Nem cinco minutos guardados

Virou tarefa difícil acessar aqueles cinco minutos guardados

Maria Carolina Gontijo

Eu comecei esse texto mais ou menos umas 5 vezes. Provavelmente o mesmo número de guinadas na campanha do Geraldo Alckmin em 2018. A proposta original seria escrever sobre os programas de TV dos candidatos. Mas quem disse que eu, como boa mineira, recuso um velho e bom clássico, disputa, rivalidade? Jamais. E foi assim que eu me peguei presa ao PT x PSDB mais sem graça que esse país já viu.

Tempo na TV. Todo mundo quer tempo na TV. Quando a pessoa topa se submeter a um confinamento por 3 meses sendo monitorada 24hs por dia o que ela quer? Tempo na TV. Pois bem, feliz 2002 pra vocês também.

O PSDB parece desconhecer algo que os heróis do Big Brother já perceberam tempos atrás: não importa mais o tempo de TV, importa criar uma identidade, um discurso, e capitalizar isso através de pessoas dispostas a seguir você. Aquele aparelho que durante décadas reinou soberano na sala não é mais a única plataforma para conseguir ser ouvido. Pior: sequer é a plataforma preferida de quem quer ouvir. Por mais estranho que possa parecer, o brasileiro parece estar deixando de ter tempo para a TV.

Eu sempre fui uma fã do horário eleitoral gratuito na TV (eu tenho gostos peculiares, você não iria entender). Assistia atenta, gostava dos roteiros, das músicas (um abraço do Paulino!), lembro de adorar a campanha do Azeredo para Governador (“pode por um ‘x’ no lugar certo” – e me desculpar por isso). Pois bem. Após mais de 15 dias de campanha na tv, eu assisti espontaneamente a um total de zero programas. Sim. Zero. Bolinha. Nada. Se eu troquei de canal na hora? Não. Eu simplesmente não tive tempo, não coincidiu o horário, não ornou, não alinhou. Não vi.

Em pouco mais de 5min de programa, Geraldo Alckmin parece mais um quadro do Programa do Gugu. Tem grávida, tem esposa comprometida com a causa social, tem história comovente de alguém que conseguiu uma vida melhor por obra e graça do Governo de São Paulo. Com voz calma, serena, e uma narradora que fala em uma velocidade que pressupõe déficit cognitivo do telespectador, Geraldo parece completamente descolado da realidade do país que subiu numa montanha russa em 2013 e está lá, até hoje, em looping. Tudo é devagar, tudo é tranquilo, tudo é ex-pli-ca-do. Ok, eu concordo que seria tudo ótimo, não estivesse tudo isso em total descompasso com o momento político. Ao PSDB parece faltar a máxima dos Big Brothers: use a TV para despertar o interesse fora da TV. O programa acaba e você só tem vontade de ser educado: dizer “não, Geraldo”, mas acrescentar o obrigado.

Com pouco mais de 2min e meio de programa, a coligação do PT, que claramente está disputando a presidência em forma de entidade espiritual, optou por não lançar um candidato e sim um emaranhado de lembranças de um tempo-bom-que-não-volta-nunca-mais. O programa é tão interessante quanto surreal, o que acaba ativando aquela curiosidade que nos leva a assistir “Eu não sabia que estava grávida”, no Discovery Home and Health. É tudo tão fora da realidade que a gente se pergunta se realmente existe gente assim. Mas existe. Muita. E com menos da metade do tempo do Alckmin, o PT parece compreender muito melhor a dinâmica da TV ao entregar um saudosismo de ocasião aliado a uma raiva pré-moldada.

Seria apenas mais um Galo x Cruzeiro na história do país que abraça dualidades por natureza, não fosse um pequeno grande detalhe: parte da torcida olha para o campo e não se reconhece mais no time. De repente bate aquele sentimento de “time apático perdendo por 3×0 num mata-mata” e aos 39min do segundo tempo o mais sensato a fazer parece ser fugir do trânsito. Esquecer esse jogo.

Ao contrário do PT, nunca houve uma identificação do brasileiro com o PSDB. Claro, havia aquela simpatia por ideias, por programas, por líderes. Mas por partido? Arrisco dizer que não. Basta ver o que Minas Gerais impôs ao PSDB nas eleições para o Governo do Estado em 2014. Não, o PSDB não elege postes (e aqui nem vou entrar no mérito se isso é bom ou ruim). Mas pelo menos, até 2014, não quebrava as lâmpadas dos que já estavam funcionando.

Se o Lula tem teflon, como disseram tempos atrás, o PSDB é aquela panela de fundo triplo inox: quer convencer que é boa, que é econômica, que mantém a comida aquecida por mais tempo… mas haja água quente pra limpar o que gruda. E tudo gruda. A gente fica com aquela sensação de que se não ficar de olho, vai estragar tudo. E em tempos de fritadeira elétrica, ninguém quer vigiar panela.

O tempo passou e está cada dia mais escasso. Ninguém ouve áudio de 2 minutos. Enquanto os caciques do PSDB vendem a (nossa) alma para conseguir mais minutos de TV, qualquer youtuber sabe que 5 minutos é tempo demais para prender a atenção de alguém. Antes fácil até para um cigarro, virou tarefa difícil acessar aqueles cinco minutos guardados de cada pessoa.

Onde eu quero chegar? Não adianta ter todo o tempo do mundo para propagandear, se o que você tem para vender é um produto que ninguém quer comprar agora. Que não se encaixa. Que soa antigo. Pior: que tem um fabricante com fama duvidosa. Esse tipo de estratégia só faz sentido quando existem fãs incondicionais da marca. Daqueles que dormem na porta de estabelecimentos comerciais e prisionais por mais um lampejo de consumo de produtos e ideias. Não é nem de longe o caso do PSDB.

Maria Carolina Gontijo é mineira e advogada tributarista

Avatar de Desconhecido

Autor: Brasil Decide

Política e democracia

Descubra mais sobre Brasil Decide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading