O Grupo Globo foi pesadamente pra cima do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB). Nas últimas semanas uma bombástica matéria do jornal O Globo revelou uma reunião, segundo o jornal “reunião secreta”, que mostra Crivella prometendo facilidades para líderes religiosos da sua religião. Realmente, a fala de Crivella, na gravação, não é republicana e não é compatível com o cargo que ocupa que foi colocado lá pela maioria da população do Rio, não apenas pelos evangélicos ou pelo “tio” Edir Macedo.
Feita essa ressalva no parágrafo acima, o conglomerado de mídia da família Marinho já tinha usado todo seu aparato midiático para barrar a vitória do bispo licenciado da Universal, que controla a principal concorrente da TV Globo, a Record, inclusive tentando impulsionar a candidatura do adversário do Crivella, Marcelo Freixo (PSOL). Desde a eleição passando pelo anúncio da vitória de Crivella nas urnas e a posse a oposição global não deu trégua ao prefeito, bem diferente da relação com o antecessor Eduardo Paes e, em nível estadual, com Sérgio Cabral, uma relação muito próxima entre o poder público carioca e fluminense com o Grupo Globo.
Mas o adversário do Grupo Globo é a Universal e o avanço neopentecostal na sociedade brasileira, que contraria a agenda progressista da TV Globo, sendo Crivella apenas um representante que ousou cortar verbas gordas de publicidade da prefeitura que fluía para a conta bancária do Grupo Globo – detalhe que o corte deixou o repasse equilibrado entre as TVs e jornais e a Record continuou recebendo menos que a Globo.
Marcelo Crivella tentou ser prefeito e até governador do Rio e sempre parava na rejeição que seu nome tinha por ser bispo da Universal. Na campanha de 2016 tentou contornar essa rejeição prometendo não misturar seu governo na segunda maior cidade do Brasil – ex-capital do Império e da República e cidade mais conhecida do país no mundo – com sua religião. Falhou na promessa e viu sua rejeição pessoal voltar com força e junto com erros de comunicação e gestão afetou a popularidade de seu governo. Um episódio marcou negativamente o governo Crivella, o corte da subvenção do carnaval, que apesar de necessário, deixou o prefeito como “traidor” já que escolas de samba o apoiaram na eleição.
Muito provavelmente Crivella só se elegeu por ter disputado o segundo turno contra Freixo, um esquerdista radical que se passa por moderado. Apesar do Rio de Janeiro ser majoritariamente de esquerda e eleger figuras deste campo ideológico, o PSOL ainda não conseguiu penetrar com força nos redutos que elegem candidatos ao executivo municipal e estadual, principalmente a Zona Oeste do Rio, que é dominada por milícias e políticos ainda com influência. Por exemplo, Crivella firmou aliança com Anthony Garotinho para chegar nos redutos mais populosos.
O prefeito Crivella vai enfrentar um processo de impeachment na Câmara de Vereadores e um pedido de afastamento que o PSOL entrou no Ministério Público alegando improbidade administrativa e crime eleitoral resultando em crime de responsabilidade. Se o prefeito vai ser deposto depende da força política na Câmara. Improvável que a Justiça afastará o prefeito do Rio de Janeiro (não é cidadezinha do interior com 10 mil pessoas). Se bem que o ativismo judicial e a insensatez estão reinando no país.
Lembrando que o vice-prefeito Fernando Mac Dowell morreu em maio e o impedimento de Crivella provavelmente provocaria a realização de uma eleição suplementar para eleger um prefeito (e vice) tampão. A Justiça Eleitoral precisaria ser acionada para esclarecer a dúvida. Tudo pode acontecer na terra de Estácio de Sá. Se Crivella se segurar na cadeira de prefeito, a guerra só começou.