Eleições 2020 – Rio de Janeiro: Volta à normalidade

O Brasil precisa de um período de calmaria após esse turbulento período iniciado em meados de 2013

Eduardo Paes está de volta. Depois de amargar duas derrotas – uma dede seu candidato Pedro Paulo na sua sucessão e a sua própria para Wilson Witzel na disputa para governador -, Paes derrota de forma consagradora o atual prefeito Marcelo Crivella.

No discurso após o resultado, o futuro prefeito classificou sua vitória como vitória da política tão demonizada nos últimos anos que resultou em radicalismos. É alvissareiro se constatar que o clima bélico que virou a política está começando a refluir. Só que a eleição no Rio teve outros fatores e o principal foi que a população carioca puniu Crivella, considerado o pior prefeito.

Paes sabe que vai pegar uma prefeitura muito diferente quando pegou em 2009. Problemas novos, mais difíceis e complexos. Nos dois últimos anos de Paes na prefeitura o dinheiro abundante já não tinha mais e não tinha mais a aliança com Lula e Cabral – Dilma e Pezão depois. Mesmo assim, mostrou ser um bom gestor de crise pegando a administração de alguns hospitais de responsabilidade do estado evitando o colapso deles.

Que Eduardo Paes esteja certo e seja a volta da normalidade política. O Brasil precisa de um período de calmaria após esse turbulento período iniciado em meados de 2013.

Desunião na esquerda favoreceu Crivella e Paes no Rio

No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM) vai enfrentar Marcelo Crivilla (REP) no segundo turno. O atual contra o ex-prefeito. A vantagem para o ex-prefeito é enorme. Além de ter terminado o primeiro turno com quase o dobro de votos de Crivella e ganhado em quase todas as zonas eleitorais da cidade, Paes conta com rejeição recorde do atual prefeito para voltar a governar o Rio.

Para passar ao segundo turno Crivella contou com dois fatores: colagem na imagem no presidente Bolsonaro e a fragmentação da esquerda. Somando os votos de Martha Rocha, Benedita da Silva e Renata Souza, respectivamente de PDT, PT e PSOL, essas candidatas juntas conseguiram 25,81% dos votos válidos, acima dos 21,90% de Crivella.

Independente se certo ou errado, Marcelo Freixo acertou no diagnóstico. Ao desistir da candidatura percebendo que não teve êxito em formar uma frente de esquerda, sabia que sem uma candidatura única seria difícil passar para o segundo turno, mesmo com toda a rejeição ao atual prefeito.

Guilherme Boulos PSOL) e Manuela D’avila (PCdoB) estarem no segundo turno em São Paulo e Porto Alegre, respectivamente, sem ter formado uma frente de esquerda, não sugnifica que no Rio seria igual. Cada cidade tem sua particularidade e na política são amplificadas.

Essas diferenças pesaram na não união no Rio e desgastaram Freixo dentro do PSOL, também por ter um pensamento menos ideológico dentro do partido.

A fragmentação deu chance ao Crivella disputar o segundo turno e ao Paes voltar a ser prefeito. Mas não significa que a eleição esteja decidada. Segundo turno é uma nova eleição com oportunidades iguais aos candidatos e o confronto do atual prefeito contra o ex é um choque de gestões. Crivella pode fazer uma reta final que convença que seu governo ainda é melhor (ou menos pior) que o de Paes e conseguir uma virada histórica.

Não sei como, especialmente em um segundo turno que terá menos tempo do que os outros. Mas nunca diga nunca em eleição.

Felipe Neto ganhou meu respeito!

Felipe agiu como um cidadão consciente que sabe o senso de responsabilidade que tem como influenciador

Sim, já fui detrator do youtuber Felipe Neto e continuo tendo sérias discordâncias de suas visões políticas, sociais e econômicas. Mas é de tirar o chapéu, aplaudir de pé, reverenciar a sua participação no episódio envolvendo o prefeito Marcelo Crivella e a Bienal do Livro. Não sei se de forma genuína e por convicção, se o comportamento dele de uns anos pra cá seja reposicionamento estratégico de carreira ou oportunismo, o que não importa.

O que importa é que Felipe encarou uma autoridade do Estado brasileiro para defender a nossa liberdade e em defesa de um segmento da sociedade ainda tão marginalizado que enfrenta preconceitos e discriminação. Usou seu poder financeiro e midiático para mobilizar pessoas em defesa da liberdade, de ser o que a pessoa quer ser, ler, ouvir, assistir, ser livre.

Felipe Neto usou seu canhão de popularidade para enfrentar uma violação à Constituição brasileira, a vedação de qualquer tipo de censura. Encarou o prefeito da cidade do Rio de Janeiro que na sua visão fundamentalista confunde um beijo gay em um gibi de super heróis com pornografia. Felipe agiu como um cidadão consciente que sabe o senso de responsabilidade que tem como influenciador e pode influir nos rumos do país contra pequenos gestos que podem ser o ovo da serpente.

Sua voz ecoa pela internet, sua popularidade é enorme e ele viu que pode fazer muito pelo Brasil, ao invés de apenas usar esse poder para ganhar dinheiro. E se ganhar dinheiro com suas ações, junta o útil ao agradável. Felipe Neto ganhou meu respeito com seu senso de cidadania.

Censura na “guerra cultural” contra a “ideologia de gênero”

A censura de Marcelo Crivella contra a Bienal do Livro do Rio de Janeiro é absurda, tonta (HQ vendeu como água e esgotou o estoque em horas), inconstitucional, preconceituosa. Seja por questão eleitoral (Crivella está com sua gestão muito mal avaliada) ou religiosa (Bispo licenciado e sobrinho de Edir Macedo). Nada justifica mandar fiscais da prefeitura apreender livros ou revistas que firam a sensibilidade de um grupo como se fosse uma ditadura. Tudo por uma passagem do quadrinho que dois jovens gay se beijam.

Não tem nada pornográfico e não fere a legislação. O que vai contra as leis e a Constituição é a censura praticada pelo prefeito.

Mas Crivella não está só. O governador João Doria mandou recolher material escolar que seria distribuído nas escolas de São Paulo para alunos do 8º ano do ensino fundamental por conter a famosa ideologia de gênero. A prefeitura de Fortaleza também está envolvida em uma polêmica parecida e com uma profusão de notícias falsas ou deturpadas. E o governo federal anda vetando filmes com temáticas LGBTQ+ a captar verba via Lei de Incentivo à Cultura.

Doria faz isso como bom oportunista que é e tenta ganhar a confiança do eleitorado conservador, embora conservador não seja isso, está mais para reacionários de extrema direita, escancarando que o discurso de um novo PSDB de centro não passa de falácia para enganar incautos tentando se descolar de Jair Bolsonaro como se não tivesse existido o “BolsoDoria”. No caso do Crivella também conta o lado religioso.

“Guerra cultural”, assim como “ideologia de gênero”, são nomes pomposos que usam para justificar barbaridades do tipo que aconteceu na Bienal do Rio. É verdade que existem grupos organizados que tentam empurrar agendas progressistas para toda a sociedade e é mundial. Mas falar em “guerra cultural” é bobagem. Se empresas de qualquer ramo investem em diversidade é por ter demanda. É capitalismo, estúpido!

Globo x Universal

O adversário do Grupo Globo é a Universal e o avanço neopentecostal

O Grupo Globo foi pesadamente pra cima do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB). Nas últimas semanas uma bombástica matéria do jornal O Globo revelou uma reunião, segundo o jornal “reunião secreta”, que mostra Crivella prometendo facilidades para líderes religiosos da sua religião. Realmente, a fala de Crivella, na gravação, não é republicana e não é compatível com o cargo que ocupa que foi colocado lá pela maioria da população do Rio, não apenas pelos evangélicos ou pelo “tio” Edir Macedo.

Feita essa ressalva no parágrafo acima, o conglomerado de mídia da família Marinho já tinha usado todo seu aparato midiático para barrar a vitória do bispo licenciado da Universal, que controla a principal concorrente da TV Globo, a Record, inclusive tentando impulsionar a candidatura do adversário do Crivella, Marcelo Freixo (PSOL). Desde a eleição passando pelo anúncio da vitória de Crivella nas urnas e a posse a oposição global não deu trégua ao prefeito, bem diferente da relação com o antecessor Eduardo Paes e, em nível estadual, com Sérgio Cabral, uma relação muito próxima entre o poder público carioca e fluminense com o Grupo Globo.

Mas o adversário do Grupo Globo é a Universal e o avanço neopentecostal na sociedade brasileira, que contraria a agenda progressista da TV Globo, sendo Crivella apenas um representante que ousou cortar verbas gordas de publicidade da prefeitura que fluía para a conta bancária do Grupo Globo – detalhe que o corte deixou o repasse equilibrado entre as TVs e jornais e a Record continuou recebendo menos que a Globo.

Marcelo Crivella tentou ser prefeito e até governador do Rio e sempre parava na rejeição que seu nome tinha por ser bispo da Universal. Na campanha de 2016 tentou contornar essa rejeição prometendo não misturar seu governo na segunda maior cidade do Brasil – ex-capital do Império e da República e cidade mais conhecida do país no mundo – com sua religião. Falhou na promessa e viu sua rejeição pessoal voltar com força e junto com erros de comunicação e gestão afetou a popularidade de seu governo. Um episódio marcou negativamente o governo Crivella, o corte da subvenção do carnaval, que apesar de necessário, deixou o prefeito como “traidor” já que escolas de samba o apoiaram na eleição.

Muito provavelmente Crivella só se elegeu por ter disputado o segundo turno contra Freixo, um esquerdista radical que se passa por moderado. Apesar do Rio de Janeiro ser majoritariamente de esquerda e eleger figuras deste campo ideológico, o PSOL ainda não conseguiu penetrar com força nos redutos que elegem candidatos ao executivo municipal e estadual, principalmente a Zona Oeste do Rio, que é dominada por milícias e políticos ainda com influência. Por exemplo, Crivella firmou aliança com Anthony Garotinho para chegar nos redutos mais populosos.

O prefeito Crivella vai enfrentar um processo de impeachment na Câmara de Vereadores e um pedido de afastamento que o PSOL entrou no Ministério Público alegando improbidade administrativa e crime eleitoral resultando em crime de responsabilidade. Se o prefeito vai ser deposto depende da força política na Câmara. Improvável que a Justiça afastará o prefeito do Rio de Janeiro (não é cidadezinha do interior com 10 mil pessoas). Se bem que o ativismo judicial e a insensatez estão reinando no país.

Lembrando que o vice-prefeito Fernando Mac Dowell morreu em maio e o impedimento de Crivella provavelmente provocaria a realização de uma eleição suplementar para eleger um prefeito (e vice) tampão. A Justiça Eleitoral precisaria ser acionada para esclarecer a dúvida. Tudo pode acontecer na terra de Estácio de Sá. Se Crivella se segurar na cadeira de prefeito, a guerra só começou.