Romário, Marin, Andrés e a CBF

Leonardo Dahi

Nas Eleições de 2010, tivemos, em vários estados, muitos candidatos, digamos, inusitados. O mais conhecido deles foi Tiririca (PR/SP), o mais votado do Brasil. Se o palhaço foi o que mais causou barulho em terras paulistas, no Rio de Janeiro a surpresa ficou por conta de um polêmico ex-jogador de futebol: Romário (PSB), eleito com uma margem expressiva de votos.

A eleição do Baixinho, como era de se esperar, esteve cercada de desconfianças. Era difícil acreditar que um ex-jogador, que nunca foi dos mais disciplinados, pudesse fazer um trabalho minimamente sério em Brasília. O tempo mostraria que, bem ou mal, estávamos enganados…

O Deputado Romário

Se a fama do jogador no quesito disciplinar não era das melhores, uma coisa Romário tinha a seu favor: a conhecidíssima ausência de papas na língua e de medo de falar o que pensa, ambas fundamentais para um bom político. Até porque, sejamos sinceros, quem diz que o maior jogador da história do futebol “calado, é um poeta”, não deve ter medo de muita gente, mesmo…

E foi assim que Romário rapidamente chamou a atenção no Congresso Nacional. Defendendo o esporte, batendo de frente com seus mandatários. Não demorou para que ele escolhesse seu principal alvo: a CBF. Nos pouco mais de dois anos em que atua como deputado, o craque da Copa de 94 declarou guerra ao Presidente da instituição, José Maria Marin (como havia declarado ao antecessor, Ricardo Teixeira), denunciando vários podres do homem, inclusive os de muito atrás, como sua possível participação na morte do jornalista Vladmir Herzog, lá nos tempos da ditadura militar, que, aliás, teve a suspeita participação do referido Presidente.

Toda essa guerra fez com que a Eleição de Romário continuasse causando barulho na mídia, só que, dessa vez, de maneira altamente positiva. A maioria dos veículos jornalísticos passou a ver o Baixinho como um herói, disposto a lutar pelo nosso futebol de maneira honesta, colocando a ética e a transparência acima de tudo. Não é bem assim que a banda toca, mas, sobre isso falamos daqui a pouco…

A CBF

Por muitos anos, de 1989 a 2012, o futebol brasileiro esteve nas mãos de um homem: Ricardo Teixeira. Nesse período, muita coisa aconteceu. De várias viradas de mesa a escolha do Brasil como sede da Copa de 2014, da máfia do apito a dois títulos mundiais da Seleção Canarinho. Nos períodos bons ou nos períodos ruins, a administração de Teixeira sempre esteve sob suspeita. Nesses vinte e três anos, não faltaram acusações e escândalos: da muamba trazida dos EUA depois do tetra à CPIs (sim, no plural) que, via de regra, acabavam em pizza.

Depois de tantas CPIs, denúncias, rede de TV usando essa história para fazer guerra com a concorrente, Teixeira renunciou. Ao mesmo tempo que havia um clima de festa e esperança no ar, todos temíamos pelo seu sucessor. E esse medo viria a ser justificado: em seu lugar, entrou o tal Marin, que, meses antes, havia protagonizado uma cena patética ao roubar a medalha do goleiro reserva do Corinthians, no pódio da Copa São Paulo de Futebol Júnior, vencida pelo alvinegro.

Perto de Marin, Teixeira era um Santo. Com o novo presidente, os escândalos não pararam, a Seleção piorou, os Estaduais se tornaram ainda mais insuportáveis e o descontentamento é geral. Ou seja: mais “material” para Romário, que aumentou a porrada em cima da instituição.

Lembra daquela história da ética? É aqui que ela entra.

A jogada do Baixinho

Conhece o ditado que diz que “se você não pode com o inimigo, junte-se a ele”? É exatamente essa a nova jogada do Deputado. O inimigo, no caso, é conhecido. Uma figura emblemática e fundamental para entender toda essa história: Andrés Sanchez. Considerado o responsável por tirar o Corinthians da Série B e levá-lo ao topo do Mundo, o ex-Presidente do Timão é, hoje, um dos homens mais poderosos do nosso futebol. Mesmo quando era mandatário do clube paulista, Andrés nunca escondeu sua boa relação com os “homens fortes” da CBF, sendo, inclusive, Chefe da Delegação Brasileira na Copa do Mundo de 2010.

Quando, no fim de 2011, seu segundo mandato no Corinthians chegava ao fim, e uma outra reeleição não era permitida, ele entrou de vez na CBF, com o importante cargo de Diretor de Seleções. Só que, na prática, era muito mais que isso. Sua influência era tanta, que chegou a ser cogitado como sucessor de Teixeira, embora sempre tivesse dito que não almejava o cargo. Por tabela, ele também sempre foi alvo de duras críticas do famoso Deputado Romário. Não só porque o “amigo do meu inimigo, é meu inimigo também”, mas porque ele próprio nunca foi um exemplo de honestidade enquanto dirigente.

Só que a administração de Marin é um desastre tão grande, que nem os seus amigos estão gostando. O próprio Andrés não esconde o seu descontentamento, o que ficou claro no episódio da demissão do então técnico da Seleção, Mano Menezes, quando Sanchez declarou publicamente que foi contrariado, entregando, dias depois, o cargo de Diretor de Seleções.

A demissão de Mano Menezes não agradou Andrés Sanchez, que entregou o cargo de Diretor de Seleções: “fui voto vencido”. (Foto: Terceiro Tempo)

E eis que, na última semana, surgiu um movimento de oposição para as Eleições na CBF, que ocorrem no ano que vem. Um dos líderes, claro, é Romário. Mas advinha quem pode vir como candidato pela chapa? Sim, ele, Andrés!!! Dizem, DIZEM, que o também ex-jogador Raí está na jogada, mas eu, particularmente, não acredito nessa hipótese, porque o ex-são paulino não teria a força necessária perante as federações. Tudo indica que Andrés virará oposição e Romário penderá um pouco para a situação. Inimigos unidos, todos felizes e grande chance de Marin rodar.

Não há nada de ilegal nisso, óbvio. Mas será que isso é lá muito ético? Será que isso condiz com os pensamentos do Deputado e os de Andrés, em que todos nós passamos esses anos todos acreditando? Para a última pergunta, a resposta é, evidentemente, não.

O pior de toda essa história é a incerteza de todos nós, amantes do futebol. E se Marin, de fato, sair? Vai melhorar? Vai piorar? Vai ficar a mesma coisa?

Uma coisa, porém, é certa: dificilmente teremos uma oposição como a que temos hoje. O risco de voltar para a estaca zero, infelizmente, é alto.

Só nos resta torcer para que haja um deus do Futebol e, principalmente, que ele seja brasileiro.