PT, 35 anos

Nesses doze anos de PT houve avanços, principalmente no social. E despolitização

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Muito se fala do legado que o PT vai deixar depois de doze mais os próximos quatro anos no poder. Ao final do governo Dilma Rousseff, serão dezesseis anos de governos petistas, um recorde em períodos democráticos.

O PT passou a ser odiado por muitas pessoas, inclusive ex-petistas. E, apesar de todas as denúncias de corrupção envolvendo a alta cúpula do partido com a prisão de dois ex-presidentes da sigla, José Dirceu e José Genoino, mensalão e agora o petrolão, o PT se mantém com uma militância orgânica ativa que por vezes lembra uma religião.

A verdade é que nesses doze anos de PT houve avanços, principalmente no social. E despolitização. Centrais sindicais passaram a ser sucursal da presidência, a União Nacional dos Estudantes só se mobiliza quando seus interesses são contrariados, movimentos socais fazem mais carinho no governo do que críticas mais fortes.

O ex-presidente Lula soube amarrar centrais, UNE e movimentos sociais mesmo fazendo afagos a empresários e em banqueiros. Dilma Rousseff não é de muita conversa como Lula, mas no aperto foi se abrigar na esquerda e na militância petista na última eleição. Ganhou a eleição mais disputada da história e seu segundo governo realiza um forte ajuste fiscal que tanto acusou seus adversários na campanha. Os adversários acusam o ajuste fiscal de tapa buraco que o próprio governo Dilma cavou e faz o ajuste via aumento de imposto sacrificando o trabalhador.

É preciso um estudo mais profundo do porquê o PT vence as eleições presidenciais depois de tantas denúncias e contradições. Se é porque a oposição é fraca, incompetente e não aproveita os pontos fracos do petismo como deveria ou se os ganhos sociais, sobretudo da população mais pobre, são suficientes para uma gratidão eterna ao Partido dos Trabalhadores. Depois de anos de tanto descaso do poder público para os “excluídos”, é compreensível.

Mas os “excluídos”, que viraram a nova classe média, estão mais exigentes. Não querem mais só o pão, querem saúde digna, boa educação, segurança pública eficiente, transporte de qualidade e lazer. Enfim, querem cidadania. Querem gozar dos direitos que um cidadão têm direito. O PT tem que provar se pode mais do que fazer assistência social.

Creio que chegou a hora da esquerda democrática formar um novo partido. O atual PT está viciado. Mesmo se conseguir deixar esse vício o partido morre porque não consegue mais viver sem o vício. A alternativa não é o PSOL, dividido em alas. Porém, no PSOL e o que sobrou da Rede estão elementos para reorganizar a esquerda democrática.

É isso ou o retrocesso. E o retrocesso é o PT.

Novo PT

Não acho que será o fim do PT essa divisão interna entre o grupo de Lula contra o grupo da presidente Dilma, de Aloizio Mercadante e de Rui Falcão, como disse o agora senador Ronaldo Caiado (DEM-GO). O PT é o único partido do Brasil que tem uma militância orgânica ativa que foi comprovada na eleição 2014, isto é uma fonte de energia importante. Mas, sem dúvida, se essa divisão for real e não um jogo de cena, vai deixar feridas profundas no Partido dos Trabalhadores.

Chegou a hora do PT ter o reencontro consigo mesmo e decidir que caminho seguir daqui para frente, se vai expulsar do seu corpo físico células do antigo PT. De qualquer forma, aquele Partido dos Trabalhadores da década de 1980 e 1990 não existe mais, são dores normais da mudança que começou a acontecer a partir de 2005. O escândalo do mensalão foi o marco zero do novo PT.

Se a ex-prefeita e atual senadora Marta Suplicy sair do PT certamente outros membros antigos também seguirão outro caminho ou o mesmo da senadora. O PT é dividido internamente por várias facções e desde que subiu ao poder várias dessas facções saíram do partido. O resultado dessas dissidências foi a criação de vários partidos de esquerda: PSTU, PCO e PSOL. Além de partidos que sempre foram aliados do PT e foram durante os anos se desligando do partido, como o PCB e na última eleição o PSB. Lula quer reorganizar a base do partido mais à esquerda, mas é uma tarefa difícil, principalmente por causa do inicio do segundo governo Dilma.

Contudo, se for verdade, essa divisão dos grupos lulista e dilmista pode ser benéfica para os planos de Lula. O PT já mudou. Agora é hora do partido decidir que mudança foi essa e qual ala sairá vitoriosa nessa disputa interna. Independente do resultado uma coisa é certa: é um caminho sem volta.

O voto por interesse não é errado

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Não concordo quem “acusa” o eleitor de votar pela “barriga”, por interesse. Você vota por interesse mesmo. O interesse pessoal, de uma região ou por interesse nacional. Tem quem vota pelo interesse internacional, meio-ambiente, por uma classe de trabalhadores, empresários. Vota por movimentos sociais – gays, negros, etc. Se o Nordeste deu mais de 20 milhões de votos para Dilma e vem votando desde 2002 no PT, é que antes a região não tinha nada. Hoje, tem alguma coisa.

Na última semana foi divulgado um levantamento que mostra que cresceu o número de miseráveis no estado mais rico da federação, São Paulo. Há que se ressaltar que São Paulo é o estado mais populoso e isso afeta o resultado.

Mas não anula o fato do Nordeste ser a região que mais cresceu nos últimos dez anos. O programa Bolsa-Família entre outros programas sociais foram fundamentais para esse crescimento. O BF, por exemplo, ajuda a movimentar o mercado de várias cidades pequenas da região. Em algumas cidades da região chega a ser a engrenagem principal da economia.

Apesar de avanços significativos, ainda há 3,6 milhões de miseráveis no Nordeste, mais da metade do total de miseráveis no Brasil. Pela primeira vez em dez anos a diminuição da miséria parou de cair no País. Como o aumento em números absolutos foi muito pequeno e a pesquisa é feita com base numa amostra, os estatísticos preferem falar em estagnação da miséria em vez de aumento.

É preciso avançar. E para isso será necessário destravar a economia que anda parada. Só com crescimento robusto e sustentável é que a miséria vai continuar caindo para um dia o Brasil ficar livre dessa chaga social que é ter milhões de miseráveis. Se a economia não cresce, se as regiões mais desenvolvidas não voltarem a crescer, vai ter uma hora que as regiões mais pobres sofrerão o impacto negativo.

Como diz o ditado – e isso não é preconceito ou xenofobia – o rabo não consegue abanar o cachorro. O trem não anda se a locomotiva travar.

Estelionato eleitoral

Alexandre Tombini (BC), Nelson Barbosa (Planejamento) e Joaquim Levy
Alexandre Tombini (BC) e Nelson Barbosa (Planejamento) ao fundo e Joaquim Levy (Fazenda) em destaque

Com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, surgiu a discussão se Dilma praticou estelionato eleitoral na campanha. Quem não se lembra da peça publicitária do marqueteiro João Santana que passava a seguinte mensagem: se o Banco Central fosse Independente, “os banqueiros é quem mandarão na economia e não o presidente eleito pelo povo”, com isso “os empregos sumiriam” junto com “a comida dos pobres”. Tudo isso depois que a Marina Silva ensaiava colocar a questão da independência do BC no debate eleitoral.

Teve mais. Pela amizade de Marina com Neca Setúbal, herdeira do banco Itaú, choveram críticas na campanha oficial do PT como da militância na internet. O debate sobre a independência do Banco Central ficou distorcido. Marina e Armínio Fraga, escolhido por Aécio Neves para o Ministério da Fazenda em caso de vitória do tucano, foram trucidados pela militância petista nas redes sociais e também nos blogs ditos “progressistas”.

No meio da campanha, a presidente Dilma praticamente demitiu Guido Mantega do Ministério da Fazenda e afirmou “Governo novo, ideias novas”. O slogan da campanha da reeleição era “Mais Mudanças. Mais Futuro”, ou “Muda Mais”, de Franklin Martins, para pegar o clima de mudança que estava no ar.

Todo político deixa para montar um plano de governo depois de eleito. O plano que é disponibilizado na campanha é por pura obrigação da justiça eleitoral e serve apenas como parâmetro para o verdadeiro que surge após a vitória nas urnas. É incoerente Dilma falar a campanha toda que não vai promover “medidas impopulares” e acusar seus adversários de promovê-las caso vencessem? É. Mas Lula chamou para o Banco Central no primeiro governo um banqueiro que era filiado ao PSDB, Henrique Meirelles.

O primeiro Ministro da Fazenda de Lula foi Antonio Palocci não só manteve a política fiscal do governo FHC como fazia rasgados elogios a ela. Aliás, Palocci não era o primeiro nome da lista para o ministério. O primeiro era Aloizio Mercadante, que acabara de ser eleito Senador por São Paulo com 10 milhões de votos e não queria trair os eleitores abrindo mão do mandato de Senador. Tenho a impressão de que Lula comemora até hoje aquela recusa de Mercadante.

O PT “tucanou” em 2003 e precisou “tucanar” em 2015. As contas públicas estão esgarçadas tanto que o governo está tentando aprovar o Projeto de Lei que o deixa livre para não fazer o superávit primário. Dilma não poderia cometer “sincericídio” e dizer que o governo dela estava errado na política econômica, ou poderia e se comprometer a mudá-la. Foi mais ou menos o que ela fez: “O que tá bom vai continuar, o que não tá a gente vai melhorar”. Se é estelionato eleitoral ou não, cada um que tire suas conclusões.

Lula erra ao comparar campanhas de Haddad e Padilha

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Lula erra comparando a candidatura de Alexandre Padilha para o governo de São Paulo com a candidatura de Fernando Haddad (PT) para prefeitura da capital paulista em 2012. É verdade que Haddad chegou a ter apenas 3% nas pesquisas, mas isso foi em MARÇO daquele ano.

Alexandre Padilha (PT) tem míseros 4% de intenções de voto para governador de São Paulo, segundo a pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira. Só um milagre salvaria essa candidatura.

Um dos motivos para eu achar que a candidatura Padilha não tem jeito é que o fato de o PT sempre ter um mínimo de 30% em São Paulo, só que para chegar lá tem que largar na campanha com pelo menos 10 ou 15%. Menos de 5% complica. Apenas 4% em JULHO é muito pouco. E ainda temos Maluf pulando fora da chapa petista e desembarcando na chapa do PMDB de Paulo Skarf, o que prejudica Padilha no tempo de TV.

Além de Padilha não ser o Haddad, Geraldo Alckmin (PSDB) não tem a rejeição de José Serra (PSDB) e Skarf não é o Celso Russomanno. Mesmo com a crise de água provocada pelo pior período de seca em décadas em São Paulo, o governador Alckmin lidera a corrida ao Palácio Bandeirantes com 54% das intenções de voto.

Quem deve abrir um sorriso maroto vendo os 4% do Padilha é Marta Suplicy, preterida duas vezes por Lula. Em 2012 deu certo. Desta vez, parece que o plano de Lula de colocar um nome novo na disputa, uma renovação política, não vai dar certo.

O quadro para o PT é complicado em São Paulo. Justamente o maior colégio eleitoral do país, que pode decidir essa que é a eleição presidencial mais imprevisível desde 1989.