Liberalismo “guediano”

As reformas apresentadas por Bolsonaro-Guedes são necessárias, mas há exageros inaceitáveis

Paulo Guedes fala de uma liberal-democracia depois de 30 anos de social-democracia no Brasil. As definições de uma democracia liberal do ministro são contestáveis por jogar no mesmo balde ideológico Armínio Fraga, Gustavo Franco, Bresser-Pereira, Guido Mantega. A definição do liberalismo de Guedes é um capitalismo radical, não é o Estado mínimo de Adam Smith.

Nosso “tigrão” defende que a iniciativa privada deve operar não só a economia como áreas que são obrigações do Estado. A última é querer tirar da Constituição a obrigação estatal de construir escolas onde faltar vagas e eliminar a função de diminuir a desigualdade regional. Mas a grande última maldade é querer taxar mais de 7% o seguro-desemprego em um país com 12 milhões sem empregados, outros milhões sub-empregados e outros tantos que já desistiram de procurar emprego.

O livre mercado pressupõe o Estado não interferir na economia desburocratizando, reduzindo a carga tributária, fomentando a concorrência, para a presença estatal ser limitada nas áreas de defesa, lei, ordem, educação e eu acrescentaria a seguridade social. Guedes, ao contrário, defende que a iniciativa privada é que deve cuidar inclusive de área sociais. Seu liberalismo está mais para anarcocapitalismo do que o liberalismo clássico.

Paulo Guedes soltou na última semana que o governo de Jair Bolsonaro está fazendo 40 anos em 4, parafraseando JK e o seu slogan 50 anos em 5. É melhor tomar cuidado para o país não retroceder 100 anos em 1. As reformas apresentadas por Bolsonaro-Guedes são necessárias, mas há exageros inaceitáveis. Na Previdência, por exemplo, o Congresso depurou os absurdos e aprovou uma boa reforma. Guedes fez cara de choro e reclamou que os parlamentares estavam “abortando a Nova Previdência” ao retirarem da PEC a autorização para a famigerada capitalização nos moldes do modelo chileno. Fora mudanças na aposentadoria rural, abono salarial e no BPC que também caíram. No final teve que aceitar a regra democrática elogiando os congressistas.

Paulo Guedes já mostrou que não entende nada de Brasil e a cada dia mostra que seu entendimento de economia é limitado ao passado. Ficou preso na década de 1980 quando foi para o Chile de Pinochet, até por isso também tem dificuldade de entender a democracia representativa. Achar que empresários vão sair investindo apenas porque o governo cortou encargos trabalhistas desonerando a folha é rudimentar ou é apenas serviçal do capitalismo financeiro. A grande diferença do capitalismo financeiro para o capitalismo industrial é que o primeiro investe o dinheiro no próprio dinheiro para o desfrute de alguns poucos enquanto o segundo investe em produtos para a população, que gera empregos, lucro para as empresas, tributos para o governo e faz a economia do país rodar.

Mas ninguém vai investir sem perspectiva de que terá demanda para o seu produto e seu investimento vai voltar em forma de lucro. Parece que o objetivo de Guedes é liquidar com a indústria brasileira com a conversa de uma zona de livre comércio com a China, o que exterminaria de vez com a cambaleante indústria nacional. Chegou a dizer que não se importaria do Brasil perder o superávit comercial que tem com a China. Toda vez que o ministro se empolga solta uma ideia nada boa para a economia brasileira. Deveria ser menos encantado com seu fundamentalismo e ser mais pragmático. Certeza que a chance de sucesso de sua gestão aumentaria consideravelmente.

Abandonar a população à própria sorte achando que só a iniciativa privada vai resolver os problemas que o Estado tem falhado em resolver é um erro. O (neo)liberalismo de Paulo Guedes é o oposto do liberalismo clássico.

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Autor: Brasil Decide

Editor-chefe: João Paulo

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