Mangueira reescrevendo a história

A história está escrita como aconteceu e o que Leandro Vieira deseja é apenas reescrevê-la ao sabor de suas crenças. É peculiar de gente que tem uma visão de mundo como o carnavalesco da Mangueira

Muitos dirão que desfiles das escolas de samba são na essência contestadores do status quo, que a beleza é essa vertente revolucionária, libertária e o carnaval das escolas de samba é muito mais que uma festa popular para diversão. É um discurso lindo e emocionante, mas o que a Estação Primeira de Mangueira vai fazer na noite/madrugada de segunda para terça-feira não passa de revisionismo para desconstruir a história que não agrada o carnavalesco Leandro Vieira.

Leandro Vieira quer colocar nas mentes das pessoas que nossa história foi feita para “ninar” o povo que cresce adormecido e transformou o Brasil em uma partida de futebol na qual “preferimos torcer para quem ganhou”. Que os heróis nacionais foram forjados pela elite econômica, política, militar e educacional. Que tais valores produziram o complexo de “vira-latas” que “fomenta nossa crença de inferioridade” e, a partir do desfile de 2019 da Mangueira, será plantada a semente que vai gerar uma nova sociedade com novos “verdadeiros” heróis. O desfile da escola de samba será usado para fazer a revolução cultural. Veja o tamanho da pretensão. Ou seria ousadia?

Escolas de samba bancadas por jogo do bicho e outras organizações não muito lícitas – inclusive o presidente afastado da escola preso por participar de desvios públicos na Assembleia Legislativa do Rio. Que choram quando o prefeito corta um pedaço da verba pública, que financia um evento que deveria se sustentar com patrocínio privado, para recolocar em áreas essenciais para a população de maioria carente.

Leandro Vieira pretende reescrever a história do Brasil, desde o descobrimento que, para o carnavalesco, não foi “descobrimento” e sim uma “conquista” do “invasor”. Leandro vai contestar a independência proclamada por Dom Pedro, que não passou de uma armação dos portugueses para Portugal não perder o território para os verdadeiros donos, nós brasileiros, a República foi um golpe (isso não é bem uma novidade “escondida”) de um monarquista e a “Redentora” que assinou a Lei Área abolindo a escravidão no Brasil, a Princesa Isabel, não é a heroína que os livros contam. E por aí vai.

Na verdade, o que vai ser apresentado na Avenida de Sapucaí é um enredo de um militante progressista de esquerda tentando apagar alguns “heróis convencionais” e substituir por personagens históricos das ditas “minorias”. A história está escrita como aconteceu e o que Leandro Vieira deseja é apenas reescrevê-la ao sabor de suas crenças. É peculiar de gente que tem uma visão de mundo como o carnavalesco da Mangueira e com certeza será aclamado pelo establishment da mídia progressista.

125 anos de uma realidade que segue sendo ilusão

Leonardo Dahi

13 de maio de 1888. Foi nesse dia que teve início uma nova era da história do Brasil. Foi nesse dia que foi assinada a tal Lei Áurea, que decidiu que nenhum homem poderia escravizar outro no Brasil. O leitor mais atento deve ter percebido que ontem foi o aniversário de 125 anos da tal lei. É uma data muito comemorada – e com razão. É a data tida como o fim da escravidão e, consequentemente, do sofrimento do negro brasileiro.

1988, então, foi um ano muito especial, o ano do centenário da Lei Áurea. Um ano de simbolismos, como o do título paulista do Corinthians, com o gol de Viola, único negro do time, vindo do banco de reservas, marcando na prorrogação. Mas não ficou apenas nisso. Para quem não sabe, eu (assim como alguns outros integrantes deste blog) sou apaixonado por Carnaval, e acho que esta festa retrata o Brasil com uma fidelidade poucas vezes vista. É incrível como gente que, as vezes, não tem cultura nenhuma consegue contar a nossa história melhor do que muitos Doutores em história. Talvez porque tenham passado por tudo aquilo que estudamos e a experiência ainda é a melhor forma de se conhecer qualquer coisa. O samba é a voz do povo e, é engraçado como ele consegue expressar bem algumas visões contraditórias deste povo.

Voltando à 1988, este ano deixa bem claro o que disse no fim do parágrafo anterior. A campeã do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro foi a Unidos de Vila Isabel, que homenageou o negro e festejou o centenário de sua libertação com o enredo “Kizomba, a festa da raça”. Um samba sensacional e um dos maiores desfiles da história da Marquês de Sapucaí, que comemorou em grande estilo esta data tão especial. Mas não foi um Carnaval de um desfile só. A vice-campeã, Estação Primeira de Mangueira, trouxe para a Avenida um desabafo, mostrando que a comemorada liberdade talvez nem tivesse sido conquistada. “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?” é, como dito anteriormente, um desabafo.

Para provar que este é mais um dos casos em que o samba ensina mais que os livros, vamos tentar contar essa história a partir deste samba-enredo que, para continuar atual, basta trocar o 100 pelo 125 em seu título.

"Kizomba, a festa da raça" (Foto: MSN)
“Kizomba, a festa da raça” (Foto: MSN)

“Será…

Que já raiou a liberdade

Ou se foi tudo ilusão

Será…

Que a Lei Áurea tão sonhada

Há tanto tempo assinada

Não foi o fim da escravidão…”

Pois é. De maneira oficial, a escravidão acabou. Todos recebem um salário – que tem até um valor mínimo! – para trabalhar e, branco ou negro, tem direitos enquanto cidadão e trabalhador, não podendo apanhar do patrão. Mas não é preciso viver muito tempo no Brasil para perceber que negros e brancos não estão em pé de igualdade. Não é preciso refletir muito para concluir que os negros ainda são, de certa forma, escravos dos brancos. Negros, 125 anos depois do fim da escravidão, sofrem preconceito, ainda são descrição fundamental de um estereótipo que caracteriza tudo aquilo que há de ruim na sociedade moderna. Para grande parte de nossa população, quanto mais escura a pele, maior o cuidado com a carteira. Quanto mais escura a pele, maior a exigência de conhecimento, maior o rigor com qualquer erro de português.

“Onde está a liberdade

Onde está que ninguém viu

Moço

Não se esqueça que o negro também construiu

As riquezas do nosso Brasil”

E o preconceito contra os negros é uma das coisas mais imbecis que o brasileiro poderia ter, pois, sem ele, esse país não existiria. Foi negro que, trazido da África para ser escravizado, construiu o Brasil. Trabalhou no café, nas minas de ouro, na cana de açúcar, na pecuária. E, depois de livre, mostrou que não devia nada aos brancos em inteligência, bravura e talento. Zumbi dos Palmares, João Cândido, Pelé, Adhemar Ferrreira da Silva, João do Pulo, Aleijadinho,Pixinguinha, Carlos Gomes, Tia Ciata, Milton Nascimento, Gilberto Gill Martinho da Vila (autor do enredo, não do samba, da Vila Isabel de 1988), Martinho da Vila, Wilson Simonal, Milton Gonçalves. Homens e mulheres que levaram o nome do Brasil para o Mundo inteiro e enriqueceram nossa cultura, nossas artes, nosso esporte.

"100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?" (Foto: Samba Rio Carnaval)
“100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?” (Foto: Samba Rio Carnaval)

“Pergunte ao criador

Quem pintou esta aquarela

Livre do açoite na senzala

Preso na miséria da favela”

Os dois versos anteriores são dos mais geniais da história da música no Brasil. Livre do açoite na senzala, preso na miséria da favela. Dois versos que traduzem estes 125 anos. Podemos dizer que a Lei áurea permitiu que os negros (alguns poucos negros, na verdade) chegassem onde apenas os brancos chegavam. Porém, o mundo dos negros continuou sendo só dos negros. O mundo da miséria, da fome, do preconceito, continuou sendo exclusividade deste povo. É claro que existem brancos “presos na miséria da favela”, mas estão longe de ser a maioria e nunca estão no estereótipo descrito alguns parágrafos atrás.

“Sonhei…

Que Zumbi dos Palmares voltou

A tristeza do negro acabou

Foi uma nova redenção

Senhor…” (1)

Contudo, é preciso dizer: nestes 125 anos, muita coisa mudou para melhor. A cada dia, a ilusão fica mais perto da realidade. Nestes 25 anos, muitos negros se livraram da miséria da favela. A cada dia, nossa sociedade se torna menos preconceituosa e a luta continua. Já que eu citei tanto o samba vice-campeão de 88, encerro com um verso do campeão: “valeu, Zumbi!” (2).

Para quem ficou curioso ou quer rever, eis os compactos dos dois desfiles.

 

(1) Os versos em negrito entre os parágrafos são do samba “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?”, da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 1988. Os autores do samba são Hélio Turco, Jurandir e Alvinho. O Carnavalesco foi Júlio Matos e o intérprete, Jamelão.

(2) “Kizomba, a festa da raça” da Unidos de Vila Isabel, é de autoria de Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila. O enredo foi desenvolvido por Milton Siqueira, Paulo César Cardoso e Ilvamar Magalhães, enquanto o samba foi interpretado por Gera.