Fracasso previsível de Alckmin e o futuro do PSDB

Qual o futuro do Partido da Social Democracia?

O derretimento da candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) é um dos assuntos na eleição de 2018. Na verdade o derretimento nem é a palavra certa já que Alckmin nunca teve um gás que impulsionasse sua candidatura para mais de 10% nas pesquisas. Vários fatores, mas é possível resumir em alguns pontos determinantes.

ERROS DO PSDB

O partido trocou a razão pela irracionalidade logo após perder a quarta disputa presidencial para o PT há quatro anos. Foi dolorido como perdeu, só que deveria ter esfriado a cabeça e agido com racionalidade e não ter embarcado na onda de radicais contestando o resultado eleitoral sem fatos concretos. Não reconhecer o resultado pedindo recontagem de votos, entrar com pedido para que Aécio Neves fosse diplomado no lugar da vencedora Dilma Rousseff, entrar com pedido de impugnação da chapa no TSE apenas para “encher o saco“, só embarcando no impeachment na última hora e no governo de Michel Temer para pular fora justo na hora que deveria apoiar o governo e as reformas tão importantes para o país, principalmente a previdenciária, falta de timing impressionante.

Mas, como sempre, o PSDB ficou no velho muro tucano e não sabia se ficava no governo ou passava para oposição depois do escândalo JBS. Sem falar no problema chamado Aécio e as gravações constrangedoras com Joesley Batista. Enquanto isso, Jair Bolsonaro ocupava o espaço que o tucanato ocupou na polarização com o PT, além de ampliar essa polarização para todo o sistema pós-redemocratização.

ERROS DO ALCKMIN E ENFADO DO PSDB EM SÃO PAULO

Geraldo Alckmin errou demais na estratégia de montagem de sua candidatura desde quando ainda era governador. A começar por ter ficado contra o impeachment – nos bastidores – ao ponto de chamar o presidente Temer de “ilegítimo”, ajudando a narrativa petista que o impeachment foi um “golpe”. Errou ao ter falhado e deixado João Doria (PSDB) e Márcio França (PSB) se lançarem candidatos na sua sucessão ao Palácio Bandeirantes. A ilusão de palanque duplo em São Paulo está cobrando seu preço e Alckmin está com míseros 12% no estado que governou por quatro mandatos, o último terminado só alguns meses atrás por renúncia obrigatória para disputar a presidência, perdendo para Bolsonaro e até Haddad, que foi escorraçado da prefeitura da capital e carrega a forte rejeição ao petismo entre os paulistas.

Além desses erros políticos, há contra Alckmin fortes denúncias de corrupção contra suas últimas campanhas, seu governo e contra membros graúdos do seu partido, o excesso de carisma de um chuchu; 24 anos de governos tucanos no estado chegando ao enfado, fissuras internas no PSDB, apostar quase todas as fichas no tempo de TV e rádio levando para chapa o peso de partidos repletos de denunciados e réus que, em muitos estados, estão em campanha para os rivais do tucano se ancorando na popularidade do Jair ou de Lula.

Juntando todos esses fatores se conclui que a candidatura de Geraldo Alckmin não decolar é o normal. É uma candidatura que estava fadada ao fracasso. A grande dúvida é o que acontecerá com o Partido da Social Democracia Brasileira não passando nem para o segundo turno presidencial. Vai ressurgir mais forte e diferente ou vai continuar minguando até não existir mais.

Nem cinco minutos guardados

Virou tarefa difícil acessar aqueles cinco minutos guardados

Maria Carolina Gontijo

Eu comecei esse texto mais ou menos umas 5 vezes. Provavelmente o mesmo número de guinadas na campanha do Geraldo Alckmin em 2018. A proposta original seria escrever sobre os programas de TV dos candidatos. Mas quem disse que eu, como boa mineira, recuso um velho e bom clássico, disputa, rivalidade? Jamais. E foi assim que eu me peguei presa ao PT x PSDB mais sem graça que esse país já viu.

Tempo na TV. Todo mundo quer tempo na TV. Quando a pessoa topa se submeter a um confinamento por 3 meses sendo monitorada 24hs por dia o que ela quer? Tempo na TV. Pois bem, feliz 2002 pra vocês também.

O PSDB parece desconhecer algo que os heróis do Big Brother já perceberam tempos atrás: não importa mais o tempo de TV, importa criar uma identidade, um discurso, e capitalizar isso através de pessoas dispostas a seguir você. Aquele aparelho que durante décadas reinou soberano na sala não é mais a única plataforma para conseguir ser ouvido. Pior: sequer é a plataforma preferida de quem quer ouvir. Por mais estranho que possa parecer, o brasileiro parece estar deixando de ter tempo para a TV.

Eu sempre fui uma fã do horário eleitoral gratuito na TV (eu tenho gostos peculiares, você não iria entender). Assistia atenta, gostava dos roteiros, das músicas (um abraço do Paulino!), lembro de adorar a campanha do Azeredo para Governador (“pode por um ‘x’ no lugar certo” – e me desculpar por isso). Pois bem. Após mais de 15 dias de campanha na tv, eu assisti espontaneamente a um total de zero programas. Sim. Zero. Bolinha. Nada. Se eu troquei de canal na hora? Não. Eu simplesmente não tive tempo, não coincidiu o horário, não ornou, não alinhou. Não vi.

Em pouco mais de 5min de programa, Geraldo Alckmin parece mais um quadro do Programa do Gugu. Tem grávida, tem esposa comprometida com a causa social, tem história comovente de alguém que conseguiu uma vida melhor por obra e graça do Governo de São Paulo. Com voz calma, serena, e uma narradora que fala em uma velocidade que pressupõe déficit cognitivo do telespectador, Geraldo parece completamente descolado da realidade do país que subiu numa montanha russa em 2013 e está lá, até hoje, em looping. Tudo é devagar, tudo é tranquilo, tudo é ex-pli-ca-do. Ok, eu concordo que seria tudo ótimo, não estivesse tudo isso em total descompasso com o momento político. Ao PSDB parece faltar a máxima dos Big Brothers: use a TV para despertar o interesse fora da TV. O programa acaba e você só tem vontade de ser educado: dizer “não, Geraldo”, mas acrescentar o obrigado.

Com pouco mais de 2min e meio de programa, a coligação do PT, que claramente está disputando a presidência em forma de entidade espiritual, optou por não lançar um candidato e sim um emaranhado de lembranças de um tempo-bom-que-não-volta-nunca-mais. O programa é tão interessante quanto surreal, o que acaba ativando aquela curiosidade que nos leva a assistir “Eu não sabia que estava grávida”, no Discovery Home and Health. É tudo tão fora da realidade que a gente se pergunta se realmente existe gente assim. Mas existe. Muita. E com menos da metade do tempo do Alckmin, o PT parece compreender muito melhor a dinâmica da TV ao entregar um saudosismo de ocasião aliado a uma raiva pré-moldada.

Seria apenas mais um Galo x Cruzeiro na história do país que abraça dualidades por natureza, não fosse um pequeno grande detalhe: parte da torcida olha para o campo e não se reconhece mais no time. De repente bate aquele sentimento de “time apático perdendo por 3×0 num mata-mata” e aos 39min do segundo tempo o mais sensato a fazer parece ser fugir do trânsito. Esquecer esse jogo.

Ao contrário do PT, nunca houve uma identificação do brasileiro com o PSDB. Claro, havia aquela simpatia por ideias, por programas, por líderes. Mas por partido? Arrisco dizer que não. Basta ver o que Minas Gerais impôs ao PSDB nas eleições para o Governo do Estado em 2014. Não, o PSDB não elege postes (e aqui nem vou entrar no mérito se isso é bom ou ruim). Mas pelo menos, até 2014, não quebrava as lâmpadas dos que já estavam funcionando.

Se o Lula tem teflon, como disseram tempos atrás, o PSDB é aquela panela de fundo triplo inox: quer convencer que é boa, que é econômica, que mantém a comida aquecida por mais tempo… mas haja água quente pra limpar o que gruda. E tudo gruda. A gente fica com aquela sensação de que se não ficar de olho, vai estragar tudo. E em tempos de fritadeira elétrica, ninguém quer vigiar panela.

O tempo passou e está cada dia mais escasso. Ninguém ouve áudio de 2 minutos. Enquanto os caciques do PSDB vendem a (nossa) alma para conseguir mais minutos de TV, qualquer youtuber sabe que 5 minutos é tempo demais para prender a atenção de alguém. Antes fácil até para um cigarro, virou tarefa difícil acessar aqueles cinco minutos guardados de cada pessoa.

Onde eu quero chegar? Não adianta ter todo o tempo do mundo para propagandear, se o que você tem para vender é um produto que ninguém quer comprar agora. Que não se encaixa. Que soa antigo. Pior: que tem um fabricante com fama duvidosa. Esse tipo de estratégia só faz sentido quando existem fãs incondicionais da marca. Daqueles que dormem na porta de estabelecimentos comerciais e prisionais por mais um lampejo de consumo de produtos e ideias. Não é nem de longe o caso do PSDB.

Maria Carolina Gontijo é mineira e advogada tributarista

Tucanato em chamas

Pegando todos de surpresa, Aécio Neves resolveu retomar o mandato de presidente do PSDB, afastar Tasso Jereissati do cargo, entregar a presidência para o vice mais velho, Alberto Goldman, para cuidar da convenção do partido em dezembro e a eleição do novo diretório nacional. Segundo Aécio, tudo em nome da isonomia porque Tasso lançou sua candidatura à presidência do PSDB contra Marconi Perillo, o candidato da turma do Aécio.

Na coletiva para jornalistas após ato de Aécio, Tasso soltou uma frase que sintetiza o momento de grave divisão interna que vai além do eterno “muro tucano”: “Esse PSDB desses caras não é o meu PSDB”.

Os apoiadores de Tasso saíram atacando Aécio Neves e acusaram de tomar o partido. Ricardo Ferraço chegou a chamar Aécio de “coronel de quinta“.

Vereador por São Paulo e crítico do senador mineiro, Mário Covas Neto disse que espera uma reação do partido ao ato de Aécio Neves até segunda-feira ou estará livre para “procurar um novo caminho” (leia-se procurar outro partido).

Deputado por Pernambuco, Daniel Coelho comparou a situação do PSDB nacional com o diretório estadual pernambucano e defendeu Tasso, que para ele não se curvou ao presidente Michel Temer, Aécio e Bruno Araújo (min. das Cidades).

Doria vice de Alckmin é uma ideia tão errada que é a cara do PSDB

Uma candidatura tucana puro sangue paulista não agregaria votos nem em São Paulo

Uma nota no Painel da Folha afirma que João Doria cogita ser vice-presidente na chapa de Geraldo Alckmin. O prefeito acredita que a dobradinha tucana-paulista pode catapultar o PSDB em 2018. É mais fácil o Doria ser candidato por outro partido do que ser o vice do Alckmin. É notícia plantada por um grupo político para sentir a recepção ou barrigada da Folha. Sem falar que seria um baita tiro no pé da candidatura do PSDB dois nomes de São Paulo na chapa presidencial.

O vice de Alckmin, ou de outro tucano, tem que ser do Nordeste ou Minas Gerais, de preferência de Minas, o maior colégio eleitoral e que o PSDB foi derrotado nas últimas disputas para presidente, governador e prefeito de Belo Horizonte.

Uma candidatura tucana puro sangue paulista não agregaria votos nem em São Paulo, onde os tucanos já dominam. Pior ainda no restante do país. PSDB está no caminho certo para perder mais uma disputa presidencial. Fingindo ser oposição ao Michel Temer tendo quatro ministros e com o “peso Aécio” amarrado no barco, o partido caminha para o ostracismo até antes do PT.

O PSDB não soube aproveitar a “onda azul” na qual deu 50 milhões de votos ao partido no segundo turno de 2014.

PSDB se esfacelando em praça pública

A briga entre Goldman e Doria vem desde 2016, quando Goldman, Serra, FHC queriam Andreia Matarazzo para candidato a prefeito de São Paulo

O prefeito de São Paulo, João Doria, respondeu o ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman. Goldman gravou um vídeo fazendo críticas duras ao prefeito, chegando a dizer que “São Paulo não tem prefeito”. Também em vídeo, Doria deu a resposta e não contemporizou, disse que Alberto Goldman é “medíocre”, “viveu a vida inteira à sombra de Orestes Quércia e José Serra”, que “coleciona fracassos”.

Definitivamente, o PSDB está lavando roupa suja em praça pública, o que não é bem uma novidade. Só que agora é uma disputa quase que definitiva. O partido da social democracia, que foi duramente atingindo pelo caso Aécio Neves, está se esfacelando. Hoje é mais fácil João Doria sair do que ficar no PSDB.

A briga entre Goldman e Doria vem desde 2016. Goldman, Serra, FHC queriam Andreia Matarazzo para candidato a prefeito de São Paulo, de preferência por consenso. Geraldo Alckmin brigou contra os caciques tucanos para ter prévias na disputa municipal e Doria venceu o primeiro turno das prévias após muita confusão com brigas entre militâncias dos candidatos.

Acusando Alckmin e Doria de compra de votos, Matarazzo desistiu do segundo turno e saiu do PSDB – disputou a eleição como vice de Marta Suplicy pelo PSD, de Kassab -, Doria ficou com caminho livre para ser o candidato e venceu a eleição no primeiro turno – feito inédito em São Paulo. Alberto Goldman entrou com representação no MP/SP contra João Doria, mas não conseguiu provas das acusações.

O PSDB está se implodindo. Durante o impeachment de Dilma Rousseff muitos apostaram que era o fim do PT, mas é o PSDB que está derretendo. E facilitando a vida de Jair Bolsonaro, faltando exatamente um ano para a eleição de 2018.