Onde foi parar o PT de 1989, do jingle eleitoral mais marcante de todos os tempos, da “esperança venceu o medo”? Aquele PT que nasceu da base e unia gente de todas as classes. Do gari, do artista, do intelectual, da classe média. O partido que nasceu para trazer luz à escuridão e transformar o país acabou se transformando naquilo que sempre disse combater.
Todos têm direito e devem rever seus pontos de vista e opiniões. Já diz o ditado que só os ignorantes não mudam de opinião. Porém, uma coisa é rever um conceito. Outra, bem diferente, é fazer aquilo que você sempre combateu.
O PT nasceu socialista. Nos primeiros anos de fundação, o partido pregava claramente bandeiras comunistas como a moratória da dívida externa brasileira, uma reforma agrária mais radical, taxação de grandes fortunas, entre outras bandeiras mais radicais.
O PT acusava a elite brasileira de ser contra o partido que queria mudanças. De fato, havia um preconceito contra o PT por ser um partido criado por operários; e preconceito contra o Luiz Inácio Lula da Silva que era um torneiro mecânico e um retirante nordestino semi-analfabeto. Esses fatores foram alguns dos motivos de Lula ter perdido três eleições presidenciais seguidas.
A derrota de 1989, onde até sequestrador usando a camisa do PT foi usado na campanha contra Lula. Em 1994, o Plano Real, que o PT votou contra na Câmara dos Deputados por achar na época um programa eleitoreiro, foi o fiel da balança e deu a vitória a Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 1998, ainda resistia um medo de Lula ganhar a eleição. As bandeiras radicais e o medo do empresariado de Lula se tornar presidente da República fizeram com que o petista escrevesse a “Carta ao Povo Brasileiro” na eleição de 2002, convidando o empresário José Alencar (PL) para ser seu vice. Um PT tão menos radical que Lula foi apelidado de “Lulinha paz e amor” e, enfim, ganhou. Lula chegou lá.
No governo, esqueceu as bandeiras radicais do PT dos primeiros anos, colocou no Banco Central o então tucano Henrique Meirelles e ganhou a confiança do empresariado. Graças também à política fiscal do seu primeiro ministro da economia, o petista Antonio Palocci. No social, primeiro tentou o programa Fome Zero. Não deu muito certo. Partiu, então, para outra ideia e essa sim foi certeira: unificar os programas sociais já existentes. Daí surgiu o Bolsa Família que em 10 anos passou de 3,6 milhões de famílias para 13,8 milhões de famílias atendidas – 50 milhões de pessoas. Programa celebrado por muitos países como o mais direto programa de distribuição de renda e diminuição da pobreza extrema.
Agora, o lado negro dos 11 anos de governo do PT. Depois do escândalo do mensalão em 2005, que resultou na condenação e prisão da ex-cúpula do Partido dos Trabalhadores – incluindo o manda-chuva do partido e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu – e da reeleição do presidente Lula em 2006, Lula resolveu fazer um governo de coalizão e convidou o PMDB para isso. O fisiologismo, que não surgiu no governo petista, reinou absoluto. A chantagem e o toma-lá-dá-cá também reinaram. O Lula sabia contornar uma crise, diferente de sua sucessora, Dilma Rousseff, o que acabou eclodindo na rebelião do chamado “blocão”.
Na campanha de 2010, Lula mostrou Dilma Rousseff como uma “gerente eficiente”, a “mãe do PAC” (Programa de Aceleração do Crescimento). No entanto, a crise na Petrobras mostra o contrário. Mostra que Dilma foi uma invenção de Lula, um ‘tapa buraco’ até que ele possa voltar.
Gostei do texto. Essa mudança no PT depois da chegada ao poder é algo que me intriga demais.