
Começou no espaço de comentários das notícias de portais, com as redes sociais ganharam voz, ganhou as ruas e chegou no Congresso Nacional o clima de beligerante, de ódio, intolerância misturados com racismo. Deputado Coronel Tadeu (PSL/SP) protagonizou ontem o que talvez tenha sido o dia mais sombrio do Parlamento desde que o Ato Institucional nº 5 fechou o mesmo no ano de 1968. Inconformado com uma charge em uma exposição na Câmara pelo Dia da Consciência Negra, o deputado teve um ataque de fúria e quebrou o quadro[1] com a charge vandalizando o próprio local de trabalho.
Não parou aí. No plenário um colega de Tadeu, Daniel Silveira (PSL/RJ), o mesmo que participou da quebra de uma placa de homenagem a Marielle Franco, não teve pudor de vomitar falas racistas[2]. Os racistas perderam o medo de se expor e muitos se escondem na liberdade de expressão (que não é absoluta) para falar as maiores barbaridades, alguns ancorados na imunidade parlamentar (também não é absoluta) e no discurso contra o politicamente correto.
O episódio da charge vandalizada por um deputado lembrou o atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo por terroristas islâmicos já no longínquo ano de 2015[3]. Assim como os terroristas que se sentiram ofendidos por charges sobre Maomé, Tadeu se ofendeu com a charge do cartoonista Carlos Latuff retratando mortes de negros pela polícia brasileira.
Há meios não violentos para buscar reparação caso a pessoa sinta sua honra ferida. É para isso que existe a Justiça. Nesses tempos, porém, vale mais o espetáculo que gera mídia. Tadeu sabia que sua atitude teria respaldo de parcela da sociedade que não guarda mais pra si o seu racismo e todo tipo de discriminação. Muita gente aplaudiu a sua atitude e deve ter garantido sua reeleição até ampliando os quase 100 mil votos que teve em 2018.
Fora a violência e vandalismo do ato, o caso acontecer no dia que é divulgado a conclusão da investigação da Polícia Civil do Rio que mostra que o tiro que matou a criança Ágatha Félix[4] (negra) foi de um PM[5], na véspera do Dia da Consciência Negra, de um estudo que mostra que o desemprego cresceu entre negros e pardos, que 4 de 5 resgatados de trabalho escravo são negros[6], não poderia ser mais simbólico.
O Brasil só libertou os negros da escravidão há 131 anos. Foram 388 anos desde a chegada dos portugueses a Ilha de Vera Cruz, 80 anos da chegada da família imperial portuguesa ao Brasil, 66 da independência de Portugal. E a Lei Áurea[7] apenas abriu a porta das senzalas despejando os negros nas ruas só com os trapos que cobriam o corpo sem qualquer assistência e reparação por terem sido arrancados de sua terra original como se fossem uma mercadoria.
Por isso que a política de cotas para negros nas universidade não é o ideal, mas necessária e pesquisa recente comprova que foi exitosa[8]. Qualquer política de compensação para a comunidade negra é necessária. Mesmo que não repare séculos de sofrimento de um povo que construiu esse país que o pagamento foi “se virem”.