacional. Lula foi impedido de assumir o ministério para reorganizar a base do governo e foi questão de dias para Dilma deixar a presidência – afastada em 12 de maio e definitivamente em agosto daquele ano.
No ano seguinte Moro condenou Lula em um dos processos a 9 anos e meio de prisão. Em um espaço de seis meses o TRF-4 confirmou a condenação e aumentou a pena em 12 anos e 1 mês. Passadas algumas semanas, esgotados os recursos e embargos da defesa no tribunal de Porto Alegre, Moro expediu a ordem de prisão fazendo o ex-presidente se refugiar no sindicato de São Bernardo. A defesa entrou com pedido de habeas corpus no STF, uma tuitada do então Comandante do Exército General Villas Boas foi decisiva para o placar 6 a 5 contra o HC. Lula preso e fora da corrida eleitoral enquadrado pela Lei da Ficha Limpa sancionada pelo próprio Lula, inclusive teve cassado seu direito de conceder entrevistas da prisão localizada na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
A condenação e prisão do então líder em todas as pesquisas abriu caminho para um deputado de baixo clero e falastrão ser eleito, ajudado pelo atentado a faca que o deixou entre a vida e a morte. Na mesma semana que saiu vitorioso das urnas no segundo turno, Jair Bolsonaro convidou Sergio Moro para ser o seu ministro da Justiça e deu a Segurança Pública para ele.
No governo, Bolsonaro e Moro começaram a se estranhar e a gota d’água foi a exoneração do diretor-geral da PF Mauricio Valeixo. O ministro saiu do governo atirando contra o presidente. Acusações tão graves que fez o procurador-geral Augusto Aras, que vinha se comportando como advogado-geral, pediu no mesmo dia abertura de inquérito para investigar as falas do ex-ministro. Três dias depois o decano Celso de Mello autorizou.
Jair Bolsonaro vem numa escalada perigosamente autoritária. O presidente se acha supremo que recebeu uma missão divina. Acha que pode usar os aparelhos de Estado (PF, Receita Federal, IBAMA, etc) como bem entende ignorando que existe uma Constituição. Quem ficar no seu caminho é antipatriota, comunista, globalista…
Ele despreza a Constituição ou acha que é a própria no melhor pior estilo “O Estado sou eu”. Não é por acaso que deseja transformar a PF em uma Gestapo. Seu sonho é ser Dom Bolsonaro I, o rei da república bananeira do nióbio.
Discursa contra a “velha política” a chamando de “patifaria”, criminaliza a legítima articulação política, mas quando se encontra encurralado ameaçado se sofrer processo de impeachment ou denúncia por crime comum corre para o que tem de pior na política. Moro ajudou a eleger e pode ser quem vai desligar os aparelhos do mandato de Bolsonaro. Longe de ser “herói”, Moro faria um bem ao país se parar o aspirante a ditador que solapa diariamente e continuamente as instituições da República.