Ilusão da liberdade

Começou no espaço de comentários das notícias de portais, com as redes sociais ganharam voz, ganhou as ruas e chegou no Congresso Nacional o clima de beligerante, de ódio, intolerância misturados com racismo. Deputado Coronel Tadeu (PSL/SP) protagonizou ontem o que talvez tenha sido o dia mais sombrio do Parlamento desde que o Ato Institucional nº 5 fechou o mesmo no ano de 1968. Inconformado com uma charge em uma exposição na Câmara pelo Dia da Consciência Negra, o deputado teve um ataque de fúria e quebrou o quadro com a charge vandalizando o próprio local de trabalho.

Não parou aí. No plenário um colega de Tadeu, Daniel Silveira (PSL/RJ), o mesmo que participou da quebra de uma placa de homenagem a Marielle Franco, não teve pudor de vomitar falas racistas. Os racistas perderam o medo de se expor e muitos se escondem na liberdade de expressão (que não é absoluta) para falar as maiores barbaridades, alguns ancorados na imunidade parlamentar (também não é absoluta) e no discurso contra o politicamente correto.

O episódio da charge vandalizada por um deputado lembrou o atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo por terroristas islâmicos já no longínquo ano de 2015. Assim como os terroristas que se sentiram ofendidos por charges sobre Maomé, Tadeu se ofendeu com a charge do cartoonista Carlos Latuff retratando mortes de negros pela polícia brasileira.

Há meios não violentos para buscar reparação caso a pessoa sinta sua honra ferida. É para isso que existe a Justiça. Nesses tempos, porém, vale mais o espetáculo que gera mídia. Tadeu sabia que sua atitude teria respaldo de parcela da sociedade que não guarda mais pra si o seu racismo e todo tipo de discriminação. Muita gente aplaudiu a sua atitude e deve ter garantido sua reeleição até ampliando os quase 100 mil votos que teve em 2018.

Fora a violência e vandalismo do ato, o caso acontecer no dia que é divulgado a conclusão da investigação da Polícia Civil do Rio que mostra que o tiro que matou a criança Ágatha Félix (negra) foi de um PM, na véspera do Dia da Consciência Negra, de um estudo que mostra que o desemprego cresceu entre negros e pardos, que 4 de 5 resgatados de trabalho escravo são negros, não poderia ser mais simbólico.

O Brasil só libertou os negros da escravidão há 131 anos. Foram 388 anos desde a chegada dos portugueses a Ilha de Vera Cruz, 80 anos da chegada da família imperial portuguesa ao Brasil, 66 da independência de Portugal. E a Lei Áurea apenas abriu a porta das senzalas despejando os negros nas ruas só com os trapos que cobriam o corpo sem qualquer assistência e reparação por terem sido arrancados de sua terra original como se fossem uma mercadoria.

Por isso que a política de cotas para negros nas universidade não é o ideal, mas necessária e pesquisa recente comprova que foi exitosa. Qualquer política de compensação para a comunidade negra é necessária. Mesmo que não repare séculos de sofrimento de um povo que construiu esse país que o pagamento foi “se virem”.

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Autor: Brasil Decide

Editor-chefe: João Paulo

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