A eleição disruptiva

Foram 13 concorrentes na eleição 2018 que marcou o fim da polarização política entre PSDB e PT. O PSDB foi desbancado pelo minúsculo PSL graça a um deputado inexpressivo chamado Jair Messias Bolsonaro, que cativou uma legião de fãs pelo país conquistando milhões de votos.

Bolsonaro canalizou o antipetismo aflorado naquela eleição que brotou da Lava Jato, o antissistema (paradoxalmente um político de 3 décadas de mandato) e foi beneficiado pela facada que levou de Adélio Bispo.

Bolsonaro só tinha 7 segundos de horário eleitoral, mesmo aquela eleição marcada pela forte presença das redes sociais, a TV ainda tem peso relevante. Com a facada ganhou uma visibilidade que não teria e pelo seu estado de saúde, não foi aos debates do segundo turno escapando de ser submetido a um possível desgaste na sua imagem. O resto é história.

Relembre a eleição presidencial de 2018

Escute os jingles dos candidatos

Prefeitos eleitos em SP a partir de 2000

De 2000 a 2020, o PT revezava com seus adversários o comando da cidade de São Paulo. O partido vencia uma eleição na principal cidade do Brasil para perder duas.

2000: Marta Suplicy (PT)
2004: José Serra (PSDB)
2008: Gilberto Kassab (DEMOCRATAS)
2012: Fernando Haddad (PT)
2016: João Doria (PSDB)
2020: Bruno Covas (PSDB)

Ou seja, seguindo essa tradição do século 21, PT venceria 2024, mas o partido não lançou candidato na cidade pela primeira vez e apoiou Guilherme Boulos (PSOL), com Marta de vice que voltou ao PT a pedido de Lula para essa missão. Boulos perdeu novamente no segundo turno agora para o atual prefeito Ricardo Nunes (MDB), vice de Covas.

Ouça os jingles dos prefeitos de SP eleitos na redemocratização.

JINGLE POLÍTICO: da marchinha de carnaval à linha de produção

Uma grande feira. Nela, um punhado de gente tenta chamar a atenção da multidão que passa. Quem cantar a música mais grudenta, aquela que não sai da cabeça, vende seu peixe. Assim os jingles políticos tentam grudar o candidato na cabeça do eleitor.

Antes de se tornar um produto de publicidade eleitoral e fazer jus à alcunha made in USA jingle (termo para “canção publicitária”), a música política no Brasil tocava na mesma vitrola da música popular. Entre os sucessos do carnaval de 1917, estava tanto à convocação apolítica para “deixar a mágoa pra trás” e sambar (“Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida) quanto o protesto contra os desmandos do presidente Venceslau Brás: “Meu milagroso São Brás/Não aperte tanto o nó/Pense o mal que nos faz/Do Zé Povo tenha dó” (Desabafo Carnavalesco, de Freire Júnior). Se música era crônica cotidiana, nada mais natural que cantar a política também.

E os próprios políticos, que nunca foram bobos, não ficariam de fora. Em meados da década de 20, com a propagação do rádio e com o fim de uma época em que os coronéis “decidiam” o voto, o uso político de canções tornou-se moeda importante numa eleição. O candidato contratava um compositor, a canção era gravada e o disco, entregue às rádios – dependia delas executá-las ou não. “Era o período do áureo das canções políticas. Numa população de analfabetos, o rádio tinha um imenso apelo”, explica Ivan Santo Barbosa, coordenador do curso de marketing político da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

“Ao contrário de promover políticos, como acontece hoje, o objetivo da maioria dos jingles nessa época era destruir reputações”, explica o escritor e jornalista Fernando Morais. Assim, o rádio deu o tom para as campanhas eleitorais até o golpe de 1964. Antes, na disputada eleição de 1960, nasceu um dos jingles mais populares do país: “Varre, Varre, Vassourinha”, que carregou o caricato Jânio Quadros à presidência. Em razão da ditadura militar, a mudança que a popularização da TV nos anos 60 prometia para as campanhas políticas teve que ser adiada por 21 anos.

No fim da década de 80, com a redemocratização e o horário eleitoral político no rádio e na TV, os jingles ganham a melhor acepção à palavra. “Nas eleições de 1989, surge o marketing político. Cada vez mais o candidato é ‘vendido’ como um produto”, resume Barbosa. Hoje, o autor do jingle para um candidato à presidência é o mesmo do tema para uma companhia aérea. O mercado ganha contornos de linha de produção. “Na reeleição do Fernando Henrique Cardoso, em 1998, foram 49 canções – quase uma por dia. Teve jingle que só foi ao ar na TV um dia”, lembra PC Bernardes, autor da canção “FHC reeleição”, cantada por Dominguinhos.

Com a entrada da TV nas campanhas, no entanto, o jingle perdeu um pouco de força. “Ele não ganha mais uma eleição. É mais uma peça numa engrenagem maior, mas é fundamental para dar emoção a campanha”, diz o marqueteiro Chico Santa Rita. Exemplo perfeito é a canção “Lula Lá”, da campanha petista de 1989. Lula só chegou lá em 2002, mas a música marcou para sempre o ex-presidente. Por sinal, “Lula Lá” segue a forma básica para o sucesso de uma canção política: “Jingle bom é aquele que uma criança lembra e sai cantarolando”, define Katia Saisi, professora de marketing político da USP.

Tudo bem, o jingle pode ser mais um item em meio a santinho, internet, adesivo, outdoor, bandeira, rádio, televisão, camiseta, botom, debate, pesquisa e comício. Mas não tenha dúvida: é do jingle que você vai se lembrar.

Texto retirado da matéria “Os 20 maiores jingles políticos de todos os tempos” da Revista Super Interessante.