
A articulação que Lula fez direto da superintendência da Polícia Federal do Paraná, de onde está preso, praticamente selou o fim do sonho de Ciro Gomes chegar ao segundo turno da eleição de 2018 e, finalmente, virar presidente do Brasil. Ciro almejou aglutinar o polo progressista da esquerda brasileira em torno de seu projeto nacional-desenvolvimentista ocupando o espaço do PT. Estava claro que Lula não deixaria e faria (fez) de tudo para atrapalhar os planos de seu ministro da integração nacional.
Ajudou o tucano Geraldo Alckmin a levar o apoio do “blocão” chamado de “centrão” – DEM, PRB, PR, PP, SD – ao convencer o velho aliado Waldemar da Costa Neto a desistir da aliança com o PDT e fazer de Josué Alencar o vice-presidente de Ciro ou Alckmin; mandou Gleisi Hoffmann acenar para Manuela D’ávila a possibilidade de ser a vice da chapa petista esfriando o namoro entre PDT e PCdoB; faltava afastar o PSB, o partido usou a candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, e apoio em outros estados para evitar a aliança com quem Lula acredita que vai disputar com o PT quem vai ser o representante da esquerda no segundo turno. Assim, Ciro está isolado e vai para o horário eleitoral com os 33 segundos que o seu partido tem direito, sem densidade e capilaridade partidária.
Tudo foi calculado para sobrevivência política do PT, a um custo de sacrificar o surgimento de novas lideranças mais uma vez. Além da eleição presidencial, o PT reforçou a difícil candidatura de reeleição de Fernando Pimentel, em Minas Gerais, com o PSB, a disputa mais importante nos estados do partido. Para o PSB, não restava outra saída à neutralidade nacional e o acordo com PT nos estados após Joaquim Barbosa refugar e desistir da candidatura, mas é um retrocesso pensando que cinco anos atrás Eduardo Campos rompeu com o petismo para o PSB ter vida própria e romper a polarização PSDB x PT.
Não é a primeira vez. Em 2010, Lula boicotou Ciro o preterindo na sua sucessão e apostou (vitoriosamente) suas fichas em Dilma Rousseff (se arrependeu depois, mas funcionou naquela eleição), que nunca havia disputado cargo eletivo algum na vida. E ainda fez Eduardo Campos matar o desejo de Ciro ser candidato do PSB apoiando Dilma. Mas Ciro vai continuar dizendo que a condenação imposta ao ex-presidente foi injusta para não desagradar uma parte do eleitorado que disputa com o petismo.
Na luta para garantir que o PT tenha alguma relevância nestas eleições (e continue na condição de protagonista da política brasileira), Lula facilitou a vida do Bolsonaro, pois enfraqueceu um importante rival do mesmo.