Racha no clã Ferreira Gomes e nova disputa pelo Ceará

A história da política cearense é repleta de alianças e rachas desde o tempo dos coronéis

Cid, Ciro e Camilo

Era uma vez um Império que dominava o estado do Ceará por anos. Esse Império rachou nas eleições de 2022. O clã Ferreira Gomes impôs um candidato ao governo do estado, o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Claudio (PDT), já o seu aliado, o ex-governador Camilo Santana (PT) queria a sua vice e atual governadora Izolda Cela (PDT), que saiu do partido ao ser preterida.

Camilo então rompeu a aliança de anos e indicou Elmano de Freitas (PT), com a bênção do ex-presidente e candidato Lula (PT). O ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes (PDT) se sentiu traído por Camilo e por seu irmão Cid Gomes (PDT), ex-governador e senador, que não se engajou na campanha de Claudio, o clima ficou tão pesado que posteriormente Cid saiu do PDT e se filiou ao PSB.

Na eleição, Lula, Elmano e Camilo saíram vitoriosos para os cargos de presidente, governador e senador respectivamente. Camilo virou ministro da Educação. Roberto Claudio armagou um terceiro lugar na eleição estadual e Ciro um quarto lugar na eleição presidencial com míseros 3% dos votos, o seu pior desempenho em eleições para presidente. Pior: perdeu no Ceará, o que nunca tinha acontecido.

Desde então Ciro não perde a oportunidade de alfinetar Camilo o chamando se “traídor” e faz duras críticas ao atual governo do Ceará, de Elmano. Ciro já chegou a dizer que Camilo quando governador fez um acordo com facções criminosas no estado e acusou o governo Elmano de cobrar propina por toda obra do governo. Não apresenta provas. Ciro também virou opositor do governo Lula mesmo seu partido com o ministério da Previdência, mas isso é resquícios da eleição de 2018.

Um novo embate entre ex-aliados está marcado para as eleições municipais de outubro. Na capital Fortaleza, Evandro Leitão saiu do PDT e foi para o PT, ganhando a indicação do partido para desafiar o atual prefeito José Sarto (PDT).

A disputa pela prefeitura de Fortaleza promete fortes emoções. Além dos representantes dos ex-aliados ainda tem o Capitão Wagner (União Brasil) tentando pela terceira vez ser prefeito – ganhou em Fortaleza na disputa para governador em 2022 – e o candidato do bolsonarismo que deve ser o deputado federal André Fernandes (PL).

A história da política cearense é repleta de alianças e rachas desde o tempo dos coronéis. Grupos se formam, chegam ao poder local e a aliança se dissolve por disputa interna.

Quem manda hoje no Ceará é o grupo de Camilo Santana, que desbancou o ex-aliado Ciro Gomes, que por sua vez acusa Camilo de querer instaurar uma ditadura no estado. Preparem a pipoca e o refrigerante, uma nova batalha vai começar.

Um novo nome emergindo da política cearense

Camilo vem mostrando uma boa gestão, mesmo com graves problemas pelo caminho

Chamou atenção uma fala do ex-presidente Lula em um bate-papo na internet para o canal do jornalista José Trajano. Lula cogitou o nome de Camilo Santana, como candidato do PT à presidência da República.

Camilo está no meio do terceiro ano como governador do Ceará. Ele foi a grande aposta do ex-governador Cid Gomes na sucessão estadual. Camilo vem mostrando uma boa gestão, mesmo com graves problemas pelo caminho e as principais são violência desenfreada, seca prolongada e a crise econômica nacional. Além de desafios na saúde e educação. Na economia, o Ceará está entre os melhores em equilíbrio fiscal e em investimento público, por mais paradoxo que possa parecer. Na avaliação popular, o governo de Camilo é “regular” para maioria da população. Sobre a fala de Lula, Camilo disse que acompanha o que acontece na política nacional, mas que está focado no estado.

Cid já teve planos de lançar Camilo, que foi seu secretário nos dois mandatos (Desenvolvimento Agrário e Cidade), candidato a prefeito de Fortaleza em 2012. Mas em uma queda de braço com a então prefeita Luizianne Lins, também do PT, Elmano de Freitas foi o candidato do partido. Elmano perdeu no segundo turno para o candidato de Cid, o deputado estadual Roberto Claudio (PSB/PDT). Aliado de Cid Gomes nas duas campanhas que o elegeu governador, Eunício Oliveira esperava de Cid, só que de aliados passaram a grande rivais no estado. E Eunício foi buscar apoio em Tasso Jereissati, que havia sido derrotado para o Senado Federal quatro anos antes. Tasso e o irmão de Cid, Ciro Gomes, fundaram o PSDB no Ceará.

Sem Lula, o PT não tem opção do mesmo apelo popular E, caso Lula não possa ser candidato por razão jurídica ou de saúde, o mais provável é que Ciro Gomes ganhe o apoio petista. Em caso de Ciro recusar o apoio por medo da alta rejeição ao petismo, aí ninguém sabe o que vai acontecer, se Camilo aceitaria um pedido do partido para disputar a presidência contra seu aliado Ciro Gomes, mesmo para o PT marcar posição e manter a tradição de ter candidato desde a redemocratização, em 1989.

El Cid Gomes aumentou o cacife

Fábio Piperno

O ex-governador Cid Gomes é um político experiente. Quando chegou à Câmara dos Deputados na última quarta-feira, tinha plena consciência de que cumpria uma sessão de despedida. Diante dele, não estavam mais os 300 ou 400 achacadores, mas os carrascos que lhe decepariam o pescoço. E assim foi feito. A cabeça de Gomes foi servida na bandeja que Eduardo Cunha mandara lustrar. Mas será que o ministro demitido não percebeu antes que ele seria o prato do banquete? É óbvio que sabia.

Os cálculos políticos são engenhosos. Na atual conjuntura, permanecer no e com o governo pode representar desgaste. Cid Gomes tem a clara noção disso. Como também sabe muito bem que só mesmo o parlamento consegue perder em popularidade para a presidente da República nos dias atuais. Da forma como saiu, de espada desembainhada diante dos impopulares deputados e defendendo a presidente, Gomes saiu do governo direto para a terceira via.

Aos olhos do público, foi o valentão da solitária cruzada contra os tais “achacadores”. Defendeu o governo, brigou com o parlamento e ficou bem na foto. Sem cargo, fica imune aos índices de rejeição que rondam o Planalto. Ao lado do irmão, pode agora ficar espicaçando de longe deputados e senadores, livres do risco de perda de espaço político. Podem, enfim, jogar para a plateia, sem ter nada a perder. Só a ganhar!

Cid Gomes ganha um protagonismo que em outros tempos foi do irmão Ciro. A hora do caçula pode ter chegado. Com a demissão, não é mais governo e muito menos oposição. É apenas um combatente entrincheirado na batalha contra a impopular base governista no parlamento, com apetite de anaconda para o toma-lá-dá-cá. Pode funcionar para a torcida, cansada com o governo e sem entusiasmo pela oposição. O fato é que a demissão fez dele alguém maior do que era. Saiu do Planalto com a musculatura enrijecida após a conversa com Dilma.

Em 2010, Ciro Gomes sonhou com a candidatura a presidente. Era da base do governo, mas não necessariamente de Dilma. Na época filiado ao PSB, viu o projeto ser soterrado pelo governador Eduardo Campos, então presidente do partido e o mais lulista entre os não-petistas. Agora, a situação mudou.

Diferente do irmão, o guerreiro El Cid encontra a terceira via novamente órfã, desde que Marina Silva decidiu hibernar outra vez. E tem um partido para chamar de seu – privilégio que a ex-senadora jamais pode desfrutar. São handicaps nada desprezíveis para quem mira em 2018.