Defender a democracia estimulando convulsão social é fomentar o caos

Ser contra o fascismo não torna obrigatório apoiar movimentos com práticas terroristas

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O país está como um barril de pólvora pronto para explodir. E tem gente que gosta de apagar fogo com gasolina, de ver fogo no parquinho – alguns com interesses políticos.

No último domingo (31) tivemos conflitos de rua entre bolsonaristas e antibolsonaristas (denominados antifascistas) em um pequeno vislumbre do que pode acontecer se continuarem esticando a corda. Em São Paulo, a PM teve que intervir para evitar o pior. Obviamente, os manifestantes “pela democracia” reclamaram de uma suposta truculência da polícia paulista e acusando a PM de reprimir protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Não tenho dúvidas que dentro das PMs a maioria é de eleitores de Bolsonaro e caso tente um golpe armado não será pelo Exército, mas sim por milícia formada por policiais militares, bombeiros e militares de baixa patente das Forças Armadas. O problema é que partir para o confronto físico, para baderna anarquista, ajuda a fomentar o caos. Quem deseja o caos para justificar a decretação do estado de defesa e até o estado de sítio, podendo assim governar em um estado de exceção, sem mecanismos de controle e fiscalização?

Quando escrevi no texto anterior que não há diálogo com quem não quer dialogar estou me referindo à via institucional. Notas de repúdio ineficazes já encheram a paciência. O brasileiro responde radicalizando e dando de bandeja o motivo que falta para quem está à procura de motivos para recrudescer ainda mais as suas ações.

Quem foi fazer aglomeração mesmo com máscara em meio a uma pandemia de uma doença que nas próximas horas vai bater 30 mil mortes de brasileiros (fora a subnotificação que é política de governo) não apresentou uma reivindicação institucional – impeachment, pressão no Aras para apresentar uma denúncia no STF ou a cassação da chapa no TSE. Apenas e somente palavras de ordem inúteis.

Torcidas organizadas têm uma ficha de violência nos estádios e rastro de sangue. Por acaso serão elas a resistência democrática em defesa das instituições e da democracia, pela via da violência? Se for assim, não conte comigo. Ser contra o fascismo não torna obrigatório apoiar movimentos com práticas terroristas, como movimentos de extrema-esquerda Antifa e black-bloc. O segundo tem na sua bandeira vestígios de sangue do cinegrafista Santiago Andrade.

No sábado, 30, foi lançado um movimento reunindo pessoas de posições políticas opostas em defesa das instituições (Estamos Juntos), que resgatou o amarelo da campanha Diretas já!. Fiz questão de assinar o seu manifesto que já conta com mais de 100 mil assinaturas. Esse sim é um movimento realmente pela democracia.

Os extremos se retroalimentam, corrói o sistema democrático e civilizatório.

É hora de um basta antes do pior

Mais do que a democracia, são as instituições que estão em risco

Está se confirmando o alerta que muitos faziam na pré-eleição de 2018: a vitória de Jair Bolsonaro era uma ameaça real. Em pouco mais de um ano como presidente, uma lista extensa de falas e atos ferindo o decoro do cargo resvalando em crime de responsabilidade, que para muitos juristas já seria suficiente para ao menos a abertura de processo de impeachment ou denúncia penal no STF.

Mas o presidente conta com três “escudos” para escapar de responder por seus atos. O primeiro é a Constituição, que ele desrespeita continuamente e deixou claro não gostar ainda como deputado baixo clero, Bolsonaro usa de escudo o artigo 86, principalmente o inciso 4º:

§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.

Já o segundo escudo é a popularidade estabilizada em 30%, variando para cima e para baixo dependendo do momento das pesquisas realizadas. E o terceiro escudo é o apoio da elite financeira e econômica.

Esses fatores blindam o presidente que não tem base parlamentar e fuzilou com o próprio partido para criar um que o cultue. E a própria classe política está desconfiada de embarcar em um novo e desgastante processo de impeachment menos de quatro anos do traumático impeachment de Dilma Rousseff.

Mais do que a democracia, são as instituições que estão em risco. A estratégia é minar as instituições e destruir freios e contrapesos que impedem o projeto de poder autoritário. Em um Estado fascista cabe eleição, mas não cabe imprensa livre, cultura pensante, educação sem ideologia. Justamente as três áreas que o bolsonarismo tenta destruir e aparelhar.

A Folha de São Paulo fez um editorial contundente, praticamente declarando guerra aberta ao governo Bolsonaro. Outros órgãos de imprensa que não se curvaram pelas benesses do poder ou sucumbiram precisam fazer o mesmo.

Está chegando no limite, o ponto de não retorno. Não é mais possível contemporizar seja pela economia e reformas ou por medo do PT e a esquerda voltarem com um governo que diuturnamente ataca as instituições da República e organizações civis no seu projeto de poder. Forças democráticas (se restou alguma) precisam pôr um freio antes do ponto de não retorno.

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A esquerda precisa parar de pegar no pé dos eleitores arrependidos e no pessoal de centro por puro ressentimento da última eleição. Não é hora para sentimento vingativo e agindo assim a esquerda só se isola politicamente repetindo 2018.

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O Congresso Nacional se desmoralizará (ainda mais) se não convocar (nada de convite) o chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) Gal Augusto Heleno para se explicar e dizer quem chantageia o governo.

Cara e coroa do fascismo

No Brasil, o (neo) fascismo é representado pelo bolsonarismo e na criação do Aliança (pelo Brasil), o que se pretende ser o novo partido de Jair Bolsonaro, e o lava-jatismo nascido da operação Lava-Jato.

O texto de fundação do Aliança é mais reacionário do que o texto de fundação da Arena, o partido de sustentação da ditadura militar brasileira entre 1964 e 1985.

O bolsonarismo planeja a desmoralização das instituições para que só reste no imaginário popular a Presidência da República imune de corrupção, como se o presidente fosse um leão cercado por hienas lutando pelo Brasil.

O bolsonarismo busca uma base cativa e os evangélicos são essenciais no projeto de poder, por ser um filão. Igrejas (neo) pentecostais têm forte penetração nos grotões do país. É uma arma poderosa com potencial de poder eleitoral capaz de ganhar eleições. Lembrando que o próximo Censo já pode colocar os evangélicos como maioria na população brasileira.

Mas o bolsonarismo não se limita só aos evangélicos. É um projeto autocrático que usa a religião (cristianismo) como arma política. Deus, Pátria e Família.

Uma ala do Ministério Público e do Judiciário, que chamo de jacobina, se vê numa missão: livrar o Brasil da corrupção. Sergio Moro é o líder supremo dos jacobinos de toga e Deltan Dallagnol é o comandante em chefe. Formou-se uma aliança entre o bolsonarismo e o lava-jatismo na eleição. Os jacobinos adotaram a estratégia lawfare, uma forma de guerra na qual a lei é usada como arma política, na sua cruzada libertadora e contaram com o apoio de setores da imprensa para ganhar a opinião pública. Não se importam em ferir a economia do país, a própria democracia e as instituições da República.

Duas faces da mesma moeda que já entraram em choque e foi só o começo.