Partido Novo e seu liberalismo capenga

Em política o que vale é a percepção e ações, e não só retórica vazia

A Câmara dos Deputados aprovou a Convenção Interamericana contra o racismo da OEA (Organização dos Estados Americanos). Fez bastante barulho o partido Novo ser o único a indicar voto contrário e seus oito deputados votaram contra juntos com alguns deputados bolsonaristas. A conta da bancada do partido no Twitter tentou se defender em uma sequência de tuites e a explicação saiu pior se tivessem deixado quieto.

Um dos argumentos para votar contra é que só 5 dos 35 membros da OEA ratificaram a convenção. O parlamento brasileiro tem que fazer a sua parte e o melhor para o país sem ficar copiando os outros. E a convenção diz que bastam 2 países ratificarem para valer.

Outro argumento é que o tratado prevê aprovação como status de emenda constitucional. É a própria Constituição no seu artigo 5° que diz que os tratados sobre direitos humanos, se aprovados pelo parlamento por três quintos, em dois turnos na Câmara e Senado, passam a ser emendas constitucionais. Não entendi o Novo ser contra medidas contra o racismo na Constituição. Concordo que tudo ir para Constituição não é bom. Só que dispositivos contra a discriminação racial em um país que só acabou com a escravidão de negros há 132 anos dos seus 520 e de forma precária jogando os negros à própria sorte, toda iniciativa contra o racismo é válida e melhor está garantida na Constituição.

Já o próximo argumento é tipo dos que defendem a meritocracia em um país como o Brasil, um país que uns largam em condições muito melhores. Não conhecem o seu próprio país ou pouco se importam com as dificuldades dos outros e a comunidade em geral.

O partido diz que a convenção pode abrir brecha para a implementação de cotas parlamentares. Nesse item eu estou com o partido e sou contra qualquer tipo de cota no parlamento, para mulheres, negros, imigrantes, baixos, carecas. Não é separando vagas específicas na política que veremos mais mulheres nela e negros mais bem representados no poder. Mas é se adiantar no que não está em discussão. Existem várias medidas afirmativas.

Votando contra um tratado contra o racismo o Novo comete dois erros crassos: fica contra uma medida por princípio meritosa em um partido com grave problema de falta de representatividade. O outro é que vai inevitavelmente carregar a pecha de “partido racista”, mesmo que o voto contra não seja por racismo.

Em política o que vale é a percepção e ações, e não só retórica vazia. O partido que nasceu para ser o representante do liberalismo no Brasil está longe de representar o liberalismo político e social. Liberalismo não é só uma vertente econômica. É por isso o partido teve desempenho aquém do imaginado nas eleições de 2020, mesmo elegendo o seu primeiro prefeito – em Joinville/SC.

Ilusão da liberdade

Começou no espaço de comentários das notícias de portais, com as redes sociais ganharam voz, ganhou as ruas e chegou no Congresso Nacional o clima de beligerante, de ódio, intolerância misturados com racismo. Deputado Coronel Tadeu (PSL/SP) protagonizou ontem o que talvez tenha sido o dia mais sombrio do Parlamento desde que o Ato Institucional nº 5 fechou o mesmo no ano de 1968. Inconformado com uma charge em uma exposição na Câmara pelo Dia da Consciência Negra, o deputado teve um ataque de fúria e quebrou o quadro com a charge vandalizando o próprio local de trabalho.

Não parou aí. No plenário um colega de Tadeu, Daniel Silveira (PSL/RJ), o mesmo que participou da quebra de uma placa de homenagem a Marielle Franco, não teve pudor de vomitar falas racistas. Os racistas perderam o medo de se expor e muitos se escondem na liberdade de expressão (que não é absoluta) para falar as maiores barbaridades, alguns ancorados na imunidade parlamentar (também não é absoluta) e no discurso contra o politicamente correto.

O episódio da charge vandalizada por um deputado lembrou o atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo por terroristas islâmicos já no longínquo ano de 2015. Assim como os terroristas que se sentiram ofendidos por charges sobre Maomé, Tadeu se ofendeu com a charge do cartoonista Carlos Latuff retratando mortes de negros pela polícia brasileira.

Há meios não violentos para buscar reparação caso a pessoa sinta sua honra ferida. É para isso que existe a Justiça. Nesses tempos, porém, vale mais o espetáculo que gera mídia. Tadeu sabia que sua atitude teria respaldo de parcela da sociedade que não guarda mais pra si o seu racismo e todo tipo de discriminação. Muita gente aplaudiu a sua atitude e deve ter garantido sua reeleição até ampliando os quase 100 mil votos que teve em 2018.

Fora a violência e vandalismo do ato, o caso acontecer no dia que é divulgado a conclusão da investigação da Polícia Civil do Rio que mostra que o tiro que matou a criança Ágatha Félix (negra) foi de um PM, na véspera do Dia da Consciência Negra, de um estudo que mostra que o desemprego cresceu entre negros e pardos, que 4 de 5 resgatados de trabalho escravo são negros, não poderia ser mais simbólico.

O Brasil só libertou os negros da escravidão há 131 anos. Foram 388 anos desde a chegada dos portugueses a Ilha de Vera Cruz, 80 anos da chegada da família imperial portuguesa ao Brasil, 66 da independência de Portugal. E a Lei Áurea apenas abriu a porta das senzalas despejando os negros nas ruas só com os trapos que cobriam o corpo sem qualquer assistência e reparação por terem sido arrancados de sua terra original como se fossem uma mercadoria.

Por isso que a política de cotas para negros nas universidade não é o ideal, mas necessária e pesquisa recente comprova que foi exitosa. Qualquer política de compensação para a comunidade negra é necessária. Mesmo que não repare séculos de sofrimento de um povo que construiu esse país que o pagamento foi “se virem”.

Perdigão é o novo alvo da patrulha

O Brasil cansa. Na verdade o que cansa são esses pseudos “justiceiros sociais” que se intitulam agora de “resistência” a um governo que nem começou. E ainda se dizem resistência em nome de terceiros como se tivessem uma procuração assinada por negros, homossexuais, índios, mulheres, anões etc.

A nova implicância da turma da resistência “ninguém solta a mão de ninguém” é com um comercial de natal da Perdigão. O comercial mostra duas famílias na ceia natalina e a mensagem é caridade, doar para quem precisa. A turma não gostou e está acusando o comercial de ser racista e incentivar o assistencialismo no lugar de caridade e solidariedade.

Mas no próprio vídeo (abaixo) do comercial você percebe que a família que recebe a doação não é homogênea. É uma família típica brasileira formada por negros, brancos e pardos. A teoria que uma família negra está sorrindo por um presente de uma família branca representando o racismo não se sustenta e apenas desacredita a caridade, a solidariedade.

O que está por trás desse mais novo protesto raivoso é o medo de perder o monopólio da virtude – seriamente ameaçado. Só quem é progressista pode levantar bandeiras supostamente de esquerda. Uma empresa capitalista não tem o direito a usurpar bandeiras da esquerda, dizem os justiceiros sociais de internet. Tudo tem que ficar no seu lugar: capitalistas opressores vs justiceiros sociais anjos da guarda dos oprimidos.

Não se tocaram ainda que essa narrativa oprimido vs opressor está desgastada. A derrota nas urnas não foi recado suficiente da população cansada da ditadura do politicamente correto, de inversões de valores muito um projeto de domínio pensado por grupos organizados e partidos políticos que usam bandeiras sérias contra o racismo, homofobia, machismo para fins não nobres.

França não é africana

Analogia da França africana é racista

França conquistou a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a segunda de sua história futebolística. Venceu com muitos méritos técnicos, tático e uma pitada de sorte durante a campanha na terra de Putin.

Mas algumas pessoas tentam diminuir o mérito da seleção francesa com a racista analogia de que seria uma “seleção africana”. É racista por negar a cidadania francesa aos jogadores filhos de imigrantes e descendentes de países africanos. Seguindo o raciocínio de quem defende fronteiras abertas, se a Croácia, uma “seleção de brancos”, tivesse sido a campeã, a culpa seria dos negros imigrantes e descendentes. Na ânsia de mandar aquele “lacre” e tentar ideologizar o título da França, essa turma não percebe essas incoerências.

Outro ponto é que a seleção francesa não é de imigrantes ou naturalizados. Apesar de muitos jogadores de origem não francesa no grupo de campeões, apenas 2 dos 23 convocados pelo técnico Didier Deschamps são nascidos em outros países.

Ter jogadores descendentes campeões o Brasil teve de baciada nas 5 conquistas nem por isso não tentam diminuir nossas conquistas. Até porque o imigrante migra para outro país para melhorar de vida ou fugindo de guerras, perseguições do seu país natural. Todos os jogadores com origem africana da França não teriam a menor chance de ganhar a Copa do Mundo se optassem por jogar pelo país de seus descendentes. A seleção da França oferece estrutura e tradição no futebol para os jogadores, o que ainda está longe se ser uma realidade para o futebol africano.

Não adianta levar a discussão sobre imigração para os extremos. A solução de qualquer problema não é levar para os extremos. Não criminalizando e sendo racista com os imigrantes ou criando teorias conspiratórias amalucadas, tampouco abrindo as fronteiras sem um mínimo de controle e sair em defesa da imigração ilegal. Eu não tenho a solução e sei que um debate racional em um ambiente tóxico é impossível.

William Waack segue seu caminho sendo um jornalista super qualificado

William Waack escreveu um artigo excelente publicado na Folha de São Paulo (aqui). É verdade que a “piada” que ele fez lá nos Estados Unidos durante a cobertura das eleições em novembro de 2016, e o vídeo só foi vazado mais de um ano depois, foi uma mancha na grandiosa carreira desse jornalista de currículo invejável.

Mas não se pode querer aniquilar com ele ou queima-lo na fogueira. Foi um ato racista, William não é racista. A Globo o suspendeu e não tinha outro caminho sem ser rescindir o contrato com Waack, pois se reintegra estaria comprovado que a emissora cometeu injustiça com ele.

Livre para trabalhar em outro veículo, William Waack pode ser contratado pela rádio Jovem Pan. Bom para ele recomeçar em um novo ambiente e para rádio que vai ter em seus quadros um jornalista dos mais qualificados no mercado.

Nada de linchamento virtual ou caça às bruxas por uma fala infeliz.