A volta da República Café com Leite

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Aécio e Aloysio, a dupla café com leite.

Na última segunda-feira (30), Aécio Neves confirmou o nome de Aloysio Nunes Ferreira, Senador por São Paulo, como seu vice na candidatura à presidência da República. Aloysio era um dos nomes cotados ao lado do tucano e ex-governador do Ceará, Tasso Jereissati, da deputada Mara Gabrilli (PSDB/SP) e da ex-ministra do STF, Ellen Gracie.

Ficou conhecido como “política do café-com-leite” o arranjo político que vigorou no período da Primeira República (mais conhecida pelo nome de República Velha), envolvendo as oligarquias de São Paulo, Minas Gerais e o governo central no sentido de controlar o processo sucessório, para que somente políticos desses dois estados fossem eleitos à presidência de modo alternado. Assim, ora o chefe de estado sairia do meio político paulista, ora do mineiro.

O arranjo político organizado pelo próprio Aécio também ganhou essa alcunha. Porém, além de recordar da República Café com Leite, a indicação de Aloysio traz uma questão mais importante. O PSDB nasceu para ser o partido da Social Democracia em 1987, mas ao longo dos anos foi ficando mais perto de conservadores – alguns reacionários. Um partido que em sua origem era de centro esquerda passou para a centro direita quando assumiu o poder em 1994 na eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso e que depois da vitória de Lula em 2002 viu o PT se transformar de esquerda para centro esquerda, ocupando o lugar que era dos tucanos.

Com a indicação de Aloysio, Aécio procura os votos dos insatisfeitos, dos “contra tudo que está aí”. Torna-se cada vez mais o “candidato da direita”, da direita conservadora e até da ultra direita. É um caminho. Até porque falta um candidato com esse perfil. Mas foge das características e mata de vez as origens do PSDB, além de não ser garantia de vitória. Também é preciso saber se é esse o caminho que Aécio deseja seguir ou se foi apenas para trazer José Serra e a ala paulista para campanha – Aloysio Nunes é serrista – e agradar os eleitores de São Paulo. Lembrando que, na eleição de 2010, Aloysio Nunes foi eleito senador com 11 milhões de votos, mas beneficiado com a morte do ex-governador Orestes Quércia, cuja família pediu que seus eleitores votassem em Aloysio.

Contudo, Aécio precisa ter em mente que não dá para fazer um discurso de “ajuste fiscal, tomar medidas impopulares” e ao mesmo tempo fazer um discurso mais para esquerda como transformar o programa Bolsa Família em programa de Estado, por exemplo. Vai chegar a hora que vai ter que escolher uma bandeira e descer do muro.

Três programas, três estratégias

No estágio de pré-campanha, muitas informações podem ser erráticas. O jogo político brasileiro é consideravelmente menos previsível do que o americano, por exemplo: o multipartidarismo, a falta de interesse da maioria da população até o momento próximo da eleição e a importância da propaganda na televisão tornam bastante difícil prever certos movimentos com precisão. O caso Russomanno nas eleições municipais em 2012 mostra como as expectativas podem ser revertidas na dinâmica nacional, embora diversos fatores estudados a fundo pela Ciência Política permitam compreender ao menos as possibilidades mais plausíveis a serem consideradas na análise.

O jogo dos bastidores pode ser ainda mais complicado, pois dependerá sempre da qualidade das informações obtidas pela imprensa – e na política ninguém fornece algo sem algum interesse, mesmo que seja apenas pela publicidade de certos fatos. Mas o horário partidário na televisão tende a ser mais transparente em relação à interpretação do momento feita pelos partidos, indicando a tendência de cada um quanto ao modo como percebem as necessidades imediatas da campanha.

Com alguma distância temporal entre si, os programas recentes de PSB, PSDB e PT apresentam formas distintas de aproximação com o eleitorado com vistas à corrida presidencial. Analisá-las permite identificar as diferenças em seus objetivos e estratégias, ainda que a linguagem publicitária leve a alguma padronização esperada das mensagens. No entanto, a leitura precisa entender, para além das preferências partidárias e ideológicas, o que a forma dos programas diz para além de seu significado mais explícito.

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Programa do PSB (27 de março de 2014)

A ex-senadora Marina Silva anuncia sua filiação ao PSB

Existem estilos concorrentes na propaganda do PSB, divulgada há pouco mais de dois meses. A abertura tem um espírito jovial, chamando por “atenção” e servindo para diferenciar-se da programação normal da TV. Então, no primeiro minuto, ouvimos Eduardo Campos e Marina Silva falarem sobre o que seria sua maior semelhança: ambos “de luta e de paz”, com a ênfase algo desconfortável de Campos no epíteto “filhos da esperança” – distanciando-se do jovial presente nos primeiros segundos em favor de algum popularismo. Em outra chave, o filtro sépia parece tentar produzir a ideia de uma visão diferente das coisas, causando alguma estranheza pelo aspecto envelhecido da imagem.

Gasta-se algum tempo procurando “justificar” a aliança PSB-Rede, concentrando-se nas qualidades pessoais de Campos e Marina e no tema do desenvolvimento sustentável, bem definido em suas intenções mas pouco ou nada descrito em termos de propostas. Aproveitou-se o tema para a crítica à gestão da Petrobrás, ao elogio dos avanços econômicos até Lula, tomando o cuidado para criticar apenas Dilma, investindo contra os retrocessos. De maneira clara, o programa busca o eleitor algo descontente com o atual governo mas que esteve satisfeito durante o período Lula: não tanto um posicionamento à esquerda do PT, mas de afirmação de maior capacidade para “transformar o país”.

A estratégia de Campos, no entanto, talvez não encontre o melhor resultado nessa mescla de estilos visuais, mas na ideia por trás do programa: a produção de diálogo, conversas. Há duas necessidades subentendidas aí: primeiramente tornar Campos conhecido entre os brasileiros, apoiando-se no recall de Marina em relação a 2010; em segundo lugar, definir-se como o candidato da busca de consenso, rejeitando o atual rumo nacional mas considerando suas virtudes. Uma estratégia típica de terceira via, mas ainda em busca de sua melhor tradução visual.

Programa do PSDB (17 de abril de 2014)

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Antecipado, o programa do PSDB também investe na conversa. Mas em vez disso o que se tem é uma espécie de entrevista de Aécio, com o apagamento do entrevistador. Existe uma narrativa muito clara no programa, começando pela história de vida de Aécio (conectando-o ostensivamente ao avô Tancredo Neves), sua passagem na Câmara e no Governo de Minas, sua opinião sobre os protestos de junho de 2013. Tudo isso entremeado com imagens antigas, dados e trechos de outros programas. Um programa bastante tradicional, talvez de propósito.

O principal objetivo é, além de tornar Aécio mais conhecido e simpático ao grande público, é apresentar suas qualidades como gestor público e comprometido com o funcionamento do governo e não com os arranjos políticos. Sobram críticas, sutis ou não, ao atual governo, posicionando-o como um candidato de oposição muito bem definido. Acena também para os participantes dos grandes protestos, defendendo o diálogo (assim como Campos).

A diferença entre os diálogos de Campos e Aécio é clara: este pretende conversar com o povo para conhecer os problemas que seriam produzidos pela ineficiência do governo, aquele para construir entendimentos de interesse nacional. É de se notar que no segundo caso existe a pressuposição de que algum consenso é possível e desejável – enquanto no primeiro a ideia é totalmente representativa: Aécio conversa para depois atuar em nome daqueles que representa. Assim, define-se na oposição de forma eficiente, mas dificulta um pouco o necessário diálogo com aqueles que Campos tenta atingir – os eleitores de Lula descontentes com Dilma.

Programa do PT (16 de maio de 2014)

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Bastante criticado pelo tom de “medo”, o programa do PT aposta em atacar os “fantasmas do passado”, procurando minar desde já o discurso oposicionista, garantindo que o PT produzirá os melhores resultados para as mudanças necessárias no Brasil. É um claríssimo caso de programa composto para “segurar” o voto que já tem, buscando evitar a migração de eleitores apresentando os triunfos de todo o período do PT.

A dependência de Lula ainda é muito sensível. Dilma não tem tanto carisma e elocução quanto Aécio e Campos, ainda menos comparada ao seu antecessor. Portanto, o programa investe mais em quadros informativos e segmentos específicos. O risco aí é parecer muito autoindulgente: citar inúmeros avanços e reduzir as críticas a “pessimismo” aliena de forma decisiva o eleitor descontente, mas fortalece a convicção daqueles já dispostos a votar pela continuidade.

Mas há problemas. Chama a atenção, por exemplo, a fórmula estranha de Rui Falcão ao dizer que os protestos de 2013 revelam a necessidade de uma reforma política: “é como um corpo novo numa alma velha”, conclamando por uma “constituinte exclusiva”. Não seria o contrário? Uma alma nova presa pelo corpo envelhecido? A inversão faz pensar: terá o PT a convicção de que o problema é a mentalidade e não a estrutura? É um abandono curioso da ideia da estrutura social determinando as condições objetivas nacionais.

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As diferenças visíveis entre os três programas indicam como a eleição presidencial está aberta neste momento – talvez como nunca desde 1989. As três estratégias, procurando consolidar as trincheiras de cada um dos candidatos, serão mais desenvolvidas em agosto – mas, até lá, o cenário forçará mudanças. Para quem quer entender o processo, é preciso acompanhar passo a passo.

 Vinícius de Melo Justo, graduado em Letras e mestrando em Teoria Literária pela USP. Twitter: @relances

Não existe amor em SP?

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Kaio Esteves

Fica um pouco difícil de compreender a real estratégia que o PSDB está adotando para aumentar o potencial político do presidenciável e senador Aécio Neves. Aécio, em agosto do ano passado, iniciou sua agenda política no estado de SP, maior colégio eleitoral do país, mas parece não receber o apoio necessário do governador do Estado e tucano Geraldo Alckmin.

Durante as visitas nas cidades médias do interior do estado, o governador não acompanhou Aécio em sua maioria. Há 20 dias, o governador esteve em Araçatuba e foi recepcionado apenas pelo deputado estadual Dilador Borges e, num evento tucano realizado numa cervejaria da cidade, encontrou-se com Aloysio Nunes e outros membros do partido.

A ausência de Alckmin tem sido alvo de críticas internas de alguns tucanos que apoiam Aécio. Membros do partido afirmam que a montagem paralela de outra estrutura de governo pode ser algo prejudicial ao PSDB há poucos meses das eleições.

Inicialmente, Alckmin preferiu não acompanhar Aécio nos encontros para não se comprometer com José Serra, que ainda pleiteava uma vaga para concorrer à presidência pelo partido. Porém, mesmo após Serra ter desistido de se candidatar, o governador não parece ter feito esforços para engajar apoio ao senador.

Nas visitas de Aécio, a crítica ao atual governo são parte da pauta, naturalmente, além da sequência de argumentos onde o senador cita a desvalorização da Petrobras após o PT assumir o governo federal. Segundo ele, a petrolífera perdeu 55% de seu valor durante o governo Dilma.

Enquanto isso, a aprovação de Dilma manteve os mesmos percentuais de novembro do ano passado, segundo a Datafolha. A preocupação em evitar protestos durante a Copa do Mundo, em junho, e em tentar remendar as feridas que a economia sofreu nos últimos meses têm feito os dias da presidenta mais difíceis.

Ainda assim, mesmo com a queda nas últimas pesquisas, a clara divisão nas intenções de voto entre Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) colocam a presidenta como a favorita em outubro.

Aécio tenta convencer um eleitorado que pouco conhece suas ideias e projetos, enquanto Eduardo Campos aposta no sucesso durante a colheita dos votos dos “marineiros”.

Kaio Esteves é jornalista em Araçatuba. Atua como repórter do jornal O Liberal Regional e é colaborador na Folha de S. Paulo

Articulações 2014

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O ano ainda está nos seus primeiros dias e a política nacional já ferve. Articulações em todos os partidos para as convenções partidárias que indicarão os candidatos e as respectivas alianças para a campanha eleitoral de 2014.

Situação

O clima é pesado entre PT e PMDB. A relação dos dois principais partidos da situação balança e pode separar os dois. O PMDB quer aumentar sua participação no governo, e quer que esse aumento se manifeste com mais cargos relevantes, só que o governo tem outros partidos para “agradar” na reforma ministerial. Como o PSD, de Gilberto Kassab; o PROS, do governador do Ceará Cid Gomes, que deixou o PSB para apoiar Dilma Rousseff; o PTB; e outros. E não tem cargos para todos. A não ser que o governo inche ainda mais a máquina pública criando novas pastas ministeriais, algo impensável em um momento que o governo procura economizar para a inflação não desgarrar da meta  e recuperar a confiança perdida de empresários, economistas e investidores, mundo afora.

Atrelado a isso, há a disputa em ebulição no Rio de Janeiro, onde o PT não abre mão de lançar o senador Lindbergh Farias como candidato ao governo. O partido já até decidiu deixar as secretarias e cargos que ocupa no governo Sergio Cabral, a partir do dia 28 de fevereiro, fazendo com que o próprio governador optasse por antecipar seu desligamento das atividades de liderança máxima do estado fluminense para dar mais visibilidade a seu candidato, bem como ter caminho livre para concorrer ao senado federal, como projetado. O PMDB condiciona o apoio do partido à reeleição de Dilma ao contraponto petista na situação do vice-governador Luiz Fernando Pezão, num claro caso de “quid pro quo”, além do já referido desejo de mais participação em Brasília.

Não é apenas no Rio, porém, que PT e PMDB têm dificuldades de encontrar um denominador comum. No Ceará, também existe racha, embora não diretamente entre estes dois partidos. Por lá, a direção do PT tenta manter a aliança vitoriosa que se sustenta desde 2006 com PMDB e o grupo político de Ciro e Cid Gomes. O senador Eunicio Oliveira (PMDB) não abre mão de ser candidato ao governo do Estado e garante que concorrerá com ou sem apoio petista. Inclusive, já admite disputar governo em aliança com Tasso Jereissati (PSDB), ex-governador e aposentado político que deve se candidatar ao senado a pedido de Aécio Neves, já que o presidenciável considera fundamental ter um palanque de destaque no Estado.

Oposição

Do outro lado também há muita indefinição. O PSDB ainda não fechou qualquer aliança oficialmente e parece não se incomodar, já que o Aécio diz aos quatro cantos que ainda é cedo para fechá-las. Na dobradinha PSB/REDE, há um racha claro entre os grupos de Eduardo Campos e Marina Silva. Campos quer que Marina seja sua vice, mas para isso ela quer que o PSB tenha candidato ao governo de São Paulo e não apoie a reeleição do governador Geraldo Alckmin, do PSDB.

Fora isso, se as pesquisas continuarem com Marina na frente de Aécio e bem à frente de Campos, o panorama pode mudar com Marina sendo lançada como a candidata do PSB, o que mudaria o cenário da corrida ao Planalto 2014. Só que Eduardo Campos não está disposto a abrir mão de seu lugar na disputa, e, dizem seus correligionários, a candidatura do presidente nacional do partido ao planalto é sem volta, ainda que os números do governador de Pernambuco não aumentem nas pesquisas.

Segundo alguns analistas políticos, o objetivo de Eduardo Campos não é ganhar já em 2014, mas consolidar seu nome nacionalmente para 2018.

No PSOL, Luciana Genro, do próprio partido, foi convidada para ser a vice na chapa que tem o senador pelo estado do Amapá, Randolfe Rodrigues, como candidato a presidência.

Como se vê, a política ferve, mas com muitas indefinições. Só a partir de março começarão a se definir os caminhos para a campanha que começa em julho. Até lá, muitas especulações e jogos políticos – ou chantagens políticas -, por cargos em governos atuais e futuros, ainda passarão por debaixo da ponte chamada Eleições 2014.