O que comemoram os governistas

Marlos Ápyus

Margaret Thatcher dizia que o socialismo só funciona até o dia que o socialista termina de gastar o dinheiro que tomou do capitalista. De certa forma, basta olhar para o que ocorre na Venezuela que se comprova isso.

O capitalismo é um sistema altamente baseado em prêmios: se é feito algo do interesse da sociedade, ela premia. Do contrário, ela ignora. E isso não foi bolado por nenhum cientista em laboratório, mas pela própria sociedade, que acreditou assim funcionar melhor após ao menos cinco séculos de testes e mais testes em seu cotidiano.

Diferentemente do socialismo, que nasce do trabalho de um filósofo em um livro sem qualquer experimento científico. Ou seja: representa o resultado de um trabalho individual, não um trabalho coletivo como o capitalista. É um sistema que baseia-se na solidariedade. Soa bonito, mas na prática significa que, não importa o quão duro se dê por algo, o prêmio pelo esforço será o mesmo de quem nada deu. Para funcionar, é preciso que cada membro tome a iniciativa altruísta de fazer um bem à nação. Como isso não ocorrerá, ele só consegue se impor pela força. É quando nascem as supostas “ditaduras do proletariado”, que já teriam custado 100 milhões de vidas segundo alguns estudiosos. Para efeito de comparação, a segunda guerra mundial não teria chegado a 60% deste estrago.

Sempre que se tomar a riqueza acumulada pelo capitalismo e distribuí-la com a sociedade, ótimos números surgirão para a economia. Algo semelhante ocorre quando governos imprimem dinheiro. Por alguns instantes surgem bons resultados, mas logo vem o caos econômico e inflação. Foi basicamente o que Juscelino Kubitschek fez, largando a bomba inflacionária no colo de Jânio Quadros. É basicamente o que Chávez largou no colo de Maduro agora na Venezuela.

É semelhante também ao que os petistas comemoram até hoje. Foi isso o que as políticas sociais do governo petista fizeram nos primeiros anos: direta ou indiretamente, distribuíram às camadas mais carentes as riquezas acumuladas, seja por bolsas, seja por cortas, seja por inflar cada vez mais o Estado, seja tantas vezes em dinheiro vivo mesmo. E funcionou porque a economia precisa de dinheiro girando.

Mas uma economia sólida precisa que esse giro monetário seja justificado. Precisa que exista uma estrutura para fazer com que ele não se perca no meio do caminho e simplesmente acabe. É preciso não só distribuir riquezas, mas também gerá-las. Do contrário, cedo ou tarde os números ruins voltam a surgir.

O que o PT faz no Brasil é chamado de “social democracia”, que na prática finda sendo uma forma bem lenta e muito menos sangrenta de implementar o socialismo. Assim feito, os primeiros bons números demoram um pouco mais a aparecer (foram ao menos 5 anos no caso do PT). Assim como os números ruins (que só aparecem aos poucos agora. Dilma, por exemplo, vai deixar para o país o segundo pior crescimento do PIB desde pelo menos Getúlio Vargas).

O que ainda comemoram os governistas, mas mais timidamente (um pouco intimidados pela onda de protestos do país), são os números gerados ainda no governo Lula. Mas já não eram muito confiáveis. E Dilma só ampliou sua manipulação quando Mantega passou a colocar em prática o que vem sendo chamado de “contabilidade criativa”.

Por exemplo, para não ser considerado desempregado pelo IBGE, basta qualquer brasileiro ter trabalhado ao menos uma única hora nos últimos 365 dias. Até hoje os petistas comemoram a taxa de desemprego em 5%. Na verdade, ela estaria em 20%, umas das piores da nossa história. Mas é possível encontrar artimanhas semelhantes no que se vende acerca do fim da miséria, dos ganhos da Petrobras, do alcance do Ciência sem Fronteiras, da eficiência do Mais Médicos, do controle da inflação e do suposto fim da dívida externa, entre outros.

Mesmo com tanta maquiagem, o governo Dilma só foi capaz de apresentar números tímidos, todos inferiores ao seu antecessor, o que por si só quebra a principal promessa de sua campanha, que era a de ser ela a pessoa mais qualificada a manter o bom momento vivido pelo governo Lula. É de se perguntar como estaria o país se estivéssemos tendo contato com números que de fato expliquem o momento o qual vivemos. Ou ainda, considerando que ao menos 24% dos brasileiros – ou mais da metade daqueles que dizem possuir alguma preferência partidária – se dizem petistas, como estaria a popularidade do mandato de Dilma, hoje aprovada por menos da metade dos 83% que diziam sim ao governo Lula.

Datafolha lança dúvidas para todos

Fábio Piperno

Os números não são como as cartas, que não mentem jamais. Eles não. Podem iludir e criar miragens capazes de hipnotizar. A mais recente pesquisa Datafolha sobre a corrida presidencial é em certa medida assim. Por mais exatos que os números possam ser, os resultados apontam mais indefinições e dúvidas, do que oferecem certezas.

Para começar, a presidente Dilma ficou no mesmo lugar onde estava no levantamento anterior, realizado em novembro. No cenário mais provável, manteve os 47% de três meses antes. Pode até se dar ao luxo de comemorar discretamente o fato de que os dois rivais mais diretos somam agora 29%, contra os 30% da outra pesquisa, tendo 90 dias a menos para descontar a diferença.

É bom lembrar que nesse trimestre entre as duas pesquisas a presidente viu-se agarrada a um cardápio repleto de notícias ruins. A inflação cedeu pouco, a produção industrial não reverteu a curva de queda, começaram a pipocar deserções entre os médicos cubanos, o PMDB não deu trégua na refrega por mais espaço no governo, os mensaleiros foram para a cadeia, a balança comercial não reagiu, os prazos de entrega dos estádios da Copa foram para escanteio e os black blocs continuam tirando o sono, para não dizer vida, como a do cinegrafista da TV Bandeirantes.

Mesmo com toda essa sucessão de notícias desfavoráveis, Dilma não desce de um patamar confortável. Se não é suficiente para cantar vitória antecipada – e não é mesmo – a marca acima de 40% é alentadora quando não se tem um rival que já tenha batido nos 20%. A dúvida agora é saber por quanto tempo esse nível de fidelidade resistirá caso a presidente não consiga reverter a maré de eventos negativos.

Para sorte do Planalto, o vice-líder nas pesquisas continua em campo sem empolgar. Aécio Neves começou a pré-campanha empurrado por um latifúndio eleitoral, que é o estado de Minas Gerais. O problema é que não deslanchou fora das Alterosas.

Aécio não passa semana sem visitar cidades importantes do estado de São Paulo. Mas sem as companhias do governador Geraldo Alckmin e do ex-presidenciável José Serra nessas visitas, é pouco mais que um estranho no ninho tucano para o eleitor de São Paulo. Em relação à pesquisa anterior, perdeu dois pontos. Pode parecer pouco. De fato, fica dentro da margem de erro. No entanto, em nenhum outro levantamento apareceu com apenas 5% de vantagem sobre o governador Eduardo Campos. E aí reside o perigo de o tucano ser abatido no meio do caminho.

Para o ex-governador de Minas Gerais, terminar o primeiro turno atrás de Dilma, mas só dela, está dentro do script. O problema é ter a vice-liderança fustigada por Campos, um governador popular, jovem e que tem Marina Silva se aquecendo no banco, pronta para entrar na parada. Sem dúvida, a linha amarela está mais acesa do que nunca no ninho tucano.

Quando Marina começar a aparecer de forma mais ostensiva ao lado de Campos, é mais do que provável que o pernambucano venha a se beneficiar com a transferência dos votos que seriam para a ex-ministra, ainda a vice-líder nas pesquisas sempre que tem o nome mencionado nas simulações. Esse é um handicap inacessível a Aécio, que mais do que nunca precisa das estrelas do PSDB paulista na campanha para compensar o possível efeito Marina.

No confronto com o mineiro, até agora um aliado nas críticas ao governo Dilma, Campos ainda tem o bônus de ter sido um aliado de Lula. O passado como parceiro do petista lhe dá a vantagem da elasticidade do discurso. Pode esticar a corda na oposição a Dilma, ao mesmo tempo em que lembra o eleitor do pedigree de companheiro de todas as horas do popular presidente Lula. O que, convenhamos, não é pouco em uma batalha por uma vaga no segundo turno, que pode ser definida por fotochart.

O desafio de Campos, agora com status de pré-candidato que alcançou preferência na casa dos dois dígitos, é ampliar a colheita de votos entre os marineiros. Os de primeira viagem, mais fiéis, já embarcaram na canoa do governador de Pernambuco. Os que chegaram depois, em busca de um nome distante do mainstream político, ainda oferecem alguma resistência. Mas Campos conta com o carisma de Marina para dobrá-los.

Feitas as contas com base nos números do recente Datafolha, as ponderações entre os três competidores mais destacados ficariam nisso. Só que a pesquisa apontou os primeiros indícios de que um novo nome ameaça fazer alguns estragos. No único cenário em que foi mencionado, o pastor Everaldo Dias Pereira (PSC) já surge com 3%, marca suficiente para desgarrá-lo dos demais nanicos.

Na campanha, tem fé que pode fazer barulho. Ele se assume como candidato “de direita”, algo inédito na história das eleições presidenciais do Brasil e calibra o discurso na direção do eleitorado mais conservador, contra o casamento gay, a liberalização da maconha e o aborto. Para tentar materializar o milagre da multiplicação dos votos, defende o legado do presidente Lula e critica Dilma. É também aliado do pastor Marco Feliciano.

Se tem fôlego para ir muito longe, ainda é impossível saber. Mas não se deve esquecer que o falastrão Enéas começou a carreira eleitoral apenas como um folclórico nanico. A graça acabou quando na eleição presidencial de 1994 amealhou 7,38% dos votos, atrás apenas de FHC e Lula. Se chegar a tanto, Pereira pode ser até mesmo o responsável por um segundo turno. O inferno para Dilma. Coisa que para Aécio e Campos não seria de todo mal.

2013: histórico e tenso

Foi um ano agitado por conta da antecipação da campanha eleitoral e das manifestações que chegaram a levar milhões de brasileiros às ruas de todo o país em junho.

As manifestações que começaram em São Paulo por causa do aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus explodiu de vez quando a PM paulista abusou do poder de autoridade, reprimindo com violência os manifestantes e até prendendo um jornalista da revista Carta Capital por portar um frasco de vinagre em sua bolsa. Então as manifestações ficaram conhecidas como a “Revolta do Vinagre”. Mas depois apareceram mascarados conhecidos como Black Bloc destruindo bens públicos e privados. Os vândalos acabaram virando maioria absoluta e afastando o povo das ruas.

A presidente Dilma Rousseff, depois de alguns dias de silêncio, resolveu falar em um pronunciamento em rede nacional de TV e rádio. Fez reunião com governadores e prefeitos das capitais. Propôs cinco pactos pela melhoria dos serviços públicos, um plebiscito e uma constituinte exclusiva para a reforma política, mas não passou no Congresso Federal. Um dos motivos de não passar no Congresso era porque uma constituinte exclusiva para a reforma política é inconstitucional. E o TSE não teria tempo suficiente para organizar um plebiscito deste tamanho para valer já em 2014. Lançou o programa “Mais Médicos”, o que gerou muita polêmica principalmente entre os médicos brasileiros, mas o programa foi aprovado pela maioria da população.

Dilma viu a sua popularidade despencar 28 pontos em junho, a oposição já se animava, mas ela recuperou um pouco da popularidade perdida e, segundo pesquisas recentes, tem chance de vencer a eleição do próximo ano já no primeiro turno.

Depois que a Rede Sustentabilidade não obteve o seu registro junto ao TSE, o governador de Pernambuco Eduardo Campos convidou a ex-senadora Marina Silva para se filiar ao PSB. A grande jogada política de 2013 visando 2014. Mas, por enquanto, os resultados dessa aliança são pífios. As intenções de voto de Marina – que recebeu 20 milhões de votos na eleição de 2010 – não foram transferidos para Campos, que por sua vez continua com intenções de voto baixas. Aécio Neves, que será o candidato Tucano ao Planalto, não decola nas pesquisas. Marina Silva continua sendo a única ameaça da presidente Dilma não ganhar no primeiro turno, mas ela já falou que o candidato do PSB é o Eduardo Campos.

O Brasil Decide vai acompanhar (já está, na verdade!) todo processo eleitoral de 2014, no Twitter (mesmo nome) e aqui no blog. Vamos fazer o possível para levar informação e opinião com responsabilidade e independência. Para que você, eleitor, possa escolher livremente a melhor opção para governar o país, o estado, o melhor represente para a Câmara dos Depurados, nas Assembleias Legislativas e no Senado Federal. Porque isso é democracia. Boa sorte a todos e uma boa eleição (e uma Copa do Mundo, claro!).

Viva a Democracia!

Corrida presidencial 2014 e a “judicialização” do brasileiro

No fim da tarde deste sábado (30), datafolha divulgou uma nova rodada de pesquisas acerca da corrida presidencial de 2014. Dilma continua crescendo, mas o assunto deste post é outro, apesar de relacionado a essa pesquisa.

Chamou atenção o presidente do STF, Joaquim Barbosa, em um dos cenários pesquisados, à frente do candidato do PSDB, Aécio Neves. No referido cenário, Dilma aparece com 44% de intenções de voto, Joaquim Barbosa com 15% e Aécio Neves com 14%. O que levou Joaquim Barbosa a tal patamar de intenções de voto a menos de um ano da eleição? Há várias respostas. Duas em especial.

A oposição não se acerta. Apesar de Aécio ter apoio de todos os diretórios estaduais do partido, Serra ainda briga para ser candidato a presidente da República pelo partido pela terceira vez. O PSDB comete os mesmos erros das últimas eleições presidenciais: não definir logo um candidato e partir para montagem de um plano de governo, e não estabelecer uma estratégia de campanha que não seja repetir mil vezes as palavras mensalão e corrupção.

A maioria dos eleitores de classe média alta não vota no PT e parece cansada do PSDB. Enxerga em Joaquim Barbosa um herói da nação. Aquele que colocou na cadeia políticos corruptos. A “judicialização” da política brasileira não é de hoje; o brasileiro adora um mártir, um herói, e Joaquim Barbosa cabe perfeitamente nesse personagem do imaginário brasileiro – “O Batman brasileiro”, “O Salvador da Pátria”.

Barbosa falou várias vezes que não pretende entrar para política, não agora. Mas já corre nos bastidores a possibilidade dele deixar o STF e se filiar a um partido em Abril de 2014 – para magistrados, este é o prazo final de filiação partidária destinada à disputa de mandatos na próxima eleição.

Caso resolva entrar na corrida presidencial, creio que Joaquim Barbosa faria barulho. Mesmo que não para ganhar, conseguiria uma votação expressiva, com votos dessa classe média alta.

Quanto a Dilma, se não acontecer uma catástrofe muito grande, de proporções devastadoras na política e na economia, a presidente deve se reeleger – e até com facilidade.

Dilma subindo

Dilma Rousseff (Foto: Antonio Cruz/ABr)
Dilma Rousseff (Foto: Antonio Cruz/ABr)

Pesquisa Ibope divulgada no fim da tarde desta segunda-feira confirma o que o Datafolha já tinha mostrado. A presidente Dilma Rousseff (PT) continua crescendo em intenções de voto, enquanto Aécio Neves, presidente nacional do PSDB e postulante a ser o candidato tucano em 2014, não decola. A dobradinha Eduardo/Marina travou. As intenções de Marina que foram lá pra cima durante o período das manifestações não impulsionaram a candidatura de Eduardo Campos depois que não foi concedido o registro da Rede Sustentabilidade. Além disso, ao se filiar ao PSB, as intenções de voto da própria Marina caíram.

Nem mesmo a execução das penas dos condenados no julgamento do mensalão fez com que as intenções de voto em Dilma caíssem mais uma vez. Fica claro que não adianta a oposição usar o mensalão para enfraquecer a presidente.  Isso não adiantou com o Lula na reeleição de 2006 no auge do escândalo e não vai funcionar quase 10 anos depois.

Quem odeia o PT não vota nele de jeito nenhum, não precisa de motivo. E o mensalão já fez o estrago em quem votava e não vota mais. Por isso o PT tem que parar com esse coitadismo, o mensalão já tirou os votos que tiraria.

A maioria do eleitorado não está nem aí para o julgamento e para onde vão os condenados. Preocupações reais são outras. E a oposição já deveria ter entendido isso depois das derrotas de 2006 e 2010. Os candidatos de oposição não deveriam embarcar novamente nessa onda de moralidade, numa pseudo-ética de alguns por aí. O que eles têm que fazer é um projeto alternativo e concreto ao que está no poder, saber se comunicar com a população, não só com jornalistas e os eleitores que já não votam no PT.