Três programas, três estratégias

PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado

Vinícius Melo Justo (@relances)

No estágio de pré-campanha, muitas informações podem ser erráticas. O jogo político brasileiro é consideravelmente menos previsível do que o americano, por exemplo: o multipartidarismo, a falta de interesse da maioria da população até o momento próximo da eleição e a importância da propaganda na televisão tornam bastante difícil prever certos movimentos com precisão. O caso Russomanno nas eleições municipais em 2012 mostra como as expectativas podem ser revertidas na dinâmica nacional, embora diversos fatores estudados a fundo pela Ciência Política permitam compreender ao menos as possibilidades mais plausíveis a serem consideradas na análise.

O jogo dos bastidores pode ser ainda mais complicado, pois dependerá sempre da qualidade das informações obtidas pela imprensa – e na política ninguém fornece algo sem algum interesse, mesmo que seja apenas pela publicidade de certos fatos. Mas o horário partidário na televisão tende a ser mais transparente em relação à interpretação do momento feita pelos partidos, indicando a tendência de cada um quanto ao modo como percebem as necessidades imediatas da campanha.

Com alguma distância temporal entre si, os programas recentes de PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado com vistas à corrida presidencial. Analisá-las permite identificar as diferenças em seus objetivos e estratégias, ainda que a linguagem publicitária leve a alguma padronização esperada das mensagens. No entanto, a leitura precisa entender, para além das preferências partidárias e ideológicas, o que a forma dos programas diz para além de seu significado mais explícito.

Programa do PSB (27 de março de 2014)

BRASÍLIA, DF, BRASIL 05.10.2013 - MARINA SILVA/PSB: A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB e fecha acordo político com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para a corrida presidencial de 2014. Foto: Alan Marques/Folhapress
BRASÍLIA, DF, BRASIL 05.10.2013 – MARINA SILVA/PSB: A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB e fecha acordo político com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para a corrida presidencial de 2014. Foto: Alan Marques/Folhapress

Existem estilos concorrentes na propaganda do PSB, divulgada há pouco mais de dois meses. A abertura tem um espírito jovial, chamando por “atenção” e servindo para diferenciar-se da programação normal da TV. Então, no primeiro minuto, ouvimos Eduardo Campos e Marina Silva falarem sobre o que seria sua maior semelhança: ambos “de luta e de paz”, com a ênfase algo desconfortável de Campos no epíteto “filhos da esperança” – distanciando-se do jovial presente nos primeiros segundos em favor de algum popularismo. Em outra chave, o filtro sépia parece tentar produzir a ideia de uma visão diferente das coisas, causando alguma estranheza pelo aspecto envelhecido da imagem.

Gasta-se algum tempo procurando “justificar” a aliança PSB-Rede, concentrando-se nas qualidades pessoais de Campos e Marina e no tema do desenvolvimento sustentável, bem definido em suas intenções mas pouco ou nada descrito em termos de propostas. Aproveitou-se o tema para a crítica à gestão da Petrobrás, ao elogio dos avanços econômicos até Lula, tomando o cuidado para criticar apenas Dilma, investindo contra os retrocessos. De maneira clara, o programa busca o eleitor algo descontente com o atual governo mas que esteve satisfeito durante o período Lula: não tanto um posicionamento à esquerda do PT, mas de afirmação de maior capacidade para “transformar o país”.

A estratégia de Campos, no entanto, talvez não encontre o melhor resultado nessa mescla de estilos visuais, mas na ideia por trás do programa: a produção de diálogo, conversas. Há duas necessidades subentendidas aí: primeiramente tornar Campos conhecido entre os brasileiros, apoiando-se no recall de Marina em relação a 2010; em segundo lugar, definir-se como o candidato da busca de consenso, rejeitando o atual rumo nacional mas considerando suas virtudes. Uma estratégia típica de terceira via, mas ainda em busca de sua melhor tradução visual.

Programa do PSDB (17 de abril de 2014)

Senador Aécio Neves (PSDB/MG)
Senador Aécio Neves (PSDB/MG)

Antecipado, o programa do PSDB também investe na conversa. Mas em vez disso o que se tem é uma espécie de entrevista de Aécio, com o apagamento do entrevistador. Existe uma narrativa muito clara no programa, começando pela história de vida de Aécio (conectando-o ostensivamente ao avô Tancredo Neves), sua passagem na Câmara e no Governo de Minas, sua opinião sobre os protestos de junho de 2013. Tudo isso entremeado com imagens antigas, dados e trechos de outros programas. Um programa bastante tradicional, talvez de propósito.

O principal objetivo é, além de tornar Aécio mais conhecido e simpático ao grande público, é apresentar suas qualidades como gestor público e comprometido com o funcionamento do governo e não com os arranjos políticos. Sobram críticas, sutis ou não, ao atual governo, posicionando-o como um candidato de oposição muito bem definido. Acena também para os participantes dos grandes protestos, defendendo o diálogo (assim como Campos).

A diferença entre os diálogos de Campos e Aécio é clara: este pretende conversar com o povo para conhecer os problemas que seriam produzidos pela ineficiência do governo, aquele para construir entendimentos de interesse nacional. É de se notar que no segundo caso existe a pressuposição de que algum consenso é possível e desejável – enquanto no primeiro a ideia é totalmente representativa: Aécio conversa para depois atuar em nome daqueles que representa. Assim, define-se na oposição de forma eficiente, mas dificulta um pouco o necessário diálogo com aqueles que Campos tenta atingir – os eleitores de Lula descontentes com Dilma.

Programa do PT (16 de maio de 2014)

Presidente Dilma Rousseff
Presidente Dilma Rousseff

Bastante criticado pelo tom de “medo”, o programa do PT aposta em atacar os “fantasmas do passado”, procurando minar desde já o discurso oposicionista, garantindo que o PT produzirá os melhores resultados para as mudanças necessárias no Brasil. É um claríssimo caso de programa composto para “segurar” o voto que já tem, buscando evitar a migração de eleitores apresentando os triunfos de todo o período do PT.

A dependência de Lula ainda é muito sensível. Dilma não tem tanto carisma e elocução quanto Aécio e Campos, ainda menos comparada ao seu antecessor. Portanto, o programa investe mais em quadros informativos e segmentos específicos. O risco aí é parecer muito autoindulgente: citar inúmeros avanços e reduzir as críticas a “pessimismo” aliena de forma decisiva o eleitor descontente, mas fortalece a convicção daqueles já dispostos a votar pela continuidade.

Mas há problemas. Chama a atenção, por exemplo, a fórmula estranha de Rui Falcão ao dizer que os protestos de 2013 revelam a necessidade de uma reforma política: “é como um corpo novo numa alma velha”, conclamando por uma “constituinte exclusiva”. Não seria o contrário? Uma alma nova presa pelo corpo envelhecido? A inversão faz pensar: terá o PT a convicção de que o problema é a mentalidade e não a estrutura? É um abandono curioso da ideia da estrutura social determinando as condições objetivas nacionais.

As diferenças visíveis entre os três programas indicam como a eleição presidencial está aberta neste momento – talvez como nunca desde 1989. As três estratégias, procurando consolidar as trincheiras de cada um dos candidatos, serão mais desenvolvidas em agosto – mas, até lá, o cenário forçará mudanças. Para quem quer entender o processo, é preciso acompanhar passo a passo.

Vinícius Melo Justo é graduado em Letras e mestrando em Teoria Literária pela USP.

Onde foi parar o “velho” PT

militantes ptOnde foi parar o PT de 1989, do jingle eleitoral mais marcante de todos os tempos, da “esperança venceu o medo”?  Aquele PT que nasceu da base e unia gente de todas as classes. Do gari, do artista, do intelectual, da classe média. O partido que nasceu para trazer luz à escuridão e transformar o país acabou se transformando naquilo que sempre disse combater.

Todos têm direito e devem rever seus pontos  de vista e opiniões. Já diz o ditado que só os ignorantes não mudam de opinião. Porém, uma coisa é rever um conceito. Outra, bem diferente, é fazer aquilo que você sempre combateu.

O PT nasceu socialista. Nos primeiros anos de fundação, o partido pregava claramente bandeiras comunistas como a moratória da dívida externa brasileira, uma reforma agrária mais radical, taxação de grandes fortunas, entre outras bandeiras mais radicais.

O PT acusava a elite brasileira de ser contra o partido que queria mudanças. De fato, havia um preconceito contra o PT por ser um partido criado por operários; e preconceito contra o Luiz Inácio Lula da Silva que era um torneiro mecânico e um retirante nordestino semi-analfabeto. Esses fatores foram alguns dos motivos de Lula ter perdido três eleições presidenciais seguidas.

A derrota de 1989, onde até sequestrador usando a camisa do PT foi usado na campanha contra Lula. Em 1994, o Plano Real, que o PT votou contra na Câmara dos Deputados por achar na época um programa eleitoreiro, foi o fiel da balança e deu a vitória a Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 1998, ainda resistia um medo de Lula ganhar a eleição. As bandeiras radicais e o medo do empresariado de Lula se tornar presidente da República fizeram com que o petista escrevesse a “Carta ao Povo Brasileiro” na eleição de 2002, convidando o empresário José Alencar (PL) para ser seu vice. Um PT tão menos radical que Lula foi apelidado de “Lulinha paz e amor” e, enfim, ganhou. Lula chegou lá.

No governo, esqueceu as bandeiras radicais do PT dos primeiros anos, colocou no Banco Central o então tucano Henrique Meirelles e ganhou a confiança do empresariado. Graças também à política fiscal do seu primeiro ministro da economia, o petista Antonio Palocci. No social, primeiro tentou o programa Fome Zero. Não deu muito certo. Partiu, então,  para outra ideia e essa sim foi certeira: unificar os programas sociais já existentes. Daí surgiu o Bolsa Família que em 10 anos passou de 3,6 milhões de famílias para 13,8 milhões de famílias atendidas – 50 milhões de pessoas. Programa celebrado por muitos países como o mais direto programa de distribuição de renda e diminuição da pobreza extrema.

Agora, o lado negro dos 11 anos de governo do PT. Depois do escândalo do mensalão em 2005, que resultou na condenação e prisão da ex-cúpula do Partido dos Trabalhadores – incluindo o manda-chuva do partido e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu – e da reeleição do presidente Lula em 2006, Lula resolveu fazer um governo de coalizão e convidou o PMDB para isso. O fisiologismo, que não surgiu no governo petista, reinou absoluto. A chantagem e o toma-lá-dá-cá também reinaram. O Lula sabia contornar uma crise, diferente de sua sucessora, Dilma Rousseff, o que acabou eclodindo na rebelião do chamado “blocão”.

Na campanha de 2010, Lula mostrou Dilma Rousseff como uma “gerente eficiente”, a “mãe do PAC” (Programa de Aceleração do Crescimento). No entanto, a crise na Petrobras mostra o contrário. Mostra que Dilma foi uma invenção de Lula, um ‘tapa buraco’ até que ele possa voltar.

A origem de um partido

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Pedro Spiacci

Hoje, a cada dia, há uma nova notícia de um grupo que tem o interesse de formar um partido. Estas pessoas se organizam, criam estatutos, começam a disseminar as ideias e atraem interessados em outros estados.

A partir daí, estão aptos para organizar os diretórios estaduais que vão liderar o processo de coleta de assinaturas. O partido precisa alcançar o número de assinaturas igual a 0,5% dos votos válidos na última eleição para a câmara dos deputados – hoje, cerca de 500 mil pessoas. A importância dos diretórios locais é que os signatários devem ser divididos em, pelo menos, nove estados, onde devem representar, no mínimo, 10% do eleitorado do estadual.

Recentemente, dentro da data limite para a disputa da próxima eleição, duas novas legendas foram criadas e ainda a Rede Sustentabilidade foi rejeitada. Um deles é o PROS, que se uniu ao PP na Câmara, e, com isso, formou a terceira maior bancada na casa. O outro é o Solidariedade, que, com 22 deputados, é o nono mais poderoso do congresso nacional. Porém, antigamente, durante o regime militar, as coisas funcionavam de forma diferente e a luta era muito maior.

Tendo em vista esta dificuldade, quando me formei em jornalismo (dezembro de 2012), realizei um extenso trabalho de pesquisa sobre a origem do Partido dos Trabalhadores em Londrina e, consequentemente, no Brasil. O resultado foi um rádio documentário que recebeu nota dez da banca e que mostra muita coisa: como é a origem, o trabalho de consolidação da legenda, as dificuldades dos governos, a influência de atitudes nacionais no diretório local e outras curiosidades sobre o funcionamento das siglas no país.

Importante ressaltar que Londrina não foi o berço do PT, mas a movimentação no norte do Paraná é muito semelhante àquilo que se viu em São Paulo. Além disso, os petistas londrinenses têm muita força nacionalmente e este é outro ponto que será tratado durante o rádio documentário.

Brizola, o PT e os conservadores lúcidos

Lula e Brizola

Fábio Piperno 

O ex-policial federal e agente da ditadura João Lucena Leal falou em entrevista publicada na Folha de SP (24/11) sobre o plano de sequestrar Leonel Brizola, na época em que o político gaúcho vivia exilado no Uruguai e era o inimigo número 1 dos militares instalados no poder desde 1/04/64.

Imediatamente minha memória viajou no tempo e na história. Na única vez na vida em que depositei na urna um voto com paixão em eleição para presidente, quem o recebeu foi Brizola. Na última década de vida, fez muitas coisas das quais discordei. Mas o meu respeito por ele permaneceu intacto. Falava mais alto o conjunto da obra em favor da legalidade no país.

Em setembro de 2004 eu estava em uma clínica, acompanhando meu pai que fazia radioterapia. Enquanto aguardava a sessão que tirava os cabelos, mas que tentava em vão devolver a saúde a meu pai, folheava uma revista Veja que estava à disposição dos visitantes. Brizola morrera dias antes. No obituário do líder do PDT, o colunista, amargo e padrão Veja, ignorou a história e a verdade de fatos importantes. No Brasil era (é) assim. A Direita consome a democracia, arrota ditadura e se refestela na poltrona lendo a Veja.

Volto ainda mais no tempo. Em um comício na Praça da Sé na década de 80, bem depois da campanha Diretas Já!, chega a vez de Brizola falar. Nem bem ajeitou o lenço vermelho no pescoço e a plateia petista, de maioria esmagadora naquele evento cívico, começa a gritar: 1, 2, 3… Brizola é Burguês!!!! E as vaias ao então governador do Rio de Janeiro, naquele momento aliado do PT, se multiplicavam feito labaredas em capim seco.

Anos depois, em plena campanha presidencial, Brizola encontra-se casualmente com Aureliano Chaves, o vice de João Batista Figueiredo, o último presidente do ciclo militar. Trocam um afetuoso abraço. Surpreso com a reverência que ali unia dois adversários políticos, um repórter pergunta a Brizola a razão do caloroso abraço.

“O doutor Aureliano é um homem digno e nós (a esquerda) só chegaremos ao poder quando nos aliarmos aos conservadores lúcidos. Juntos, eu e o Lula temos um terço dos votos e com isso não é possível ganhar eleição”, explicou Brizola, antevendo a história.

O PT aprendeu a lição. Aliás, assimilou tão bem que tornou-se parceiro de Maluf, Kassab e o mais fiel amigo do clã Sarney. Aliou-se aos conservadores. Mas nem sempre à lucidez.

Assistencialismo: o maior mal do governo petista

Gustavo Vaz

Quem frequenta as redes sociais sabe: não é preciso muito esforço para ver algum tucano, ou um anti-petista com visões superficiais do mundo, destilando seu ódio aos projetos sociais implantados pelos governos petistas recentes. Usando daquele manjado argumento que “é preciso ensinar a pescar, e não dar o peixe de graça aos pobres”, os ativistas de sofá acusam Lula, Dilma e seus blue caps de praticar assistencialismo barato. De certa forma, estes cidadãos não estão errados nas suas gritas, porém, não é no setor social que o PT é assistencialista, mas sim, no setor da politicagem. Explico, o PT chegou ao governo federal, em 2002, amparado por uma imensa rede de aliados, mantida quase que inteiramente até os dias de hoje. Pois bem, na sua história de uma década a frente da nação, o PT se vale de uma prática, no mínimo, questionável. O partido acertou com seus aliados uma espécie de pacto, que garante aos coligados alguma regalia em toda a relação de cargos importantes da gestão nacional, sejam eles na alçada legislativa ou ministerial.

Dessa maneira, temos ministérios sendo ocupados não por políticos especialistas na pasta, ou que tenham como plataforma política assuntos relacionados ao cargo que ocupam. Toda esta prática causa certos acidentes políticos dos quais o PT poderia evitar. Um exemplo do que escrevo é o Ministério dos Esportes. Reservado ao PC do B desde o segundo mandato de Lula, a pasta teve, nesse período, Orlando Silva e Aldo Rebelo como comandantes. Bem, Orlando Silva teve uma gestão errática. Sempre com uma imagem de “banana”, Silva dizia amém a qualquer desmando relativo aos preparativos dos grandes eventos esportivos que acontecerão em terras tupiniquins, e trouxe pouquíssimo avanço em termos de preparação de atletas e fomento da prática esportiva na base (com exceção da criação do Bolsa Atleta, reservado exclusivamente a praticantes de esportes olímpicos). No fim, Orlando Silva ainda se meteu num escândalo com os cartões corporativos do seu ministério. Aldo Rebelo, por sua vez, aparenta ser um homem com boa vontade, mas, é nítido que a praia dele não é o esporte…

Indo para outro ponto da Esplanada, chegamos ao Ministério da Pesca, ocupado por… Marcello Crivella, do PRB. Digamos que Crivella não é uma das figuras mais bem quistas pela população, especialmente, a fluminense, para começo de conversa. O ministro faz parte da bancada “evangélica” (colocarei a palavra entre aspas, em respeito aos evangélicos comuns, que não merecem ser representados por esse grupo), talvez o setor mais conservador da nossa política, extremamente arraigado no PRB, de quem o PT é aliado, e de quem recebe uma “boquinha”. Pergunto a vocês: qual a credencial que um pastor, com um passado político nada louvável, tem para ser Ministro da Pesca? A não ser que ele consiga invocar Jesus a repetir o milagre da multiplicação dos peixes em rios e mares brasileiros, não vejo nenhuma.

Outro partido tomado pela bancada “evangélica”, é o PR, também participante da base aliada. Tirando o ex-vice-presidente José Alencar (que era do PL, antes do partido virar PR depois da fusão com o PRONA) e alguns outros, grande parte do partido sequer tem os mesmos ideais de integração social do PT. Enquanto José Alencar era fiel a Lula (chegando a dizer que não assumiria a presidência caso Lula fosse deposto, durante toda a efervescência do Mensalão), seus pastores bradam seus discursos quase fascistas. Pois bem, saibam que do PR vem uma das exceções à prática que trato neste texto. A pasta do PR na cúpula governista é a dos Transportes, ocupada por Paulo Sérgio Passos, considerado autoridade no assunto. Talvez daí, venha um exemplo que é possível trazer especialistas aos ministérios, sem “magoar” algum partido aliado.

[A presidente Dilma empossou na última quarta-feira César Borges, ex-governador e ex-senador da Bahia, filiado ao PR, como o novo ministro dos Transportes]

Pensaram que essa situação acaba na Esplanada? Que nada, a prática do assistencialismo político também está presente no Congresso Nacional, e bem presente, diga-se de passagem. Basta notar como a base aliada se porta durante as eleições da Câmara e do Senado. Há um acordo entre a situação (maioria nas duas casas) de que a presidência do Senado “seja” do PMDB. Com isso, nenhum partido da base aliada lança candidatura e todos votam no nome peemedebista indicado. Bem, os últimos dois nomes que o PMDB lançou (e se elegeram) foram: José Sarney e Renan Calheiros. A história conta por mim o que esses dois já aprontaram.

Na política brasileira, há também o costume do principal aliado em uma coligação indicar o candidato a vice. Uma dica aos anti-petistas, levados pela mídia: parem de se focar em Dilma Rousseff nas suas revoltas nas redes sociais, olhem para o vice dela. Falo de Michel Temer, outro peemedebista com passado questionável – aliás, citei em meu último texto que Requião sempre defende o “velho MDB de guerra” – não é para menos, o partido que já foi símbolo da resistência à ditadura e teve em sua legenda nomes como Ulysses Guimarães, atualmente é um antro de nomes suspeitos e movido por pura politicagem, salvo raras exceções.

Ainda no Congresso, existem inúmeras Comissões dentro das casas. Cargos estes que mais uma vez são divididos cordialmente entre os partidos (aqui, não somente da base aliada, como o Leonardo Rossatto discorre em seu blog). Algumas delas acabam sobrando para partidos menores, devido a interesses dos grandes, dentre os quais, o PT está. As comissões julgadas como menos “importantes” pelo PT, também são entregues a base aliada. Ocorre que uma delas parou nas mãos do PSC, que indicou… Marco Feliciano, o pastor (que mais separa as ovelhas, do que as junta), eleito sem maiores problemas por seus colegas parlamentares, à Comissão dos Direitos Humanos. Apesar do fato já ter sido discutido exaustivamente internet afora, não custa dizer que temos um “pequeno” paradoxo nessa eleição de Feliciano.

É nítido que Dilma e o PT deviam repensar a prática de assistencialismo de cargos, praticada no governo federal atual. Permitir que Orlandos, Renans, Sarneys e Felicianos ocupem cargos importantes na hierarquia da nação é uma temeridade desnecessária, que só dá “pano para manga”. Óbvio que a política requer esse jogo de coligações e apoio – afinal, sem o PMDB ao seu lado, nenhum presidente resiste no Brasil – porém, há maneiras de fazer a coisa certa, de modo com que esses postos supracitados sejam ocupados por mérito, por gente que entende como a banda toca, e não, distribuídos a bel-prazer entre os amigos (que colocam nomes de interesse da cúpula dos partidos), sem que haja qualquer seleção em que a qualificação seja levada em conta.