O impeachment é legítimo e necessário

Blindar o governo Dilma Rousseff de seus crimes apelando para a retórica do golpismo não passa de falácia

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André Souza Guedes

Esqueça as paixões inflamadas dos ingênuos e retóricas maquinadas pelos oportunistas que parasitam o aparelho estatal: o processo de impeachment é legítimo, necessário – e ele se aproxima! Caso os tribunais supremos não resolvam atuar partidariamente de maneira desavergonhada, a idólatra da mandioca deixará o poder dentro de poucos meses. Para alívio geral da população, dos mercados, da oposição e até de certa ala governista.

A onda populista que varreu o continente nas últimas décadas implantou no imaginário coletivo a ideia de que democracia faz-se apenas com eleições diretas periódicas. Basta apertar alguns botõezinhos ou preencher uma cédula de quatro em quatro anos e voilà! está devidamente exercido o direito democrático do cidadão. Mesmo a Coreia do Norte recorre a esse vil expediente – o lunático Kim Jong-un vence as eleições norte-coreanas com cem por cento das preferências dos eleitores! É ou não é bela essa tal democracia?

O Estado Democrático de Direito abrange muitas outras variáveis – mas os líderes populistas não querem que você saiba disso. O rito democrático prevê instituições sólidas e independentes, imprensa livre e a premissa de que ninguém está acima da lei. Os homens de terno em Brasília tem os mesmos direitos e deveres constitucionais de um engraxate na Cinelândia – e essa prerrogativa estende-se à cadeira da presidência da República.

Blindar o governo Dilma Rousseff de seus crimes apelando para a retórica do golpismo não passa de falácia – além de ser uma maneira de deslegitimar o impedimento do presidente Collor em 1992, destituído por motivos bem menos flagrantes. Naquela época, imprensa e coletivos sociais alardeavam o impeachment do caçador de marajás como o auge esplendoroso da democracia brasileira. Lula e seus pares choravam de emoção.

Além do crime de responsabilidade (que a trupe chapa-branca insiste em dizer que não aconteceu ou que, se aconteceu, foi por uma boa causa), seis delatores já confessaram que a campanha de Dilma Rousseff recebeu dinheiro ilegal. Um senador da República está preso – algo inédito na História do Brasil. Lula, o criador, está encalacrado até o pescoço e teme a visita do japonês da PF. A permanência da presidente é insustentável.

Michel Temer não é a solução para o Brasil. Mas vai trazer alguma tranquilidade institucional até 2018; os mercados irão respirar aliviados e talvez as agências de risco e investidores internacionais passem a nos enxergar com outros olhos – como uma democracia sólida que não admite estelionato, irresponsabilidade e corrupção por parte de seus governantes.

Atualmente o governo Dilma é um cadáver putrefato, um zumbi prestes a ser alvejado por um headshot de misericórdia. E cairá tal como todos os projetos da esquerda no continente.

André Souza Guedes (@aguedescartoon) é analista de sistema, cartunista e músico

Polarização PT e PSDB na berlinda eleitoral

O desgaste do PT não está beneficiando o principal partido de oposição, o PSDB. Nova pesquisa Datafolha de olho em 2018 (sim, está longe, mas a crise política, econômica, enfraquecimento do governo Dilma antecipa a disputa) mostra que a grande beneficiada com o atual quadro política é Marina Silva.

Marina disputou as duas últimas eleições para presidente e teve duas grandes votações (19.636.359 votos em 2010 e 22.176.619 votos em 2014), mas não conseguiu ir ao segundo turno em ambas disputas. E disputou por dois diferentes partidos, PV e PSB. Agora, Marina tem a Rede Sustentabilidade para chamar de “seu partido” e colocar suas ideias em prática sem aquela sensação de ser uma inquilina. Ela diz que não é “dona” do partido e não quer colocar a candidatura dela ao Planalto como uma imposição.

Seja como for, Marina se cacifa muito para ser a grande favorita de 2018. O grande obstáculo para Marina Silva é o tempo do horário eleitoral. A Rede vai precisar se coligar com outros partidos sem perder o discurso do “novo”, Marina vai ter que conseguir isso se quiser manter esse favoritismo. E os debates que a reforma eleitoral de 2015 determinou que as emissoras de TV não são obrigadas a convidar os candidatos dos partidos que tenham menos de 10 deputados na Câmara. São desafios que Marina terá que enfrentá-los.

Aécio Neves ainda tem a seu favor os 51.041.155 de votos de 2014, mas parece que tem um teto de 30%, o que é mais um teto do PSDB do que de Aécio. Qualquer que seja o candidato tucano, Aécio, Alckmin, Serra ou outro nome, ele consegue entre 30% e 35% no primeiro turno presidencial. O teto do PT despencou de 40% para 20%. É um claro reflexo da crise que passa o Partido dos Trabalhadores. Não tem outro candidato no PT que não seja o Lula.

Muita água ainda vai passar por essa Ponte Brasil até outubro de 2018. Uma coisa é certa: o brasileiro está cansado e desiludido com o lulopetismo. Mas não está gostando como a oposição (leia-se PSDB) está se comportando nessa crise. O eleitor brasileiro procura por uma terceira via que seja viável.

Governo zumbi

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Lula está planejando viagens pelos estados brasileiros de olho em 2018, na terça-feira o PT divulgou uma resolução do partido pedindo diálogo entre o governo e sindicatos para impedir que o ajuste fiscal não retire direitos trabalhistas. Nunca um governo teve um inicio tão conturbado que o segundo governo Dilma.

É ajuste fiscal para reequilibrar contas públicas, corrupção na Petrobras, derrota na eleição na Câmara dos Deputados, racha na base governista e no próprio PT. Junta tudo isso e temos um governo com 44% de rejeição. Normalmente um governo eleito tem uma espécie de lua de mel nos primeiros meses. Não está sendo o caso deste governo. E pode piorar.

Dilma prometeu na campanha que não mexeria nos direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa”. Mas tenta fazer o ajuste fiscal aumentando impostos (Lembrando: carga tributária brasileira já em 36% do PIB), cortando direitos trabalhistas e revisando programas sociais.

Aécio Neves e Marina Silva defenderam na campanha eleitoral um ajuste fiscal. Os dois foram acusados, caso eleitos, de promover um arrocho, retrocesso. Acredito que o ajuste fiscal de Aécio ou de Marina seria feito diminuindo a máquina estatal, cortando cargos comissionados, ou seja, “cortando na própria carne”.

A presidente Dilma poderia seguir o conselho de Reinaldo Azevedo e sair do PT, declara-se sem partido, se afastando da Operação Lava Jato e seus destroços para salvar seu governo. Ela vai correr para os braços de Lula e do marqueteiro João Santana. João Santana conseguiu superar uma rejeição de 40% da candidata e fazer Dilma ser reeleita. Tenho a impressão que o efeito pode não sair como antes e o esperado. Pior: pode ter efeito colateral.

A presidente Dilma está usando a mesma estratégia do presidente Collor, quando este sem apoio político e popular foi fazer um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV para se defender das denúncias de corrupção. Collor pediu para o brasileiro sair às ruas com uma peça de roupa nas cores da bandeira nacional e defender seu governo. O tiro saiu pela culatra e milhões foram às ruas sim, mas para pedir sua saída da presidência. Resultado: deputados aceleraram o processo de impedimento do presidente e o Senado Federal confirmou o impeachment meses depois.

O governo está quase um zumbi. E isso é o resultado das trapalhadas do próprio governo assim como no período Collor.

A Política Econômica do Governo Dilma I

O governo que começou com uma política econômica intervencionista, mas racional, terminou com uma colcha de retalhos incompreensível

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Carlos Woelz

Como tuíto bastante sobre economia e sou crítico à política econômica do atual governo, recebi seguinte questionamento: quais são, afinal, os principais erros de política econômica do Governo Dilma? Esta é uma tentativa de responder essa pergunta, e fazer uma lista mais organizada e didática do que o Twitter permite. Algumas dessas políticas são tão claramente equivocadas que será bastante fácil convencer o leitor, independente do seu viés ideológico. Outras políticas são um pouco mais dependentes da opinião de cada um sobre a eficiência do setor público como indutor do crescimento.

Antes de iniciar a discussão, é interessante observar que não houve uma só política: há fortes diferenças entre o início do governo e o final do primeiro mandato. Vale a pena uma breve retrospectiva das principais ações.

O Governo Dilma se iniciou com Palocci na Casa Civil, executando um aperto monetário e fiscal, para combater o surto inflacionário herdado do governo Lula. O objetivo era continuar crescendo, mas em um ritmo não inflacionário, e aumentar os investimentos através de financiamentos mais baratos, públicos ou privados. O plano de médio prazo era baixar a dívida pública líquida e a taxa de juros, a fim de promover um forte aumento dos investimentos privados. Dilma continuou na mesma linha do segundo governo Lula e manteve a expansão dos bancos públicos, pois acreditava que essa expansão seria importante para o investimento. No geral, uma ação intervencionista, mas realista.

No terceiro trimestre de 2011, o crescimento econômico já estava bem mais fraco do que o governo gostaria, e o cenário de crescimento no mundo, em particular da Europa, apresentava riscos consideráveis. O Banco Central acreditava em um potencial de crescimento alto, próximo de 4%, enquanto o Brasil estava caminhando para menos de 2%, o que geraria ao longo do tempo espaço para relaxar a política monetária, ainda mais com a política fiscal restritiva. O governo buscou então um dos objetivos declarados da presidente: fazer uma redução estrutural e permanente da taxa de juros no país, com responsabilidade. A comunicação e execução do início do ciclo de queda foram mal feitas, mas havia lógica.

A partir daí, em algum momento, os planos mudaram. Não é óbvio quando começou a “nova matriz macroeconômica”, mas claramente o governo estava insatisfeito com o baixo nível de crescimento e alta inflação e resolveu mudar, experimentar.

No início de 2012 o governo passou a buscar uma taxa de câmbio mais depreciada, para minimizar os efeitos da baixa competitividade e altos custos na indústria, e levou o dólar de 1,70 para cerca de 2,10. Ao mesmo tempo, o Banco Central continuou baixando a taxa de juros, mesmo com sinais de política fiscal não tão rigorosa, e apesar do crescimento baixo não se transformar em folga no mercado de trabalho. Os bancos públicos aceleraram o crédito, e no caso da Caixa, entraram em novos mercados onde não havia tradição. O governo iniciou um longo ciclo de medidas pontuais em vários setores, de vários tipos: aumento de proteção para a indústria (tarifas caso a caso), desonerações de IPI, folha de pagamento (também caso a caso), diminuição de impostos para o consumidor, para baixar pontualmente a inflação, intervenção em setores econômicos (bancos, para estimular o crédito, setor elétrico para baixar as tarifas), subsídios no crédito (PSI, Finame). No conjunto, o resultado foi uma enorme intervenção na economia para tentar crescer sem gerar inflação.

No início de 2013, apesar dos esforços para baixar preços administrados, como baixar na marra o preço da energia elétrica, a inflação não dava sinal de trégua. Isso aconteceu porque apesar da desaceleração da atividade, o desemprego continuou a cair, pressionando o mercado de trabalho e o custo da mão de obra. Os salários continuavam crescendo acima da produtividade, mas ao contrário dos anos anteriores onde o aumento do faturamento perimitia às empresas diluir custos fixos, a margem (bruta e líquida) das empresas caiu fortemente. As empresas foram então obrigadas a controlar custos, e começou um processo que continua até hoje de queda da criação líquida de emprego formal. Esse processo, longe de ser culpa do governo do PT, na verdade é mérito: pela primeira vez a taxa de desemprego chegou a um nível claramente inflacionário, o que significa uma economia próxima da sua máxima capacidade de geração de renda para a população. Um problema de inflação por custo de mão de obra e não por desvalorização cambial é uma conquista, é normal em economias desenvolvidas. O óbvio em um momento como esse é aceitar desacelerar a economia, deixar o desemprego subir um pouco e, após o realinhamento dos salários reais com a produtividade e a recomposição das margens e capacidade de pagamento das empresas, voltar a baixar o juros e estimular a economia.

Mas com uma eleição em 2014, não foi isso que o governo Dilma decidiu. Para tentar conter a inflação e ganhar tempo, em abril de 2013 se iniciou um processo de alta de juros. O Banco Central negou que o objetivo era de desacelerar a economia, e sustentava que a alta de juros, através das expectativas de inflação, faria com que a inflação caísse, aumentasse a confiança sem grandes efeitos na atividade econômica. As políticas de intervenção na economia foram intensificadas, diminuindo o efeito recessivo da alta de juros, mas com enorme custo fiscal. Também para ganhar tempo, o Tesouro continuou o processo de utilizar medidas pontuais e maquiagem para esconder o real estado das contas públicas. Somente no final de 2014, após as eleições, ficou mais claro o tamanho do estrago, mesmo com parte dos gastos, como subsídios de juro, ainda não contabilizados. O resultado dessa lambança: descoordenação de políticas, crescimento medíocre, juros mais altos, divida bruta crescendo, perda de credibilidade.

O governo que começou com uma política econômica intervencionista, mas racional, terminou com uma colcha de retalhos incompreensível. Na minha visão, a lista dos erros de política econômica do Governo Dilma, em ordem de grosseria é a seguinte:


1) A política de alta de juros e deterioração do fiscal praticada em 2013-14.

Essa política gerou baixo crescimento, pois por um lado estimulava a demanda através de mais gastos, desonerações e crédito público e por outro reduzia a atividade através da alta de juros. A inflação continuou alta, pois não existe mágica: só a queda da atividade reduz a inflação, e ficamos no meio termo. E as perspectivas de crescimento de longo prazo pioraram muito, houve queda forte dos investimentos, tanto por juros mais altos quanto por receio de descontrole da política fiscal.

Eu nunca vi uma combinação de política econômica que, para manter o status quo, provocasse efeitos tão perversos quanto essa a alta forte de juros combinada com uma deterioração grande do déficit nominal. Uma combinação de menos juros e menos déficit manteria o status quo de maneira bem menos nociva. Nem a justificativa de ganhar a eleição explica, pois fazer políticas que se anulam não tem lógica eleitoral.

O governo parecia acreditar em mágica: a alta dos juros iria conter a inflação, a ação do governo iria garantir o crescimento. Aconteceu o contrário: inflação e expectativas continuaram em alta, crescimento foi negativo. O juro real subiu, concentramos renda, queimamos dinheiro e eu pergunto, para quê?

2) A deterioração da credibilidade das contas públicas
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Apesar da meta de superávit no Brasil ser relativa ao superávit primário, a medida mais simples e resistente á manipulações é o déficit nominal. O limite desse déficit na Europa é de 3% do PIB, mais do que isso é considerado insustentável ou não desejável.

O déficit nominal oficial esteve nos últimos anos próximo de 3%, mas deverá subir muito em 2014, e terminar próximo de 5%. Excluídas algumas maquiagens, ele é na verdade cerca de 6%. Pior: nas minhas contas, como ainda há despesas não contabilizadas, e considerando a aceleração dos gastos no terceiro trimestre de 2014, o ritmo atual do déficit nominal é pontualmente mais próximo de 7%, um dos mais altos do mundo. Tanto dívida líquida quanto dívida bruta sobre o PIB estão aumentando nos últimos seis meses a um ritmo muito forte.

A piora do déficit nominal e o não cumprimento da meta do resultado primário já gera uma diminuição da credibilidade das contas públicas. Mas o que Mantega, Arno e Dilma fizeram na contabilidade pública vai demorar anos para desfazer. Os truques utilizados para massagear o superávit primário são tantos que a lista fica cansativa. Além dos subsídios de juros ainda não reconhecidos, temos as “pedaladas” (atrasos de pagamentos e transferências), restos a pagar, subsídios jogados para fora da meta de superávit primário através de capitalizações e empréstimos à taxas fora de mercado, em particular para o BNDES. Refis não definitivo, com devolução do dinheiro em caso de derrota do governo na justiça. Malandragem na contabilidade do aumento de capital da Petrobrás. Pagamento de enormes dividendos de estatais com recapitalização simultânea (neutro do ponto de vista do capital da empresa, mas gera superávit contábil).

Outro problema: a taxa implícita da dívida líquida não acompanhou a queda da SELIC, por causa do baixo retorno das reservas cambiais e dos subsídios do BNDES, e agora tende a subir. E ainda há chance de novos esqueletos não descobertos, pode ter muita surpresa por aí. As pedaladas somente foram descobertas em consequência de vazamentos de informação em órgãos e bancos públicos. Um descalabro.

Essa deterioração da credibilidade custará mais prêmio de risco no futuro, portanto mais juros, além do custo em aumento de impostos, cortes de programas e de queda da atividade econômica que serão consequência do restabelecimento da sustentabilidade da dívida. Um ajuste desordenado será feito às pressas e com pouca lógica de médio e longo prazo.

3) Políticas Protecionistas e intervencionistas: baixo investimento e produtividade.

Políticas protecionistas, baseadas no fechamento ou concentração de mercados, escolha de campeões nacionais ou o intervencionismo de maneira geral diminuem o incentivo à inovação e investimento. O governo Dilma praticou todas essas políticas. A única que é parte de um plano organizado é a política automotiva, e mesmo esse plano é alvo de críticas. Nos outros setores é um festival de improvisação, em particular no setor elétrico. Tudo é decidido na última hora: contatos permanentes em Brasília são fundamentais para qualquer setor se dar bem. Está formado o balcão de negócios.

Para o capitalismo funcionar bem é preciso competição e inovação. A demissão de um é o aumento da capacidade de compra dos outros e em uma economia sadia, os trabalhadores deslocados são reabsorvidos em outras funções.

4) Interferência e incompetência no Banco Central.

Note que esse é somente o quarto ponto. Recuperar a credibilidade da política monetária tem custo, mas é mais fácil. Basta pagar um preço recessivo de curto prazo, e / ou trocar a equipe do Banco Central.

Porque a política monetária foi insuficiente para conter a inflação? Bem, a política fiscal dos últimos dois anos surpreendeu o Banco Central e dificultou seu trabalho. Também houve interferência política, como ficou claro em 2011, quando Mantega praticamente antecipou o resultado do Copom.

Mas a culpa não é só da presidente ou do Ministro da Fazenda. A comunicação do Banco Central foi péssima, sem nenhuma justificativa política. O Banco Central foi pouco claro sobre suas reais motivações em seus documentos e usou argumentos dúbios em todos os seus movimentos (alta ou baixa). Usou macroprudenciais para restringir o crédito e aumentar o efeito da alta de juros em 2011 (questionável em seu efeito, mas aceitável), mas também o contrário: estímulos ao crédito em 2013 e 2014, na direção contrária da política monetária, aumentando a necessidade de alta! Nenhum desses defeitos de política tem qualquer teor ideológico, é incompetência mesmo.

5) Falta de transparência nas políticas, avaliação de efeitos econômicos e de concentração de renda.

Quem sabe quanto de subsídio federal leva a JBS, ou qualquer outra empresa financiada pelo BNDES? A contabilidade criativa tem outros defeitos além do maior custo da dívida: dificulta avaliar a efetividade e custo dos nossos programas sociais. O governo lutou ativamente contra ações que aumentassem a visibilidade dessas e de outras despesas.

Além disso, não houve reformas nem debates para aumentar a eficiência social dos gastos públicos. Onde está a discussão sobre as pensões por morte, a universidade gratuita para quem pode pagar, eficiência social dos cortes de impostos e subsídios, ou qualquer outra questão? Quem se beneficia com o desconto de IPI de automóveis são os mais pobres? Quem ganha com expansão dos empréstimos e subsídios do BNDES, exatamente aqueles de menor transparência? Nenhuma dessas perguntas foi sequer levantada. O governo não parece preocupado com isso, e esse é um enorme defeito num governo dito de esquerda.

Em resumo: esses cinco pontos acima mostram que a política econômica do governo Dilma foi omissa e incompetente, gerida por uma equipe sem interlocução com a comunidade econômica nem com a sociedade. Questões de esquerda ou direita, justiça social ou concentração de renda não descrevem as opções de política adequadamente.

Carlos Woelz é gestor de fundos de investimentos, com mais de vinte anos de experiência. Foi diretor de banco de atacado e responsável por mesa de operações.

O que comemoram os governistas

Marlos Ápyus

Margaret Thatcher dizia que o socialismo só funciona até o dia que o socialista termina de gastar o dinheiro que tomou do capitalista. De certa forma, basta olhar para o que ocorre na Venezuela que se comprova isso.

O capitalismo é um sistema altamente baseado em prêmios: se é feito algo do interesse da sociedade, ela premia. Do contrário, ela ignora. E isso não foi bolado por nenhum cientista em laboratório, mas pela própria sociedade, que acreditou assim funcionar melhor após ao menos cinco séculos de testes e mais testes em seu cotidiano.

Diferentemente do socialismo, que nasce do trabalho de um filósofo em um livro sem qualquer experimento científico. Ou seja: representa o resultado de um trabalho individual, não um trabalho coletivo como o capitalista. É um sistema que baseia-se na solidariedade. Soa bonito, mas na prática significa que, não importa o quão duro se dê por algo, o prêmio pelo esforço será o mesmo de quem nada deu. Para funcionar, é preciso que cada membro tome a iniciativa altruísta de fazer um bem à nação. Como isso não ocorrerá, ele só consegue se impor pela força. É quando nascem as supostas “ditaduras do proletariado”, que já teriam custado 100 milhões de vidas segundo alguns estudiosos. Para efeito de comparação, a segunda guerra mundial não teria chegado a 60% deste estrago.

Sempre que se tomar a riqueza acumulada pelo capitalismo e distribuí-la com a sociedade, ótimos números surgirão para a economia. Algo semelhante ocorre quando governos imprimem dinheiro. Por alguns instantes surgem bons resultados, mas logo vem o caos econômico e inflação. Foi basicamente o que Juscelino Kubitschek fez, largando a bomba inflacionária no colo de Jânio Quadros. É basicamente o que Chávez largou no colo de Maduro agora na Venezuela.

É semelhante também ao que os petistas comemoram até hoje. Foi isso o que as políticas sociais do governo petista fizeram nos primeiros anos: direta ou indiretamente, distribuíram às camadas mais carentes as riquezas acumuladas, seja por bolsas, seja por cortas, seja por inflar cada vez mais o Estado, seja tantas vezes em dinheiro vivo mesmo. E funcionou porque a economia precisa de dinheiro girando.

Mas uma economia sólida precisa que esse giro monetário seja justificado. Precisa que exista uma estrutura para fazer com que ele não se perca no meio do caminho e simplesmente acabe. É preciso não só distribuir riquezas, mas também gerá-las. Do contrário, cedo ou tarde os números ruins voltam a surgir.

O que o PT faz no Brasil é chamado de “social democracia”, que na prática finda sendo uma forma bem lenta e muito menos sangrenta de implementar o socialismo. Assim feito, os primeiros bons números demoram um pouco mais a aparecer (foram ao menos 5 anos no caso do PT). Assim como os números ruins (que só aparecem aos poucos agora. Dilma, por exemplo, vai deixar para o país o segundo pior crescimento do PIB desde pelo menos Getúlio Vargas).

O que ainda comemoram os governistas, mas mais timidamente (um pouco intimidados pela onda de protestos do país), são os números gerados ainda no governo Lula. Mas já não eram muito confiáveis. E Dilma só ampliou sua manipulação quando Mantega passou a colocar em prática o que vem sendo chamado de “contabilidade criativa”.

Por exemplo, para não ser considerado desempregado pelo IBGE, basta qualquer brasileiro ter trabalhado ao menos uma única hora nos últimos 365 dias. Até hoje os petistas comemoram a taxa de desemprego em 5%. Na verdade, ela estaria em 20%, umas das piores da nossa história. Mas é possível encontrar artimanhas semelhantes no que se vende acerca do fim da miséria, dos ganhos da Petrobras, do alcance do Ciência sem Fronteiras, da eficiência do Mais Médicos, do controle da inflação e do suposto fim da dívida externa, entre outros.

Mesmo com tanta maquiagem, o governo Dilma só foi capaz de apresentar números tímidos, todos inferiores ao seu antecessor, o que por si só quebra a principal promessa de sua campanha, que era a de ser ela a pessoa mais qualificada a manter o bom momento vivido pelo governo Lula. É de se perguntar como estaria o país se estivéssemos tendo contato com números que de fato expliquem o momento o qual vivemos. Ou ainda, considerando que ao menos 24% dos brasileiros – ou mais da metade daqueles que dizem possuir alguma preferência partidária – se dizem petistas, como estaria a popularidade do mandato de Dilma, hoje aprovada por menos da metade dos 83% que diziam sim ao governo Lula.