A política não aceita vácuo

Chamar de extremismo as falas recentes de Lula é só a continuação da criminalização da política

O tema do momento nas rodas de discussões políticas da “isentosfera” é quem pode ocupar a liderança de centro para evitar o mesmo destino do segundo turno de 2018 que deixou os brasileiros entre Bolsonaro e PT. Depois de ser fulminado pela mega polarização, pela Lava Jato e ter se dividido em várias candidaturas, o centro – incluindo quem não é necessariamente centrista e não deseja que se repita o cenário de 2018 – está atrás de quem tenha força popular para rivalizar com o bolsonarismo e o lulismo. Até o momento o que se tem são apenas apostas desesperadas. E até Ciro Gomes tenta reciclar seu discurso para virar opção ao centro já que viu que não vai ter como brigar para ser o herdeiro do espólio de Lula, nem o próprio deseja isso, e o presidente Jair Bolsonaro solidificou a outra parte considerável do eleitorado.

Tentativa de juntar eleitores ao centro é uma tarefa inglória nesses tempos e complica mais quando os prováveis postulantes estão mais perdidos do que virgem em bordel. Entendo que seja difícil encontrar um discurso e plataforma política eleitoral que contemple várias tendências do centro democrático. Diferente da direita e da esquerda o centro não se define em uma única ideologia. A população cansou de “político manteiga”, de discurso dúbio, confuso e em muitos os casos passa a impressão de ser falso. Estamos na era das notícias instantâneas, das frases curtas e diretas que sejam impactantes. Em suma, tudo favorece aos candidatos memes.

A própria oposição ao governo Bolsonaro é uma prova que não há espaço para o centro. Estamos terminando o primeiro ano de Bolsonaro e precisou o Lula ser solto para ter uma oposição que pautasse o governo e não o contrário. Para não ser injusto, a única vez em 2019 que ameaçou ter um movimento de oposição grande e unificado foi na manifestação de 15 de maio contra o corte (ou contingenciamento) na educação e a “balbúrdia” do ministro, mas não durou muito e logo se dissipou.

Lula atacou a política econômica nos primeiros discursos livre e não foi com extremismo. Lula botou medo em Bolsonaro tanto que fez o presidente recuar de mandar a reforma administrativa para o Congresso. Pode ter sido por pressão de servidores. Só que o jeito que Lula discursa é o que faltava para a oposição. Faltava testosterona no discurso. Faltava falar a linguagem que a população entende. Faltava uma voz contra o discurso não civilizatório deste governo, o amadorismo político e contra algumas medidas econômicas de Paulo Guedes nas quais agravariam problemas nos serviços públicos e a desigualdade.

Extremismo não é fazer política criticando a administração opositora de modo firme. Posso não concordar com o Lula na crítica contra a reforma da Previdência, mas nunca vou achar que é extremismo da parte dele. Acho sim que é errática no meu modo de pensar economia e acho que é mais bravata dele. O próprio fez uma reforma no sistema previdenciário nos primeiros anos de seu governo que possibilitou fazer vários programas sociais o fazendo deixar o Palácio do Planalto com quase 90% de aprovação e manteve na memória de muitos a sensação de bem-estar vivido no seu governo.

Chamar de extremismo as falas recentes de Lula é só a continuação da criminalização da política.

Não é extremismo criticar a ideia de incluir inativos nos orçamentos da educação e saúde, tornando os serviços ainda mais precários. Não é extremismo criticar a “taxação das grandes pobrezas” de Guedes, mordendo mais de 7% do seguro-desemprego. Não é extremismo criticar a proposta de retirar da Constituição a obrigação do Estado em construir escolas onde faltar vagas. Não é extremismo criticar o congelamento do salário mínimo, que estudos mostram que seu ganho real na última década foi mais eficiente para diminuir a pobreza do que o Bolsa Família. Não é extremismo fazer política, mesmo de forma demagógica e populista.

Extremismo é não respeitar o Legislativo, o Judiciário e a separação de poderes; a Constituição e o Estado laico. É fazer apologia à ditaduras e ditadores, não importa se de direita ou esquerda.

Enquanto o centro não acerta o discurso e bate cabeça, Lula ocupa o espaço vazio de oposição.

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Autor: Brasil Decide

Editor-chefe: João Paulo

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