De Itamar a Dilma

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Principal razão do liberalismo ser rejeitado pela maioria da população brasileira e ser chamado de “neoliberalismo” é porque liberais só olham as planilhas, governos fazem os ajustes fiscais via aumento de impostos, cortes em direitos trabalhistas e assistência social. Nunca é cortar na própria carne, diminuir a máquina e cargos comissionados. Porque aí bateria de frente com caciques e aliados políticos. Sobra sempre para o povo (mais pobre) e contribuinte pagar a conta.

O primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi bom por causa da “herança bendita” do Plano Real do governo Itamar Franco e das privatizações. Aí ele se empolgou e mudou a regra no meio do jogo para ter direito a uma reeleição. Foi reeleito e tentou fazer um ajuste fiscal que pesou nas costas dos mais pobres. E saiu do governo com uma grande rejeição.

Lula ganhou, assumiu o poder e fez o ajuste que precisava ser feito. Mas plantou a semente que deu origem ao programa Bolsa Família. O presidente Lula (PT) viu que o programa Fome Zero não deu certo. Teve a esperteza (por que não a humildade?) de unificar os programas sociais herdados e subaproveitados por FHC. Em suma, não se esqueceu do social como fez o Fernando Henrique.

Veio à crise de 2008 e Lula inteligentemente usou a política anticíclica para blindar o Brasil dela. E funcional – 7,5% de PIB e 90% de aprovação no final de seu governo. Elegeu Dilma Rousseff (PT) sua sucessora, mas ela não colocou fim a essa política. Continuou com a expansão do crédito, aumento do gasto corrente e intervencionismo exagerado por muito tempo sem precisar mais. Dilma teve que engolir convicções e fazer o ajuste fiscal no meio de uma crise política gravíssima por causa do escândalo de corrupção na Petrobras para o governo dela não afundar junto com o país.

Agora é preciso fazer um ajuste mais duro pela irresponsabilidade da presidente por não ter feito um ajuste mais leve quando assumiu o governo com todos os ventos favoráveis para mudanças na parte econômica e em outras áreas do governo.

A importância dos preços livres

Não é possível saber se eu devo produzir ou não produzir um determinado produto se eu desconheço as condições reais de oferta e demanda

Pedro Henrique Dias (@phdro)

Sempre antes de iniciar minhas discussões sobre economia com amigos comunistas, socialistas, sociais-democratas e adeptos de qualquer vertente do intervencionismo, faço questão de frisar um ponto crucial em relação à minha escolha de defender as ideias liberais. Como diz o grande mestre Ludwig von Mises, existe apenas uma coisa em que os liberais concordam plenamente com os socialistas: a necessidade de elevar o padrão de vida das pessoas, principalmente as mais pobres. Sempre procuro destacar que nossos fins são comuns (e isso é muito efetivo para diminuir a incidência do argumento ad hominem na conversa), de forma que nossa discordância se dá no tocante aos meios para chegarmos a esse objetivo. Feita essa observação, podemos prosseguir em nosso raciocínio e investigar as razões de as intervenções governamentais na economia serem tão maléficas à nossa meta de elevação do padrão de vida dos menos afortunados no aspecto de conforto material.

A pior coisa que alguém pode fazer para alcançar esse objetivo é interferir no sistema de preços livres. Por que os preços livres são tão importantes e determinantes para o sucesso e o progresso material dos seres humanos? Porque os preços são os principais sinais seguidos na tomada de decisão dos empreendedores. Não é possível saber se eu devo produzir ou não produzir um determinado produto se eu desconheço as condições reais de oferta e demanda para ele. Em outras palavras, não é possível fazer o cálculo econômico racional, que resulta na produção direcionada para as demandas dos consumidores. Sem saber o que os consumidores querem e a quantidade existente desse produto no mercado, fatalmente irei tomar minhas decisões “no escuro”, fazendo uma alocação errônea dos recursos escassos.

Para se ter uma ideia prática do impacto dessa variável no resultado final de bem-estar das pessoas, é a intervenção governamental nas taxas de juros (preço do dinheiro) que origina as crises e os ciclos econômicos. A determinação de taxas de juros pelo banco central em valores abaixo das taxas que seriam determinadas pelas relações de mercado (oferta de recursos poupados x demanda por recursos poupados) criam uma ilusão de que existem mais recursos poupados do que realmente existem, levando os empreendedores aos malinvestments, que desembocam nas subsequentes crises. São as intervenções governamentais no preço do dinheiro que causam as “crises do capitalismo de livre-mercado”. Sim, o desemprego desse monte de gente na Europa e nos Estados Unidos foi causado por uma aparentemente inocente intervenção num preço.

Socialismo e capitalismo são dois diferentes sistemas que objetivam promover a melhor alocação dos recursos escassos existentes em nosso mundo. Os preços livres sinalizam essa escassez. Preços são capazes de aglutinar as informações de oferta e demanda de um determinado bem ou serviço. Eles funcionam como uma votação, onde cada demandante/consumidor sinaliza sua disponibilidade em pagar por determinado produto e cada ofertante sinaliza o quanto deste produto está disponível para ser comercializado. A interação dessas duas informações gera o que chamamos de preços livres, que são a expressão plena da escassez do produto, ou seja, o quanto está disponível para ser ofertado e o quanto está sendo demandado.

Tendo em vista esse conceito de preços como sendo informações sobre a escassez, chegamos à conclusão de que ações governamentais que visam reduzir preços através de decretos não aumentam a oferta real de um bem ou serviço. O governo apenas mexe no sinal e não nas causas desse sinal. Ao contrário, medidas de congelamento de preços geram o efeito inverso ao esperado, que é a redução da oferta de bens e serviços. Isso sempre ocorrerá quando o preço tabelado pelo governo estiver abaixo dos custos para a produção do bem ou do serviço. A consequência do congelamento de preços no longo prazo é a redução do nível de vida das pessoas. Trata-se de um método baseado numa interpretação completamente errônea do funcionamento da economia.

Há uma frase do Hayek que resume perfeitamente o porquê de as intervenções governamentais em preços serem tão mal sucedidas: “Você não pode corrigir sinais que lhe informam sobre circunstâncias que você não conhece”. Governos e planejadores centrais são incapazes de saber melhor do que os preços quais são as condições de oferta e demanda de um determinado produto, porque os preços são exatamente as condições de oferta e demanda de um determinado produto. Se já existe um mecanismo que expressa da melhor forma possível a vontade das pessoas, não há necessidade de se criar substitutos para ele. A única forma de baixar preços e consequentemente tornar todos mais ricos é através da desobstrução da produção e da desburocratização da livre iniciativa. Isso vai criar uma maior oferta de bens e serviços e um melhor padrão de vida para todos, principalmente para os mais pobres.

Por um pouco mais de liberdade

Magno Karl

É jogo de Libertadores da América. Fora de casa. Você entra em campo e vê que o estádio está lotado. As torcidas fazem barulho à sua esquerda e à sua direita, mas nenhuma delas torce para o seu time. A sala de troféus do seu clube é recheada de glórias, mas você parece condenado a começar as partidas na defesa, sob vaias de todos os lados.

Bem-vindos ao clube liberal! Os nossos torcedores se espalharam, e boa parte daqueles que seriam os nossos aliados naturais aderiu a uma das duas grandes torcidas que ocupam hoje a esquerda e a direita do estádio. A missão da minha geração parece ser a reconstrução da nossa casa para que eles um dia possam voltar.

Os nossos princípios são simples, mas não há dois liberais que concordem em tudo. Apesar dos plurais, o que eu apresento aqui é o meu liberalismo. Nele, cada avanço de uma situação de menos liberdade para uma situação de mais liberdade é uma vitória. Cada vez que o Estado devolve ao indivíduo um pouco de poder para decidir o rumo de sua vida, cada vez que uma empresa se liberta de um braço governamental, cada vez que uma regulamentação esdrúxula é revogada, nós estamos diante de um avanço liberal. Pequenas revoluções marginais que transformam a nossa sociedade em um ambiente mais livre.

O nosso time vem de uma sequência difícil. Nossos adversários andaram brincando com as regras do jogo e agora querem colocar uma crise gigantesca nas nossas costas. Nós não temos logotipos, nem cores. Nós não temos canções ou artistas. Nós não temos políticos, nem partido. Nosso próprio nome é meio indefinido: somos liberais ou libertários? Em meio a essa dificuldade, até mesmo os nossos adversários se voluntariam para resolver essa questão. Meio sem saber por que, eles nos chamam de neoliberais.

Mas os rótulos não importam. Digamos apenas que nós somos o time da liberdade individual. Nós somos o time da economia livre. Nós somos o time do viva e deixe viver. Nós somos o time da liberdade.

Mas liberdade para quem?

O debate público acerca do liberalismo costuma começar por essa pergunta. Como defensores dos direitos humanos esclarecendo que também são favoráveis aos direitos humanos dos humanos direitos, é comum que nosso primeiro movimento em um debate seja esclarecer nossos princípios básicos. Somos favoráveis à liberdade. Ela é o nosso bem comum e deve ser estendida a todos. Do seu gozo, nenhuma pessoa deve ser excluída. A legislação deve limitar a ação governamental. Tudo que não é expressamente proibido é permitido, e o ônus da justificativa cabe àqueles que desejam limitar as interações voluntárias entre indivíduos – que existem naturalmente e são anteriores à proibição.

As fronteiras nos limitam, nos dividem, nos empobrecem. Nós liberais partimos da presunção básica de que todos dispõem da própria liberdade para negociar, trocar, se movimentar. Adultos devem ser livres para interagir voluntariamente com outros adultos, para decidir os rumos da sua vida, para trabalhar em qualquer atividade que preferirem, para dizer e escrever o que bem entenderem.

Essa liberdade requer uma contrapartida. Cabe aos homens livres a responsabilidade sobre as suas ações. Sou livre para agir, mas não sou livre para impor sobre terceiros os custos das minhas escolhas, e nenhum outro ser humano tem a obrigação de financiar os meus desejos. A minha liberdade de escrever o que desejo não corresponde à obrigação da Folha de São Paulo disponibilizar uma coluna para que todos tenham acesso às minhas opiniões. A minha liberdade de escolher ser artista não corresponde à obrigação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro de reservar o seu palco para a minha performance num sábado à noite. O meu entusiasmo pela possibilidade de cidadãos escaparem com suas famílias da pobreza e da miséria através da emigração não presume o fornecimento de passagens gratuitas pelas companhias aéreas. Ninguém pode proibir que eu exerça a minha liberdade, mas ninguém tem a obrigação de me fornecer instrumentos para eu possa exercitá-la.

Vilanizadas pela esquerda e pela direita política, as ideias liberais têm sido vencedoras silenciosas em alguns campos do debate político brasileiro. Privatizações e concessões de serviços públicos à iniciativa privada, reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo, a liberdade para nos expressarmos de forma livre e barata através da internet, a busca por maior racionalização e eficiência no oferecimento dos serviços públicos, podem não ser políticas da minha república liberal imaginária, mas são exemplos de pequenos avanços. São alguns daqueles passos em direção a uma sociedade mais liberal dos quais eu falava.

É inútil esperar que a maioria dos brasileiros acabe por eleger maiorias de políticos liberais para o legislativo e executivo. O país é grande, as questões são complexas, as negociações são difíceis, e o desafio hoje é recolocar mais ideias liberais no debate político de uma sociedade majoritariamente estatista e conservadora. Mas vamos passo a passo. O ótimo não pode ser inimigo do bom. E a caminhada passo a passo em direção a um pouco mais de liberdade não parece ser ruim para mim.

Magno Karl é Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro