Terrorista bom é terrorista no “Paredão”

Essa ameaça de agora não tem espaço para pacifismo

Paris-luto

Exatos dez meses do atentado terrorista no Charlie Hebdo, um novo atentado abalou a França e o mundo. Dessa vez, foi um atentado generalizado, uma ação coordenada e os terroristas já avisaram que “é só o começo”.

Chegou a hora das democracias ocidentais se unirem para conseguir uma fórmula para eliminar esse mal que ameça todo o mundo ocidental ou eles conseguirão o que querem. Esses ataques já são uma vitória do terror contra a civilização, a liberdade, a democracia, os valores cristãos e a cultura ocidental. Eles reforçam a xenofobia contra os muçulmanos. São munição e fortalecem discursos radicais da direita fascista, principalmente agora com essa migração em massa para a Europa.

Está fazendo falta um líder com o perfil do tipo do presidente americano Ronald Reagan (1980-1988). Os terroristas perderam o medo de atacar o ocidente de uns tempos para cá.

O discurso pacifista é bonito e acho que é importante. Mas essa ameaça de agora não tem espaço para pacifismo e menos ainda para qualquer tipo de diálogo. Estamos em guerra. Estamos em guerra contra um inimigo que já mostrou não ter um pingo de compaixão pelos seus inimigos e está disposto a tudo para vencer essa guerra. Se o ocidente ficar nessa indecisão e não for para o confronto direto, o inimigo vai vencer a guerra. Já pensou se o lado da democracia e liberdade ficasse com indecisão diante de Adolf Hitler? O Estado Islâmico é um inimigo tão ou mais perigoso que Hitler.

É sempre bom deixar claro que sou contra qualquer tipo de xenofobia e tentativas de misturar terroristas com o islamismo. Isso apenas alimenta o preconceito contra muçulmanos e acirramento de conflitos religiosos. Só que tentar justificar essa barbárie culpando as guerras, o imperialismo-estadunidense, não vai trazer paz ao mundo e derrotar um inimigo muito cruel, que não tem limite para a barbárie.

#soualiberdadedeexpressão contra crime e castigo em nome de Deus e dos profetas

Charlie

Fábio Piperno 

O covarde atentado contra a redação do Charlie Hebdo é uma daquelas tragédias que de alguma forma marcam nossas vidas. Enquanto vasculhava entre as muitas hipóteses sobre o que realmente poderia ter levado os irmãos Kouachi a cometer a revoltante chacina, comecei a pensar em alguns episódios que colocaram a liberdade de expressão em rota de colisão com a religião.

Nessa viagem pelo tempo, fiz uma escala na metade dos anos 80, quando o cineasta francês Jean-Luc Godard provocou o santo ódio com o filme “Je vous salue, Maria”. Quem tem menos de 45 anos pode estranhar, mas naquela época Godard era cult. Muito chato, porém cult. O filme, como quase toda obra do autor em questão, era arrastado. Só que acabou virando sensação por conta das iradas reações da Igreja Católica, enfurecida diante de uma Maria dessacralizada nas telas, vivendo como uma mulher comum.

Em transição para a normalidade democrática, aquele Brasil de 1986, governado por José Sarney e com o conservador Paulo Brossard no ministério da Justiça, sucumbiu à pressão das lideranças católicas e proibiu a exibição do filme. O veto foi uma festa para cineclubes que exibiam cópias piratas.

Um pouco mais tarde, perto do final da década, Martin Scorsese lançou a Última Tentação de Cristo. No filme, como qualquer mortal antes da vida eterna, o Cristo em corpo de homem namorou, bebeu, amou e viveu intensamente antes de ir parar na cruz. Obviamente, o catolicismo tradicional não achou a menor graça.

Lembro que assisti as agruras do Cristo de Scorsese em um finado cinema que ficava em uma travessa da avenida Paulista. No dia, havia uma equipe de televisão na calçada entrevistando os poucos espectadores que eram martirizados pelos ameaçadores olhares dos ultrajados (era como se sentiam) católicos.

Do outro lado do mundo, mais ou menos na mesma época, a coisa foi mais séria. Furioso com o livro Versos Satânicos, considerado ofensivo ao profeta Maomé, o aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica vitoriosa no Irã, emitiu uma fatwa condenando à morte o autor da obra, o escritor Salman Rushdie. O decreto do líder político e espiritual do país ordenava que o acusado fosse morto por ter cometido o crime de apostasia. Felizmente, o referido apóstata está vivo até hoje.

Poderia ficar aqui elencando um sem número de fatos em que a intolerância religiosa abriu uma guerra santa contra a liberdade de expressão. Tem para todos os gostos e crenças, da Inquisição ao fundamentalismo islâmico, passando pelas confissões evangélicas ou por protestantes racistas da Ku Klux Klan, que em áreas brancas dos civilizados Mississipi ou Texas não hesitavam em mandar para arder nas fogueiras os opositores de credo e de cor.

Fatos abomináveis podem ser listados no prontuário de todas as religiões, porque sempre se pecou muito em nome da fé. Qualquer que seja ela. E mesmo que fossem instituições absolutamente puras, inatacáveis, com que direito as igrejas, seus deuses e profetas podem exigir imunidade em relação à crítica, por mais direta e satírica que ela possa ser?

Lanço a pergunta por que diante da barbárie cometida contra a equipe do Charlie Hebdo não faltaram análises parcimoniosas e com atenuantes em favor dos criminosos. A pusilânime coligação de condenação à iconoclastia e ao suposto desrespeito da revista francesa uniu do filósofo Tariq Ali a acadêmicos canhestros, em aliança com subintelectuais de aluguel de várias partes do mundo. Gente que defendeu limites à liberdade de expressão, “que não tem o direito de agredir símbolos sagrados das religiões”.

O que não tem limites na verdade é o totalitarismo da fé, que há milhares de anos, ou desde sempre, não consegue conviver com a crítica, com a sátira e, porque não dizer, com os ataques intelectuais. Afinal, é sempre mais fácil queimar uma Joana D´Arc, condenar a 1000 chibatadas o blogueiro e acusado de blasfêmia Raif Badawi, como acaba de fazer o regime wahhabista da Arábia Saudita, ou dizimar covardemente cartunistas iconoclastas.

Circunscrever a liberdade de expressão a qualquer limite é, antes de tudo, um ato de covardia, que apequena uma sociedade. Quem se considera ultrajado, alvo da injúria, caluniado e, por que não dizer, desrespeitado, que procure se defender com base na lei ou nos mecanismos legítimos de pressão. Menos civilizado e subdesenvolvido é o povo que permite que a liberdade de expressão se torne uma refém amordaçada pela intolerância, seja ela política, corporativa ou religiosa.

Por acaso, haveria motivos para poupar do escárnio de uma sátira o Papa que colaborou com os nazistas, o telepastor brasileiro que patrocina o Carnê da Oração Incessante ou o profeta por quem oram os Talebãns? Eles merecem algum tipo de clemência da crítica?

Prefiro que os pensadores de diferentes matizes, credos e ideologias direcionem energias para melhor entender e enfrentar o fundamentalismo que busca sobrepor-se a direitos que deveriam ser inalienáveis em todas as sociedades.

É evidente que o Ocidente e amigos têm imensa parcela de culpa na proliferação de grupos como Al-Qaeda, Talebãns, Exército Islâmico ou Boko Haram. Afinal, muitos deles foram estimulados e armados pelos Estados Unidos, europeus e até árabes aliados para combater o que seriam inimigos comuns, como a antiga União Soviética no Afeganistão ou o regime de Bashar Al Assad, na Síria. Tais intervenções armaram a hidra na forma de fundamentalismo, que mais tarde voltou-se contra os financiadores e antigos parceiros. E o problema virou um bicho de sete cabeças, contra o qual não sabemos como lidar.

Combater o radicalismo religioso, usando a islamofobia como antídoto, tampouco ajuda. É um erro grotesco, além de um preconceito odiável. Têm razão os muçulmanos ocidentais quando se sentem cidadãos de segunda classe nas suas sociedades, que adoram estigmatizá-los. Estão certos quando acusam países ricos do Ocidente de pouco caso com suas mazelas, como o dramático êxodo dos refugiados sírios, com os palestinos sem pátria ou com as meninas e adolescentes da Nigéria dizimados pelo Boko Haram. Mas encontrar nessas tragédias humanas qualquer justificativa para chacinas como a do Charlie Hebdo é pusilânime. Detestar os cartuns da revista é um direito. Calá-los à força é criminoso.

Em algum momento do final da década de 80, uma escola de samba do Rio de Janeiro, acho que a São Clemente, desfilou com um enredo que homenageava o profeta. Um trecho do samba dizia algo como “….nessa história árabe não leva fé, que o arroz nasceu de uma gota do suor de Maomé”.

Se fosse hoje, temo que algo assim poderia fazer do samba a razão para alguma reação trágica.

Balanço do Sequestro em Sydney

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Os Acontecimentos

Na manhã de segunda-feira (15) na Austrália, um homem armado fez vários reféns em um Café em Sydney, New South Gales. A polícia cercou o local, e seis horas depois, três reféns saíram da cafeteria. Logo após, mais dois reféns deixaram o estabelecimento, sem a informação de autoridades se foram liberados ou se conseguiram fugir. Dezessete pessoas estavam no local na hora do sequestro.

Às 2h locais, a polícia invadiu o café após tiros terem sidos disparados pelo sequestrador. Na invasão, dois reféns e o atirador morreram, e outras seis pessoas ficaram feridas.

O Sequestrador

O sequestrador foi identificado como Man Haron Monis pela rede 9News. Monis é iraniano e mudou-se para a Austrália em 1996. Foi processado em 2009 por fazer uma campanha de cartas de ódio contra a ação militar no Afeganistão que teve ajuda de tropas australianas. No ano passado, ainda segundo a emissora, o homem foi suspeito de ter assassinado a ex-mulher, e em 2014, acusado de cometer diversos crimes sexuais.

A Bandeira

Durante as 16 horas que se deram o sequestro, uma bandeira preta com a shahada foi exposta pelo criminoso. A frase significa “Não há deus a não ser Deus, Maomé é o mensageiro de Deus”. Logo se levantou a questão de que a frase na bandeira exposta em Sydney aparecia também na bandeira do Estado Islâmico, o que foi suficiente para o jornal Huffington Post sugerir que o ato em Sydney seria politicamente motivado.

O erro aqui é partir do pressuposto que por usar a mesma frase que o grupo terrorista, o sequestrador seria um colaborador da causa. A shahada aparece em vários locais alheios ao EI, inclusive na bandeira da Arábia Saudita. Vários grupos radicais e moderados usam a shahada. Atrelar radicalismo islâmico à frase de fé é uma tremenda imprecisão.

As Reações

O local escolhido pelo sequestrador era estratégico, próximo ao parlamento de New South Wales, do Hospital de Sydney e da Suprema Corte do estado, o que gerou temor após o anúncio de que bombas estariam espalhadas pela região. Porém, a postura que a mídia australiana – especialmente a ABC – assumiu foi de extrema importância para o controle da disseminação do medo. Informando a população com clareza e divulgando mensagens de paz em vez de mensagens de medo, o temor foi contido e não generalizado.

Outra boa iniciativa foi a campanha I Will Ride With You, de solidariedade dos australianos aos muçulmanos e contra a islamofobia, além dos manifestos contrários ao crime por parte dos muçulmanos do país. Essas atitudes diminuem os efeitos colaterais de atos de terror, sejam eles de motivação religiosa, política ou qualquer outra.

O Balanço

O saldo é negativo. Vidas foram perdidas e pessoas ficaram feridas. Alguns meios de comunicação ainda foram rasos e feriram a moral da comunidade islâmica, como no caso supracitado. Entretanto, as melhores reações vistas na Austrália são bons exemplos de como lidar com atos terroristas ou situações de medo generalizado. O radicalismo, de qualquer origem, deve sempre ser colocado à margem, ser enfrentado e extinguido. O terror não pode continuar sendo uma ferramenta útil no mundo atual. Parabéns aos australianos por provarem que conseguimos combater esse mal, e força às famílias das vítimas.

Felipe Alves assina uma coluna quinzenal nesse blog. Seu primeiro texto foi: A liderança mundial e o saudosismo realista