Lula atrapalha planos de Ciro Gomes

Não é a primeira vez. Em 2010, Lula boicotou Ciro o preterindo na sua sucessão e apostou (vitoriosamente) suas fichas em Dilma Rousseff

A articulação que Lula fez direto da superintendência da Polícia Federal do Paraná, de onde está preso, praticamente selou o fim do sonho de Ciro Gomes chegar ao segundo turno da eleição de 2018 e, finalmente, virar presidente do Brasil. Ciro almejou aglutinar o polo progressista da esquerda brasileira em torno de seu projeto nacional-desenvolvimentista ocupando o espaço do PT. Estava claro que Lula não deixaria e faria (fez) de tudo para atrapalhar os planos de seu ministro da integração nacional.

Ajudou o tucano Geraldo Alckmin a levar o apoio do “blocão” chamado de “centrão” – DEM, PRB, PR, PP, SD – ao convencer o velho aliado Waldemar da Costa Neto a desistir da aliança com o PDT e fazer de Josué Alencar o vice-presidente de Ciro ou Alckmin; mandou Gleisi Hoffmann acenar para Manuela D’ávila a possibilidade de ser a vice da chapa petista esfriando o namoro entre PDT e PCdoB; faltava afastar o PSB, o partido usou a candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, e apoio em outros estados para evitar a aliança com quem Lula acredita que vai disputar com o PT quem vai ser o representante da esquerda no segundo turno. Assim, Ciro está isolado e vai para o horário eleitoral com os 33 segundos que o seu partido tem direito, sem densidade e capilaridade partidária.

Tudo foi calculado para sobrevivência política do PT, a um custo de sacrificar o surgimento de novas lideranças mais uma vez. Além da eleição presidencial, o PT reforçou a difícil candidatura de reeleição de Fernando Pimentel, em Minas Gerais, com o PSB, a disputa mais importante nos estados do partido. Para o PSB, não restava outra saída à neutralidade nacional e o acordo com PT nos estados após Joaquim Barbosa refugar e desistir da candidatura, mas é um retrocesso pensando que cinco anos atrás Eduardo Campos rompeu com o petismo para o PSB ter vida própria e romper a polarização PSDB x PT.

Não é a primeira vez. Em 2010, Lula boicotou Ciro o preterindo na sua sucessão e apostou (vitoriosamente) suas fichas em Dilma Rousseff (se arrependeu depois, mas funcionou naquela eleição), que nunca havia disputado cargo eletivo algum na vida. E ainda fez Eduardo Campos matar o desejo de Ciro ser candidato do PSB apoiando Dilma. Mas Ciro vai continuar dizendo que a condenação imposta ao ex-presidente foi injusta para não desagradar uma parte do eleitorado que disputa com o petismo.

PSB se coloca como opção ao Brasil

PSB-EduardoCampos

O PSB levou ao ar seu programa partidário em rede nacional de TV e rádio. A novidade do programa foi que não teve políticos do partido falando, o programa foi com animações e uma narração de um texto.

Nele, o narrador desenvolveu uma história mostrando erros do governo da presidente Dilma Rousseff e também de Luiz Inácio Lula da Silva. Ou seja, os 13 anos de governos do PT. Mostrou o engodo que é o slogan do segundo mandato de Dilma “Pátria Educadora”, que é só um slogan. Além de falar que a crise econômica e política é resultado da incompetência.

Sem, no entanto, cair no vício de criticar por criticar. O partido mostrou caminhos para mudança, um projeto de desenvolvimento sustentável calcado em: Educação de qualidade e tempo integral; com investimento contínuo em infraestrutura, em tecnologia de ponta, na economia criativa e em políticas sociais de Estado. Tocou em um assunto que se arrasta por décadas que é o pacto federativo, o partido propõe uma divisão do bolo tributário entre a União, estados e municípios. No final, uma homenagem a João Mangabeira, Miguel Arraes e Eduardo Campos.

O PSB se colocou como terceira via novamente e aponta na direção de ter candidato a presidente na eleição de 2018, a direção executiva do partido já tinha dito isso em resolução e foi reforçado no programa da quinta-feira (22). Resta a dúvida de quem será o nome que representará o PSB na disputa presidencial sem Eduardo Campos e Marina Silva.

Três programas, três estratégias

PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado

Vinícius Melo Justo (@relances)

No estágio de pré-campanha, muitas informações podem ser erráticas. O jogo político brasileiro é consideravelmente menos previsível do que o americano, por exemplo: o multipartidarismo, a falta de interesse da maioria da população até o momento próximo da eleição e a importância da propaganda na televisão tornam bastante difícil prever certos movimentos com precisão. O caso Russomanno nas eleições municipais em 2012 mostra como as expectativas podem ser revertidas na dinâmica nacional, embora diversos fatores estudados a fundo pela Ciência Política permitam compreender ao menos as possibilidades mais plausíveis a serem consideradas na análise.

O jogo dos bastidores pode ser ainda mais complicado, pois dependerá sempre da qualidade das informações obtidas pela imprensa – e na política ninguém fornece algo sem algum interesse, mesmo que seja apenas pela publicidade de certos fatos. Mas o horário partidário na televisão tende a ser mais transparente em relação à interpretação do momento feita pelos partidos, indicando a tendência de cada um quanto ao modo como percebem as necessidades imediatas da campanha.

Com alguma distância temporal entre si, os programas recentes de PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado com vistas à corrida presidencial. Analisá-las permite identificar as diferenças em seus objetivos e estratégias, ainda que a linguagem publicitária leve a alguma padronização esperada das mensagens. No entanto, a leitura precisa entender, para além das preferências partidárias e ideológicas, o que a forma dos programas diz para além de seu significado mais explícito.

Programa do PSB (27 de março de 2014)

BRASÍLIA, DF, BRASIL 05.10.2013 - MARINA SILVA/PSB: A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB e fecha acordo político com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para a corrida presidencial de 2014. Foto: Alan Marques/Folhapress
BRASÍLIA, DF, BRASIL 05.10.2013 – MARINA SILVA/PSB: A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB e fecha acordo político com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para a corrida presidencial de 2014. Foto: Alan Marques/Folhapress

Existem estilos concorrentes na propaganda do PSB, divulgada há pouco mais de dois meses. A abertura tem um espírito jovial, chamando por “atenção” e servindo para diferenciar-se da programação normal da TV. Então, no primeiro minuto, ouvimos Eduardo Campos e Marina Silva falarem sobre o que seria sua maior semelhança: ambos “de luta e de paz”, com a ênfase algo desconfortável de Campos no epíteto “filhos da esperança” – distanciando-se do jovial presente nos primeiros segundos em favor de algum popularismo. Em outra chave, o filtro sépia parece tentar produzir a ideia de uma visão diferente das coisas, causando alguma estranheza pelo aspecto envelhecido da imagem.

Gasta-se algum tempo procurando “justificar” a aliança PSB-Rede, concentrando-se nas qualidades pessoais de Campos e Marina e no tema do desenvolvimento sustentável, bem definido em suas intenções mas pouco ou nada descrito em termos de propostas. Aproveitou-se o tema para a crítica à gestão da Petrobrás, ao elogio dos avanços econômicos até Lula, tomando o cuidado para criticar apenas Dilma, investindo contra os retrocessos. De maneira clara, o programa busca o eleitor algo descontente com o atual governo mas que esteve satisfeito durante o período Lula: não tanto um posicionamento à esquerda do PT, mas de afirmação de maior capacidade para “transformar o país”.

A estratégia de Campos, no entanto, talvez não encontre o melhor resultado nessa mescla de estilos visuais, mas na ideia por trás do programa: a produção de diálogo, conversas. Há duas necessidades subentendidas aí: primeiramente tornar Campos conhecido entre os brasileiros, apoiando-se no recall de Marina em relação a 2010; em segundo lugar, definir-se como o candidato da busca de consenso, rejeitando o atual rumo nacional mas considerando suas virtudes. Uma estratégia típica de terceira via, mas ainda em busca de sua melhor tradução visual.

Programa do PSDB (17 de abril de 2014)

Senador Aécio Neves (PSDB/MG)
Senador Aécio Neves (PSDB/MG)

Antecipado, o programa do PSDB também investe na conversa. Mas em vez disso o que se tem é uma espécie de entrevista de Aécio, com o apagamento do entrevistador. Existe uma narrativa muito clara no programa, começando pela história de vida de Aécio (conectando-o ostensivamente ao avô Tancredo Neves), sua passagem na Câmara e no Governo de Minas, sua opinião sobre os protestos de junho de 2013. Tudo isso entremeado com imagens antigas, dados e trechos de outros programas. Um programa bastante tradicional, talvez de propósito.

O principal objetivo é, além de tornar Aécio mais conhecido e simpático ao grande público, é apresentar suas qualidades como gestor público e comprometido com o funcionamento do governo e não com os arranjos políticos. Sobram críticas, sutis ou não, ao atual governo, posicionando-o como um candidato de oposição muito bem definido. Acena também para os participantes dos grandes protestos, defendendo o diálogo (assim como Campos).

A diferença entre os diálogos de Campos e Aécio é clara: este pretende conversar com o povo para conhecer os problemas que seriam produzidos pela ineficiência do governo, aquele para construir entendimentos de interesse nacional. É de se notar que no segundo caso existe a pressuposição de que algum consenso é possível e desejável – enquanto no primeiro a ideia é totalmente representativa: Aécio conversa para depois atuar em nome daqueles que representa. Assim, define-se na oposição de forma eficiente, mas dificulta um pouco o necessário diálogo com aqueles que Campos tenta atingir – os eleitores de Lula descontentes com Dilma.

Programa do PT (16 de maio de 2014)

Presidente Dilma Rousseff
Presidente Dilma Rousseff

Bastante criticado pelo tom de “medo”, o programa do PT aposta em atacar os “fantasmas do passado”, procurando minar desde já o discurso oposicionista, garantindo que o PT produzirá os melhores resultados para as mudanças necessárias no Brasil. É um claríssimo caso de programa composto para “segurar” o voto que já tem, buscando evitar a migração de eleitores apresentando os triunfos de todo o período do PT.

A dependência de Lula ainda é muito sensível. Dilma não tem tanto carisma e elocução quanto Aécio e Campos, ainda menos comparada ao seu antecessor. Portanto, o programa investe mais em quadros informativos e segmentos específicos. O risco aí é parecer muito autoindulgente: citar inúmeros avanços e reduzir as críticas a “pessimismo” aliena de forma decisiva o eleitor descontente, mas fortalece a convicção daqueles já dispostos a votar pela continuidade.

Mas há problemas. Chama a atenção, por exemplo, a fórmula estranha de Rui Falcão ao dizer que os protestos de 2013 revelam a necessidade de uma reforma política: “é como um corpo novo numa alma velha”, conclamando por uma “constituinte exclusiva”. Não seria o contrário? Uma alma nova presa pelo corpo envelhecido? A inversão faz pensar: terá o PT a convicção de que o problema é a mentalidade e não a estrutura? É um abandono curioso da ideia da estrutura social determinando as condições objetivas nacionais.

As diferenças visíveis entre os três programas indicam como a eleição presidencial está aberta neste momento – talvez como nunca desde 1989. As três estratégias, procurando consolidar as trincheiras de cada um dos candidatos, serão mais desenvolvidas em agosto – mas, até lá, o cenário forçará mudanças. Para quem quer entender o processo, é preciso acompanhar passo a passo.

Vinícius Melo Justo é graduado em Letras e mestrando em Teoria Literária pela USP.

A Pedra no Sapato do PT

Eduardo Papke Rocha

A lua de mel enfim cessou. PT e PSB caíram no marasmo do relacionamento a dois. “A emoção acabou que coincidência é o amor, a nossa musica nunca mais tocou”, diria Cazuza. A separação deve ser “arretada” – referente à origem de ambos: o nordeste. Os ventos trazem consigo espessas nuvens. Antevejo tempestade.

Antes fieis escudeiros. Hoje dissidentes e oposição do governo Dilma. Seguindo a risca o complexo de Frankenstein o PSB voltou-se contra seu criador.

O PT segue absoluto, sem oposição aparente. Porém, no seu quintal, à surdina, desabrochava uma ramificação de sua ideologia. O jardineiro não o tratou feito erva daninha e a cultivou. Naturalmente a flor brotou e alastrou-se pelo jardim. A metafísica explica: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Portanto, o jardim ficou pequeno. Uma das flores teria de encontrar seu espaço. Naturalmente sobrou para o broto jovem. O PSB atravessou a cerca. Objetivo: O Palácio do Planalto em 2018.

Mas por que abandonar o jardim petista demasiadamente cedo? Preparar o terreno. Adubar a terra, preparar insumos, irrigação e etc. Alicerçar bases ideológicas e “apresentar” Eduardo Campos ao Brasil, usando de laboratório o pleito eleitoral de 2014.

Os rumos do PSB no Rio Grande do Sul

Beto Albuquerque assumiu a presidência estadual do PSB, eleito por unanimidade, elegeu como prioridade trabalhar pela candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a presidente da República. Ou seja, será cabo eleitoral do correligionário.

— Eduardo será candidato a presidente. Ele não pode dizer isso agora, porque a política tem seus tempos, mas esse é o desejo do partido. Time que não entra em campo fica sem torcida — diz Beto, citando o exemplo de Lula, que perdeu três eleições até chegar à Presidência.

Na avaliação partidária, Campos têm chances reais de chegar ao segundo turno e de vencer a disputa, mas, se perder, a campanha será útil para torná-lo mais conhecido dos brasileiros. Beto considera mais importante para o projeto de Campos disputar o Palácio do Planalto, mesmo correndo o risco de perder, do que virar senador numa eleição em que não teria concorrentes.

— Se for para o Senado, ele pode virar um Aécio Neves — afirma Beto em tom de provocação, referindo-se à palidez do mandato do ex-governador mineiro.

Referente à Aécio, o socialista atribui ao PT as especulações de que Campos poderia concorrer aliado ao PSDB e ao DEM, com um vice tucano. Disse ser estratégico, um subterfúgio petista para abusar do discurso de “nós contra eles”. O governador de Pernambuco quer se apresentar como um aliado que ajudou a garantir a governabilidade para Lula e Dilma, mas quer avanços — ou o que o PSB chama de quarto ciclo.

— O primeiro ciclo foi o da redemocratização, o segundo o da estabilidade da moeda, com o Plano Real, e o terceiro o das políticas sociais, com Lula e Dilma. Para sustentar essas três conquistas, precisamos de desenvolvimento, investimento e ascensão econômica — sintetiza Beto, antecipando o que será o discurso de campanha de Campos.

O pernambucano criticou a antecipação da disputa eleitoral pelo PT, ao lançar a candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição: — Nunca vi quem está no governo, sobretudo quem está no governo numa situação de dificuldade, antecipar calendário eleitoral. Nunca vi isso dar certo.

O PSB está conversando com líderes do PDT, do PTB, do PPS e do PSD para tentar montar uma coalizão com tempo razoável de rádio e TV. Dos quatro, três estão com Dilma e um, o PPS, é aliado histórico do PSDB, mas dá sinais de que pode buscar outro caminho em 2014. A esperança é que partidos que formam base aliada sejam seduzidos a seguir caminho do PSB, alçar novos voos.