PMDB e PSDB, suas histórias se entrelaçam

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Michel Temer era um deputado federal sem a menor significância em São Paulo, foi o último deputado eleito na lista do PMDB. Lula o pinçou a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff já que o Michel é uma raposa felpuda e o único que consegue o mínimo controle das várias federações dentro do PMDB. Lula foi o fiador da aliança PT-PMDB; Michel foi o fiador dentro do PMDB. Tudo bem para 2010, mas a relação PT-PMDB azedou na segunda metade do primeiro mandato de Dilma e quase que a aliança não se repetiu em 2014. O partido se dividiu na convenção, mas a aliança com o PT venceu até com certa facilidade, por 69,7% a 30,3%.

Só que os dissidentes não aceitaram muito o resultado e várias correntes do PMDB em vários estados apoiaram outros candidatos para presidente. No Rio de Janeiro, por exemplo, o grupo comandado pelo ex-governador Sergio Cabral e Jorge Picciani fizeram aliança com a oposição – PSDB e DEM – e lançaram o Aezão (junção dos nomes de Aécio e Pezão). No Rio Grande do sul, o ex-senador Pedro Simon apoiou Eduardo Campos/Marina Silva (PSB). E outras facções do PMDB não acompanharam a orientação que venceu na convenção do partido.

O PMDB nasceu sem o “p”. O MDB nasceu para ser o partido de oposição oficial – Arena era o partido da situação – após a introdução do bipartidarismo pelos militares. Quem não seguiu para luta armada foi abrigado pelo MDB. Era a resistência institucional à ditadura. Sem querer tirar méritos quem perdeu a vida lutando nas guerrilhas, mas foi os opositores institucionais que mantiveram a resistência e conquistaram a Lei da Anistia, quase aprovaram a emenda da eleição direta para presidente e articularam a eleição de Tancredo impondo derrota ao candidato dos militares, Paulo Maluf, no colégio eleitoral. Alguns nomes da resistência institucional: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Pedro Simon, Mário Covas, Teotônio Vilela, entre outros.

No apagar da ditadura o multipartidarismo foi restaurado surgindo a maioria dos atuais partidos, PT, PDT, PTB e o MDB virou PMDB. A aliança com os dissidentes da ditadura ajudou a eleger Tancredo Neves presidente com José Sarney de vice. Ulysses Guimarães não queria essa aliança. Sarney era senador pela Arena, foi líder dos governos militares no Congresso, saiu da Arena com vários colegas para fundar a Frente Liberal (na sequência viraria PFL, posteriormente Democratas) e se filou ao PMDB.

Para derrotar os militares, Ulysses aceitou a aliança e ajudou José Sarney a tomar posse no lugar de Tancredo – internado às pressas na véspera da sua posse e morreu semanas depois. Ulysses esperava que Sarney chamasse uma Constituinte e eleição direta para presidente. Sarney convocou a Constituinte, que elaborou a Constituição Cidadã de 1988 (Ulysses Guimarães foi o presidente). Ulysses foi o candidato do PMDB na primeira eleição direta para presidente desde 1960, mas não aceitou o apoio do presidente Sarney. Com aprovação popular no chão depois de vários planos econômicos ‘furados’ para controlar a hiperinflação, Ulysses tentou se desvincular do governo Sarney.

Mas teve outro duro golpe na candidatura de Ulysses. Entre 1987 e 1988 houve uma debandada de vários líderes do PMDB para fundar o Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB. Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Richa, Franco Montoro, Teotônio Vilela, José Serra, Tasso Jereissati foram alguns dos fundadores do partido que juntou conservadores, liberais, sociólogos e boa parte da esquerda do PMDB. Esse novo partido lançou Mário Covas candidato na eleição de 1989. Covas ficou em quarto lugar, mas muito à frente de Ulysses e atrás de Brizola (PDT) e dos dois candidatos que foram ao segundo turno, Collor (PRN) e Lula (PT).

Depois do fracasso da candidatura de Covas alguns líderes tucanos achavam melhor se reincorporar ao PMDB. A ideia não foi para frente e o PSDB deu sustentação ao governo de Itamar Franco, o vice que entrou no lugar de Collor. No governo Itamar, Fernando Henrique foi para o Ministério da Fazenda e liderou uma equipe de economistas que elaborou o mais bem sucedido plano contra a hiperinflação.

PMDB agora quer ocupar o espaço deixado pelo PSDB, mas os tucanos não se renderão fácil.

Ciro, Tasso, FHC e a candidatura a presidente em 1994

Ciro Gomes, que naquela época era do PSDB, disse em entrevista à TV Brasil (vídeo acima) que a equipe que criou a URV, origem do Plano Real, foi montada pelo Tasso Jereissati e por ele. Ciro disse na entrevista que FHC tomou a candidatura a presidente de Tasso. Segundo Ciro, Mário Covas pretendia se candidatar ao Governo de São Paulo e deixou o caminho livre para outro tucano pegar a candidatura para presidência.

Ainda segundo Ciro, Tasso esperava que FHC o chamasse para ser o candidato do PSDB, já que ele montou a equipe do Plano Real junto com Ciro. Mesmo ressentido, Tasso aceitou a candidatura de Fernando Henrique a presidente e se candidatou ao governo do Ceará. FHC foi eleito presidente no primeiro turno, Tasso eleito governador do Ceará e Ciro deixa o PSDB.

Ciro conta na entrevista que esse episódio foi a única vez que ficou contra Tasso, que o lançou na política. Depois desse episódio Ciro Gomes saiu do PSDB e foi candidato a presidente em 1998 e 2002, as duas candidaturas pelo PPS. Ciro ficou em terceiro em 1998 e não impediu que Fernando Henrique conseguisse a reeleição no primeiro turno. Na segunda tentativa de chegar ao Planalto, Ciro chegou a liderar as pesquisas da sucessão presidencial de 2002, mas logo caiu para o quarto lugar e lá ficou quando as urnas foram abertas.

Aécio dobra a aposta no antipetismo

Aécio está numa batalha de estratégias contra o governador Geraldo Alckmin

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Na entrevista que concedeu ao jornal o Estado de São Paulo, Aécio falou de eleição, estelionato eleitoral, sobre o governo e sobre a presidente Dilma; reconheceu erros da sua campanha em Minas Gerais onde governou por oito anos com 92% de aprovação popular e, mesmo assim, perdeu nos dois turnos para Dilma, mas ele acha que o que pesou no resultado final foi não ter tido uma boa votação no nordeste. Aécio também falou do ex-presidente Lula. O tucano se sente magoado com Lula pela agressividade dele durante o segundo turno.

O Senador Aécio Neves (PSDB/MG) está com um discurso de oposição claramente antipetista que beira ao radicalismo, um pouco mais que na campanha presidencial de 2014. Aécio está com um discurso oposto ao de Fernando Henrique Cardoso, que alterna um tom mais crítico e ameno ao governo Dilma.

Quando assumiu o comando do partido, o mineiro (carioca) resgatou Fernando Henrique de volta à cena política até mesmo dentro do partido. O PSDB praticamente escondeu nas suas três campanhas presidenciais anteriores o ex-presidente que deixou o Palácio do Planalto com alta rejeição pela política de arrocho praticado no segundo mandato e ao racionamento de energia elétrica de 2001. Aécio está numa batalha de estratégias contra o governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP) por 2018. Enquanto o senador vai para o confronto contra o governo federal apostando no impeachment no Congresso Nacional ou na cassação dos mandatos de Dilma e Temer no TSE, o governador critica o governo de forma mais contida – Aécio é parlamentar e Alckmin chefe do executivo estadual, tem uma diferença também – e aposta no desgaste do PT.

Só o tempo dirá qual estratégia será exitosa dentro do partido e se será exitosa na eleição. A estratégia de Aécio Neves é mais complicada. Mas Aécio tem um patrimônio eleitoral gerado pelos 51 milhões de votos que Alckmin não tem. E ainda tem o senador José Serra (PSDB/SP) a espera de uma chance para disputar a presidência da República pela terceira vez. Especula-se até que Serra pode ir para o PMDB para ser o candidato que o partido procura para a sucessão de Dilma.

Brigas internas podem comprometer as chances do PSDB vencer em São Paulo

Geraldo Alckmin e o secretário de segurança Alexandre de Moraes
Geraldo Alckmin e o secretário de segurança Alexandre de Moraes

Pensando nas eleições municipais de 2016, os presidenciáveis do PSDB, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, estão juntos na tentativa de colocar as prévias do partido para escolha dos candidatos para os diretórios estaduais deixando os diretórios municipais sem poder de decisão. Aécio e Alckmin disputam a indicação para ser o candidato tucano a presidente em 2018 e estão numa verdadeira guerra de estratégias. O diretório tucano da maior e principal cidade do país está resistindo à intervenção. Presidente do diretório municipal do PSDB/SP, Mário Covas Neto, o Zuzinha, resiste em adiar a data final de inscrição para quem quer disputar a prévia paulistana, como deseja Alckmin e Aécio quer estender para todo Brasil.

O que quer Alckmin, na verdade, é colocar um nome de sua confiança para disputar contra o prefeito Fernando Haddad. Esse nome é do secretário de segurança pública do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes. Andrea Matarazzo, o empresário João  Dória Jr., Bruno Covas, Ricardo Tripolli e José Aníbal não agradam o governador. Matarazzo é ligado ao grupo do senador José Serra.

Alckmin quer fazer o que fez Lula ao lançar Dilma para presidência e Haddad em São Paulo: lançar um completo desconhecido para prefeito da maior cidade da América do Sul. O detalhe é que Alckmin não é Lula e está longe da popularidade que tinha o ex-presidente entre 2010 e 2012.

Novamente o PSDB bate cabeça na hora de decidir o candidato do partido em São Paulo, já virou uma regra e não só na capital paulista. O PSDB caminha a passos largos para ser um novo PMDB cheio de federações dentro do partido. Está na hora dos tucanos deixarem o ego um pouco de lado para pensar na unidade do partido. Ou, talvez, seja o destino do PSDB virar o que virou o seu “pai” PMDB.

Íntegra da nota do presidente do diretório municipal do PSDB/SP

Quero expressar minha indignação e repúdio à resolução apresentada em recente reunião da Executiva Estadual que visa retirar da Executiva Municipal o processo de condução de prévias para escolha do candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo.

Tal atitude atesta a falta de compromisso com a democracia interna do partido e com aqueles que até o momento se apresentaram como pré-candidatos. Ao mesmo tempo, deixa explícito o nefasto objetivo de imposição de um novo nome, ainda escondido atrás de atitudes casuísticas, e o completo desprezo pela militância nas decisões da sigla.

Os entusiastas de tal prática coronelista parecem ter se esquecido que o PSDB nasceu justamente pelas mãos de um grupo que rechaçou a inexistência de democracia interna do partido ao qual pertenciam.

Os 27 anos de história do PSDB sempre foram pautados pelo respeito às instâncias partidárias, pela participação dos filiados em sua orientação política e escolha de seus dirigentes e pela disciplina que sempre assegurou sua força e unidade.

Agora, todos esses valores veem-se ameaçados diante desta resolução que contamina o processo de prévias na capital paulista.

Sou veementemente contra qualquer manobra da Executiva Estadual de interferir neste processo, já em andamento, muito menos sem uma justificativa plausível.

O PSDB nunca teve espaço para imposições opressoras e covardes. E não será diferente agora. A militância tem voz e esta voz prevalecerá.

Mario Covas Neto
Presidente do diretório municipal do PSDB

PSDB: Eterna oposição

A indecisão do PSDB o deixará eternamente no posto de oposição no melhor estilo morde e assopra

Depois de jogar lenha na fogueira, agora o PSDB desacelera na questão do impeachment da presidente Dilma, mas continua apoiando a causa, só não vai liderar. É o famoso: Eu apoio, mas não meto a mão no fogo para não me queimar. O partido não enxerga que isso é que queima o filme da agremiação.

Após o PT assumir o governo, em 2003, e incorporar a agenda tucana, o PSDB ficou procurando uma bússola para se guiar. O partido foi criado por muitas tendências. De uma corrente mais liberal passando pela democracia cristã e sociólogos de esquerda. Por isso o nome do partido carrega a Social Democracia Brasileira. Um dos criadores da legenda, Franco Montoro não gostou muito e criou o símbolo do partido, o Tucano. Gostava de ser chamado de “tucano” e não de peessedebista.

Nos últimos anos o partido foi ganhando a fama de ser conservador, seja lá o que significa ser conservador no Brasil. O PSDB abrigou candidaturas do tipo de Matheus Sathler, o que afastou do partido eleitores de centro-esquerda. E até de centro.

A indecisão do PSDB, um partido que se fecha entre seus caciques e não deixa associados participarem de decisões importantes, como a escolha dos candidatos nas eleições, o deixará eternamente no posto de oposição no melhor estilo morde e assopra.

Primárias para o PSDB e PMDB, como nos Estados Unidos

Fábio Piperno

Gosto das campanhas eleitorais para a Casa Branca. Acho importante a superexposição dos pré-candidatos nos vários debates e nas rodadas de primárias. Todos os pretendentes ao cargo mais poderoso do mundo têm as opiniões e a vida vasculhadas sem dó, o que não permite a nenhum eleitor a desculpa de ter sido enganado antes de entregar seu voto.

Claro que há coisas incompreensíveis, como o caucus de Iowa, o pequeno estado que abre oficialmente no início de janeiro a temporada dos escrutínios estaduais em que os postulantes vão angariando delegados e apoios para o momento da formalização das candidaturas nas convenções partidárias.

O estado de Iowa é pequeno, mas importante no processo eleitoral. Lá, os produtores de milho exercem considerável influência. Por conta disso, temas como subsídios agrícolas e a produção de grãos para suprir a demanda pelo etanol made in USA estão sempre na agenda eleitoral. Aliás, os empresários brasileiros desses setores deveriam acompanhar com atenção as promessas que Iowa consegue obter dos presidenciáveis.

Arrancar bem por lá motiva o pré-candidato e, principalmente, seus financiadores. Como o estado representa poucos delegados nas convenções partidárias, alguns figurões fizeram pouco do local e se deram mal.

Em 2008, por exemplo, o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, então um dos favoritos à nomeação entre os Republicanos, nem apareceu por lá para fazer campanha. Com a ausência, deu aos rivais John McCain, Mitt Romney e Mike Hukabee a chance de aparecem mais nos veículos de comunicação de todo o país. Dias depois, fez o mesmo no igualmente pequeno estado de New Hampshire. Como castigo, não conseguiu mais recuperar o terreno perdido e foi constrangido a desistir bem antes da convenção.

Mas a verdade é que a corrida eleitoral começa bem antes do caucus de Iowa, especialmente agora com o número recorde de aspirantes pelo lado republicano. Por enquanto são 17, o que provoca incômodos para as emissoras de televisão que estão organizando os debates entre eles. A solução por hora é dividi-los em dois grupos, definidos de acordo com as pesquisas eleitorais. Na, digamos, primeira divisão, entram os dez primeiros. A série B, igualmente animada, concentra os demais.

Entre os 17 tem de tudo. Neste cast republicano, há sobrenome ilustre, bilionário que odeia pobres e imigrantes (com um discurso que certamente teria considerável apelo no Brasil), católico conservador, batista conservador, nomes ligados ao Tea Party, que por definição é ultraconservador, intervencionistas que defendem a América porrete do mundo, um libertário que quer os Estados Unidos distantes de qualquer confusão militar que provoque gastos públicos, uma mulher e remanescentes de outras campanhas.

Com são obrigados a visitar todos os estados do país, estabelecem compromissos com eleitores de todas as regiões. A inteligência desse sistema eleitoral não permite ao pré-candidato negligenciar qualquer estado, por menor que seja, sob pena de dar ao concorrente os delegados que podem decidir a convenção nacional.

Outra vantagem é a chance maior de projeção de lideranças que muitas vezes estão distantes do establishment partidário. Foi assim, por exemplo, com Bill Clinton, então um semidesconhecido governador do esquecido estado de Arkansas, que pôde projetar-se nacionalmente por conta das primárias e dos debates.

E então, por que os partidos brasileiros não implantam algo parecido por aqui? O PSDB tem três nomes que já disputaram eleições presidenciais e que certamente ainda acalentam o sonho de desembarcar no Planalto. Então, não seria o caso de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra rodarem o país, se apresentando para os eleitores de todos os estados?

O sistema americano de primárias, como disse antes, abre mais oportunidades a nomes menos prestigiados entre os caciques partidários. Assim, nada impediria que o senador Álvaro Dias, por exemplo, também se lançasse em busca da indicação partidária, que se tornaria muito mais democrática, com muito mais participação dos filiados da base, geralmente ignorados.

O mesmo se aplicaria ao PMDB, que ameaça renunciar ao papel de coadjuvante do poder para voltar a tentar voo solo na direção do Planalto. Aí, por conta da confederação nacional de caciques instalados no partido, o jogo seria ainda mais divertido. Ah, e não me esqueci do PT. Mas por lá, o tema só valerá no pós-Lula.