Datafolha e Ibope: números conflitantes

Os resultados apontados pelas últimas pesquisas do Datafolha e do Ibope estão chamando muita atenção e, por que não dizer, desconfiança.  No Datafolha, Dilma aparece com 36%, Aécio com 20%, Campos com 8% e o Pastor Everaldo com 3%. No Ibope, Dilma aparece com 38%, Aécio com 22%, Campos com 8% e o Pastor Everaldo com 3%. Até aí, tudo dentro da normalidade. A polêmica se dá nas simulações de segundo turno.

No Datafolha, Dilma e Aécio aparecem tecnicamente empatados dentro da margem de erro da pesquisa que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Dilma com 44% e Aécio com 40%. Contra Eduardo Campos, a presidente Dilma venceria por 45% a 38%. No Ibope, Dilma, 41%, Aécio, 33%. Dilma, 41%, Campos, 29%.

Há uma disparidade nas duas pesquisas.  O Datafolha dá empate técnico entre Dilma e Aécio, já o Ibope dá uma diferença de oito pontos em favor de Dilma. O mesmo Datafolha dá sete pontos de vantagem à Dilma contra Campos enquanto o Ibope dá 12 pontos de vantagem para a atual presidente. Como as duas pesquisas foram divulgadas quase que simultaneamente, sem grandes acontecimentos no intervalo entre ambas, chama atenção a disparidade nos números.

Não sou desses que desconfia de pesquisas eleitorais, pelo contrário. Para mim, as pesquisas são a grande atração das eleições. Nelas que você acompanha a evolução dos candidatos e se estão ou não agradando a população. E também não sou desses que alimentam teorias conspiratórias. Só gosto de teorias conspiratórias em filmes, séries e novelas e mesmo assim se forem boas e convincentes.

Mas é notória uma diferença de metodologia nos dois principais Institutos. Isso porque preferi focar só nesses dois. Também chama atenção a diferença em relação aos números do Ibope e Datafolha a pesquisa Sensus que é divulgada na revista IstoÉ. Está claro que alguém precisa rever sua metodologia nas pesquisas eleitorais, ou os dois. Com a palavra, Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, e Mauro Paulino, do Datafolha.

Lula erra ao comparar campanhas de Haddad e Padilha

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Lula erra comparando a candidatura de Alexandre Padilha para o governo de São Paulo com a candidatura de Fernando Haddad (PT) para prefeitura da capital paulista em 2012. É verdade que Haddad chegou a ter apenas 3% nas pesquisas, mas isso foi em MARÇO daquele ano.

Alexandre Padilha (PT) tem míseros 4% de intenções de voto para governador de São Paulo, segundo a pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira. Só um milagre salvaria essa candidatura.

Um dos motivos para eu achar que a candidatura Padilha não tem jeito é que o fato de o PT sempre ter um mínimo de 30% em São Paulo, só que para chegar lá tem que largar na campanha com pelo menos 10 ou 15%. Menos de 5% complica. Apenas 4% em JULHO é muito pouco. E ainda temos Maluf pulando fora da chapa petista e desembarcando na chapa do PMDB de Paulo Skarf, o que prejudica Padilha no tempo de TV.

Além de Padilha não ser o Haddad, Geraldo Alckmin (PSDB) não tem a rejeição de José Serra (PSDB) e Skarf não é o Celso Russomanno. Mesmo com a crise de água provocada pelo pior período de seca em décadas em São Paulo, o governador Alckmin lidera a corrida ao Palácio Bandeirantes com 54% das intenções de voto.

Quem deve abrir um sorriso maroto vendo os 4% do Padilha é Marta Suplicy, preterida duas vezes por Lula. Em 2012 deu certo. Desta vez, parece que o plano de Lula de colocar um nome novo na disputa, uma renovação política, não vai dar certo.

O quadro para o PT é complicado em São Paulo. Justamente o maior colégio eleitoral do país, que pode decidir essa que é a eleição presidencial mais imprevisível desde 1989.

Eleições 2014: Pesquisa Datafolha

Nova pesquisa Datafolha mostra Dilma na frente com 36%, Aécio, 20%, Eduardo Campos, 8%, e Pastor Everaldo, com 3%.

Desde fevereiro Aécio Neves tirou 23 pontos de diferença para Dilma Rousseff nas simulações de segundo turno. Eduardo Campos tirou ainda mais, 25 pontos.

A diferença de Dilma para os demais candidatos nessa pesquisa é de 0 ponto. No limite para ter segundo turno, o que deixa a disputa presidencial ainda mais imprevisível. Sem dúvida essa eleição é a mais imprevisível desde a eleição de 1989. A primeira eleição presidencial depois da redemocratização.

Sem as propagandas da Caixa e Petrobras no clima de Copa mostrando o sucesso na organização do torneio e as notícias não agradáveis sobre a economia, resta para Dilma o maior tempo no horário eleitoral. E torcer para o João Santana fazer aqueles filmes Disney.

Os números dessa pesquisa são preocupantes para o Planalto e o PT. É para ligar o sinal amarelo, mas cair no desespero só piora a situação. A alegria da oposição, sobretudo os tucanos, é justificável, porém com parcimônia.

A volta da República Café com Leite

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Aécio e Aloysio, a dupla café com leite.

Na última segunda-feira (30), Aécio Neves confirmou o nome de Aloysio Nunes Ferreira, Senador por São Paulo, como seu vice na candidatura à presidência da República. Aloysio era um dos nomes cotados ao lado do tucano e ex-governador do Ceará, Tasso Jereissati, da deputada Mara Gabrilli (PSDB/SP) e da ex-ministra do STF, Ellen Gracie.

Ficou conhecido como “política do café-com-leite” o arranjo político que vigorou no período da Primeira República (mais conhecida pelo nome de República Velha), envolvendo as oligarquias de São Paulo, Minas Gerais e o governo central no sentido de controlar o processo sucessório, para que somente políticos desses dois estados fossem eleitos à presidência de modo alternado. Assim, ora o chefe de estado sairia do meio político paulista, ora do mineiro.

O arranjo político organizado pelo próprio Aécio também ganhou essa alcunha. Porém, além de recordar da República Café com Leite, a indicação de Aloysio traz uma questão mais importante. O PSDB nasceu para ser o partido da Social Democracia em 1987, mas ao longo dos anos foi ficando mais perto de conservadores – alguns reacionários. Um partido que em sua origem era de centro esquerda passou para a centro direita quando assumiu o poder em 1994 na eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso e que depois da vitória de Lula em 2002 viu o PT se transformar de esquerda para centro esquerda, ocupando o lugar que era dos tucanos.

Com a indicação de Aloysio, Aécio procura os votos dos insatisfeitos, dos “contra tudo que está aí”. Torna-se cada vez mais o “candidato da direita”, da direita conservadora e até da ultra direita. É um caminho. Até porque falta um candidato com esse perfil. Mas foge das características e mata de vez as origens do PSDB, além de não ser garantia de vitória. Também é preciso saber se é esse o caminho que Aécio deseja seguir ou se foi apenas para trazer José Serra e a ala paulista para campanha – Aloysio Nunes é serrista – e agradar os eleitores de São Paulo. Lembrando que, na eleição de 2010, Aloysio Nunes foi eleito senador com 11 milhões de votos, mas beneficiado com a morte do ex-governador Orestes Quércia, cuja família pediu que seus eleitores votassem em Aloysio.

Contudo, Aécio precisa ter em mente que não dá para fazer um discurso de “ajuste fiscal, tomar medidas impopulares” e ao mesmo tempo fazer um discurso mais para esquerda como transformar o programa Bolsa Família em programa de Estado, por exemplo. Vai chegar a hora que vai ter que escolher uma bandeira e descer do muro.

Três programas, três estratégias

PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado

Vinícius Melo Justo (@relances)

No estágio de pré-campanha, muitas informações podem ser erráticas. O jogo político brasileiro é consideravelmente menos previsível do que o americano, por exemplo: o multipartidarismo, a falta de interesse da maioria da população até o momento próximo da eleição e a importância da propaganda na televisão tornam bastante difícil prever certos movimentos com precisão. O caso Russomanno nas eleições municipais em 2012 mostra como as expectativas podem ser revertidas na dinâmica nacional, embora diversos fatores estudados a fundo pela Ciência Política permitam compreender ao menos as possibilidades mais plausíveis a serem consideradas na análise.

O jogo dos bastidores pode ser ainda mais complicado, pois dependerá sempre da qualidade das informações obtidas pela imprensa – e na política ninguém fornece algo sem algum interesse, mesmo que seja apenas pela publicidade de certos fatos. Mas o horário partidário na televisão tende a ser mais transparente em relação à interpretação do momento feita pelos partidos, indicando a tendência de cada um quanto ao modo como percebem as necessidades imediatas da campanha.

Com alguma distância temporal entre si, os programas recentes de PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado com vistas à corrida presidencial. Analisá-las permite identificar as diferenças em seus objetivos e estratégias, ainda que a linguagem publicitária leve a alguma padronização esperada das mensagens. No entanto, a leitura precisa entender, para além das preferências partidárias e ideológicas, o que a forma dos programas diz para além de seu significado mais explícito.

Programa do PSB (27 de março de 2014)

BRASÍLIA, DF, BRASIL 05.10.2013 - MARINA SILVA/PSB: A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB e fecha acordo político com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para a corrida presidencial de 2014. Foto: Alan Marques/Folhapress
BRASÍLIA, DF, BRASIL 05.10.2013 – MARINA SILVA/PSB: A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB e fecha acordo político com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para a corrida presidencial de 2014. Foto: Alan Marques/Folhapress

Existem estilos concorrentes na propaganda do PSB, divulgada há pouco mais de dois meses. A abertura tem um espírito jovial, chamando por “atenção” e servindo para diferenciar-se da programação normal da TV. Então, no primeiro minuto, ouvimos Eduardo Campos e Marina Silva falarem sobre o que seria sua maior semelhança: ambos “de luta e de paz”, com a ênfase algo desconfortável de Campos no epíteto “filhos da esperança” – distanciando-se do jovial presente nos primeiros segundos em favor de algum popularismo. Em outra chave, o filtro sépia parece tentar produzir a ideia de uma visão diferente das coisas, causando alguma estranheza pelo aspecto envelhecido da imagem.

Gasta-se algum tempo procurando “justificar” a aliança PSB-Rede, concentrando-se nas qualidades pessoais de Campos e Marina e no tema do desenvolvimento sustentável, bem definido em suas intenções mas pouco ou nada descrito em termos de propostas. Aproveitou-se o tema para a crítica à gestão da Petrobrás, ao elogio dos avanços econômicos até Lula, tomando o cuidado para criticar apenas Dilma, investindo contra os retrocessos. De maneira clara, o programa busca o eleitor algo descontente com o atual governo mas que esteve satisfeito durante o período Lula: não tanto um posicionamento à esquerda do PT, mas de afirmação de maior capacidade para “transformar o país”.

A estratégia de Campos, no entanto, talvez não encontre o melhor resultado nessa mescla de estilos visuais, mas na ideia por trás do programa: a produção de diálogo, conversas. Há duas necessidades subentendidas aí: primeiramente tornar Campos conhecido entre os brasileiros, apoiando-se no recall de Marina em relação a 2010; em segundo lugar, definir-se como o candidato da busca de consenso, rejeitando o atual rumo nacional mas considerando suas virtudes. Uma estratégia típica de terceira via, mas ainda em busca de sua melhor tradução visual.

Programa do PSDB (17 de abril de 2014)

Senador Aécio Neves (PSDB/MG)
Senador Aécio Neves (PSDB/MG)

Antecipado, o programa do PSDB também investe na conversa. Mas em vez disso o que se tem é uma espécie de entrevista de Aécio, com o apagamento do entrevistador. Existe uma narrativa muito clara no programa, começando pela história de vida de Aécio (conectando-o ostensivamente ao avô Tancredo Neves), sua passagem na Câmara e no Governo de Minas, sua opinião sobre os protestos de junho de 2013. Tudo isso entremeado com imagens antigas, dados e trechos de outros programas. Um programa bastante tradicional, talvez de propósito.

O principal objetivo é, além de tornar Aécio mais conhecido e simpático ao grande público, é apresentar suas qualidades como gestor público e comprometido com o funcionamento do governo e não com os arranjos políticos. Sobram críticas, sutis ou não, ao atual governo, posicionando-o como um candidato de oposição muito bem definido. Acena também para os participantes dos grandes protestos, defendendo o diálogo (assim como Campos).

A diferença entre os diálogos de Campos e Aécio é clara: este pretende conversar com o povo para conhecer os problemas que seriam produzidos pela ineficiência do governo, aquele para construir entendimentos de interesse nacional. É de se notar que no segundo caso existe a pressuposição de que algum consenso é possível e desejável – enquanto no primeiro a ideia é totalmente representativa: Aécio conversa para depois atuar em nome daqueles que representa. Assim, define-se na oposição de forma eficiente, mas dificulta um pouco o necessário diálogo com aqueles que Campos tenta atingir – os eleitores de Lula descontentes com Dilma.

Programa do PT (16 de maio de 2014)

Presidente Dilma Rousseff
Presidente Dilma Rousseff

Bastante criticado pelo tom de “medo”, o programa do PT aposta em atacar os “fantasmas do passado”, procurando minar desde já o discurso oposicionista, garantindo que o PT produzirá os melhores resultados para as mudanças necessárias no Brasil. É um claríssimo caso de programa composto para “segurar” o voto que já tem, buscando evitar a migração de eleitores apresentando os triunfos de todo o período do PT.

A dependência de Lula ainda é muito sensível. Dilma não tem tanto carisma e elocução quanto Aécio e Campos, ainda menos comparada ao seu antecessor. Portanto, o programa investe mais em quadros informativos e segmentos específicos. O risco aí é parecer muito autoindulgente: citar inúmeros avanços e reduzir as críticas a “pessimismo” aliena de forma decisiva o eleitor descontente, mas fortalece a convicção daqueles já dispostos a votar pela continuidade.

Mas há problemas. Chama a atenção, por exemplo, a fórmula estranha de Rui Falcão ao dizer que os protestos de 2013 revelam a necessidade de uma reforma política: “é como um corpo novo numa alma velha”, conclamando por uma “constituinte exclusiva”. Não seria o contrário? Uma alma nova presa pelo corpo envelhecido? A inversão faz pensar: terá o PT a convicção de que o problema é a mentalidade e não a estrutura? É um abandono curioso da ideia da estrutura social determinando as condições objetivas nacionais.

As diferenças visíveis entre os três programas indicam como a eleição presidencial está aberta neste momento – talvez como nunca desde 1989. As três estratégias, procurando consolidar as trincheiras de cada um dos candidatos, serão mais desenvolvidas em agosto – mas, até lá, o cenário forçará mudanças. Para quem quer entender o processo, é preciso acompanhar passo a passo.

Vinícius Melo Justo é graduado em Letras e mestrando em Teoria Literária pela USP.